quarta-feira, 2 de julho de 2014

O bode da Carminha

Autor: Willes S Geaquinto

Lugar de gente muito simples e boa de prosa é Sobradinho, que fica em São Tomé das Letras. Foi lá que eu e mais uma leva de caipiras estávamos conversando sobre bichos de estimação. Conversa fluindo daqui e dali, cada qual falando dos seus bichos preferidos: pato, galinha, peru, cavalo, tatu, lagarto, pavão, macaco, cachorro, gato, papagaio, até que o compadre Hilário um caipira muito divertido contou-nos esse causo que, de certo modo, podemos classificar como bastante pedagógico. Para manter o clima da narrativa e sua originalidade, passo para ele a palavra, como é de costume nas rodas de contação em Sobradinho:
– conta aí, compadre Hilário...
Ói procê  vê! Tão logo eu e mais a Carminha casamo, a gente foi morá num sítio ali pertim de Treis Pontas, propriedade do tio Zé dos Reis, um irmão do meu pai que tinha muito gosto pelo meu trabaio. Então, eu  tava lá que nem abeia no mel  no disfruti dos primeiros dias de casório, quando na segunda-feira bem cedinho, inhantes deu saí pro cafezá, ela decretô:
 – Óia Hilário, num quero sabê de bicho dendicasa! 
E, pra módi dá o exempro, ela foi logo despachando pra casa davó o Sansão, um gato preto peludo e preguiçoso que a véia tinha dado de presente já fazia um bão tempo. Então,  prela não dizê quieu num tava nem aí pro pobre do gato, inté falei:
 –  Óia Carminha,  presente de vó a gente num devorve não, é farta dinducação.
Ela deu  de  ombro  e me oiô dum jeito quinté arrepiu me deu,  e eu que num sô bobo nem nada fechei a matraca pra nunca mais.
E assim a gente foi vivendo, ano pós ano, numa carmaria que dava gosto de vê. Galinha no galinheiro, vaca no currar, cachorro na casinha, passarinho no terrero...  Mais, cunfórmi diz o ditado, alegria de pobre costuma durá poco, né. E assim, meio que do nada,  o trem desimbestô quando o Nardinho nosso fio deitô lenha na fogueira pra tirá nossosego.  Pra módi oceis  ficá sabendo, nóis démo nome do moleque de Reinardo Cerezo, pra homenageá os jogadô do Atrético Minero, time do coração do finado pai da Carminha.
Pois então, Nardinho já tinha pra mais de cinco anos didadi quando apareceu lá no sítio um cabocro vindo do Córgodouro vendendo uns bode piquitinho qui só. E foi nessa ocasião que a porca começô a torcê o rabo e as oreia tamém,  causdiquê  o menino cismô que queria um bodinho daqueis.  E pra piorá  a situação, o danado  grudô num fiotinho branquinho que nem muquirana em costura de capa véia. Óia, inté prometi  dá uma bola de capotão novinha prele, manum teve jeito não, a querência dele era o bode memo. Até apelei pra Carminha módi vê si ela ajudava a resorve a situação:
 – O quiocê acha muié?
Ela não disse nem sim nem não, resmungô uma coisa quarqué e num passô disso. Como num atinei otro jeito de mi safá daquela pedição do Nardinho, acabei comprando o  tar do bode, que ele foi logo batizando de Danilo.  E pra garanti que o bicho num ia entrá dendicasa, fiz logo um cercadinho pertim do galinheiro pra módi ele tê onficá.
Falá proceis, lá no fundinho dos pensamento inté aventei a esperança diquê a compra do bode ainda pudesse resurtá em arguma boa serventia. Cheguei inté pensá: “agora o Nardinho vai tê o que fazê e vai dexá  de corre atrais das galinha”.  Mais, como desgraça pôca é só sinar de que tá vindo uma ainda maió, o pobrema logo deu o ar da existença  quando o Nardinho disse  pra Carminha que ela tinha que dá mamadeira pro Danilo,  causdiquê ele num tinha a mãe pra dá de mamá. Imagina oceis o que aconteceu... A Carminha ficô tiririca da vida com o menino:
 – Ocê  tá pensando o que seu moleque sambanga, já num basta o tempo que tive que dá de mamá procê, agora vô tê que cuidá de bode tamém?  Ocê pó tirá o burrinho da chuva, não vô mexê uma paia pra oiá esse bicho. Quem mandô tirá ele diperdamãe...
O menino inté assustô com a resposta dela, manum desistiu não:
 – Se o Danilo morrê de fome, Deus vai castigá!
Óia,  foi como se um raio tivesse paralisado a Carminha. Ela ficô ali, pálida dimais da conta quando ouviu o que o Nardinho tinha respondido. Ela que era muita da religiosa e vivia fazendo novena, dezena e até centena pra tudo quanto é santo, entrô pra dendacozinha,  sentô numa cadera véia perdufogão e ficô  lá oiando pro nada por um tempo que parecia num tê fim. Nessa artura do acontecido eu tamém nem me mexi, fiquei ali no terrero fumando um paiero quietinho quinem uma sombra, matutando. Tinha quascerteza que no finar das conta arguma coisa ia sobrá pra mim. E não deu otra, foi acabá de pensá e a muié gritô lá da pordacozinha:
 – Tá vendo seu Hilário, quem mandô ocê compra o bode, seu linguarudo duma figa! Agora ocê pode dá um jeito de dá mamá prele.
Óia sieu tivesse respondido os xingamento da Carminha, eu num sei aondi a gente ia pará, então resorvi jogá água fria na fervura pro bem de todos nóis.
– Faiz o seguinte muié, ocê perpara o leite quieu mais o Nardinho damo de mamá pro Danilo.
– Tá bão, meió assim. Quem pariu o bode que cuidele. Ela disse pondo fim ao conversê que, se deixasse, podia descambá pra deus sabi o quê.
E assim o bode foi crescendo inté desmamá e passá a vive só do pasto e dum cadiquinho di ração, qui o compadre Anibal lá da venda recomendô pra módi o bicho fica mais forte. Passado mais de ano o Danilo já era um bode bem crescido, cum chifre e tudo. E o danado do bicho era muito do inteligente e gostava dum carinho na cabeça que só. O Nardinho gostava dimais da contado do bichinho e ele também tinha muito querê pelo  moleque; se algum estranho chegasse muito perto do Nardinho era inté capaiz de levá uma chifrada do bode.  Ontava o Nardinho, tava tamém o Danilo com toda a sua branquitude e facerice.  Nardinho inté proseava cum o bode e arrastava ele pra todo lugar. Só não levava pra escola e pra igreja, módiquê  nem dona Nastácia diretora da escola e nem o padre Zeca dexavam.
– O bode tamém é fio di Deus, dizia o Nardinho pro padre.
– Criatura de Deus ele é, mas, a igreja é lugar de gente. Já imaginou o tamanho da bagunça se todo mundo resolvesse trazer os bichos de estimação para missa? Respondia o Padre, quasperdendo a paciência com o moleque.
Compadre Irineu, um cabocro amigo meu, me disse certa veiz que chuva forte é uma coisa, tempestade é otra diferente dimais da conta.  E foi isso que lembrei quando começô a chovê naquela noite. Óia, cheguei inté pensá que era o tar do dilúvio vortando. Foi uma ventania daquelas de derrubá arvre, posti e tudo que tivesse pela frente. Era trovão torvejando  e raio relampiando no céu pra tudo qué lado.  Num demorô  e a luz acabô, como sempri acontecia quando chovia mais forte na roça.  Acendemo uma lamparina véia que tava lá pra acudi nessas hora, e a Carminha se pois inté a rezá pra módi pedi proteção pra tudo qué santo.  E foi no meio desse  banzé  dusinferno que escuitemo um baruio  grandi dimais da conta vindo das banda do quarto do Nardinho. Coisa de dá medo inté em assombração.
– Uai, vai lá vê o que aconteceu hómi de Deus! Gritô a Carminha assustada, tremendo que nem vara verdi.
Nessas hora ocê não pensa né, só vai.  Então fui, e assim que abri a pordoquarto tava lá o Nardinho consolando o coitado do bode que tava  todo moiado e tremendifriu. Aconteceu que o bicho no desespero com o baruio das trovoadas, sartô a janela pra dendoquarto do moleque módiscondê do temporar.  Meio ressabiado chamei a Carminha pra vê o acontecido e ajudá consolá o Nardinho quetava assustado pra mais de metro. Então prá nossurpresa e de todos os santo, ela veio e trouxe inté uma tuaia pra enxugá o bode, e mais um cobertô módi elisquentá. No Nardinho ela só passô a mão na cabeça e disse rindo:
 – Até que ele num tem nadibobo nessas hora, né! 
Depois que passô a tempestade e a luz vortô, Nardinho resorveu qui já era hora de levá o bode pro cercadinho dele.  E aí foi que a nossa surpresa dobrô de tamanho. A Carminha, passando a mão na cabeça do bode, disse:
– Meió dexá o Danilo dendicasa até o coitado se recobrá do susto, Nardinho!
O moleque oiô pra mim e eu oiei prele sem entendê nadica di nada. Inté cochichei prele módi ela num ovi:
 – O que será que tá acontecendo? Tem base? Antes da chuva a muié odiava o bode, agora qué que ele fique dendicasa?
Nardinho tamém ficô assim meio desconfiado, mas obedeceu a mãe e levô  o Danilo pra perdufogão de lenha pra módi elisquentá. Carminha arrumô uma coberta véia no chão, o bode si ajeitô e dormiu ali memo. E nóis, depois de todo aquele rebuliço, tamém fomdormi. Antes de fechá ozóio ainda oiei pra Carminha meio cismado.  Contá proceis,  ela tava cuma cara boa dimais da conta que davinté pra disconfiá si aquilo tudo não tinha passado de argum sonho.
Acordei de manhã cedo pra trabaiá e adivinhem só... Isso memo,  tava lá a Carminha cuidandobode, tinha  inté arrumado uma bacia com mio prele. Óia, parecia inté milagre, eu nunca tinha sabido de arguém que mudasse assim da noite pro dia. E o bode parecia que tava gostando de tanta paparicage; tanto isso era véro quielinté  incostava a cabeça na mão dela módi recebe uns afago.  Eu mais o Nardinho num tava crendo no que nóis via, o bode facero dendicasa. Inté perguntei prela o que tinha acontecido, ela sorriu pra mim como nunca tinha feito inhantes.
– Óia Hilário, o Danilo pó fica dendicasa quieu nem ligo, nóis quando leva argum susto sempre tem arguém pracudi, não é memo? O coitado do bode é sozinho e nem recramá ele sabe, então não custa nada a gente acoiê ele dendicasa por uns tempo.
Contá proceis, eu num tava entendendo mais nada da natureza daquela muié,  aquele novo amor pelo bode, então pramódi  evitá quarqué mar entendido dei toda razão prela. Afinar, si a Carminha tava carma, isso era bão dimais da conta, né memo?
– Ocê tá certa Carminha, nóis somo a famia do Danilo, intão temo qui tratá bem dele, né. Pó contá comigo quieu tamém vô ajuda a cuidá dele.
Ela oiô e riu de novo pra mim, um riso bonito dimais da conta.  Enquanto isso o Nardinho insistia módi o bode comê um pedaço de pão cum mantega.

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

3 comentários:

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos CRITÉRIOS APONTADOS NO REGULAMENTO, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação: em ordem. Sugiro trocar a frase “até que o compadre Hilário um caipira muito divertido contou-nos esse causo que, de certo modo, podemos classificar como bastante pedagógico.” por: “até que o compadre Hilário, um caipira muito divertido, contou-nos esse causo que, de certo modo, podemos classificar como bastante pedagógico.”, com as vírgulas do aposto que faltaram no original. Fora isso, se há erros desta natureza, não detectei. A narrativa pareceu-me muito bem estruturada, convincente e atrativa ao leitor. O centro da história é o bode conquistador, indubitavelmente, o que me leva a crer que esteja perfeitamente de acordo com a proposta do concurso (observando O REQUISITO DO REGULAMENTO de demonstração de afeto pelo animal). Avaliação pessoal (e que ninguém mais precisa levar em conta em seus julgamentos pessoais): ótimo! Parabéns à autora ou ao autor e muito boa sorte! (Torquato Moreno).

Alberto Rocha disse...

Muito bom. Perfeitamente dentro dos parâmetros do concurso. Parabéns a quem o produziu.

Marina Alves disse...

Nó! Bãodimais! Entrei geral nesse clima pra lá de mineiro, do tipim dos causo bão da roça. E como sou de lá, tô no meio, craro! Parabéns ao/a autor/a!