quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Texto: 16 (do concurso) - Black Jack

“É dura a vida de quem não é macho-alfa!” Diria Black Jack, se falar pudesse. E se falasse, eu lhe responderia: e como sei, garoto! Pobre, baixinho, gordo e corno, como eu, entende muito bem dessas coisas... Mas outro dia eu lhes conto a minha história, hoje vou lhes contar a vida deste gato preto que um dia conheci:
Quando cheguei à empresa onde até hoje trabalho ele já vivia por lá. Alimentava-se dos restos de carne do almoço do pessoal que come por lá mesmo. Só que era magrinho de dar dó, porque tem dia que vem carne tão dura na marmita,  que a gente desiste dela e joga algum pedaço fora, mas tem dia que não e, nesses dias, o coitado não comia. Nunca fui de muito chamego com gato, prefiro cachorro, mas,  não sei porque, fui com a cara dele. Para sua sorte e meu azar, a minha carne danou a vir dura quase todos os dias e o bicho foi engordando, à minha custa. E foi  se apegando a mim, porque não era alfa mas também não era burro; sabia muito bem que comigo a coisa rendia.
Como eu sabia que ele não era alfa? Eu não sabia, fiquei sabendo um tempo depois, quando apareceu um outro gato, este malhado de branco e cinza, a quem dei o nome de Tigrão. Na verdade o nome era pra ser Tigrinho, porque ele se parecia mesmo com um tigre, só que em miniatura, mas achei que ele ia se aborrecer com o diminutivo e acabou ficando Tigrão. Não se brinca com o ego de um macho. Pois bem, quando chegou o Tigrão, já foi logo dando um chega-pra-lá no Black Jack, no momento em que eu ameacei jogar os pedaços de carne pra eles. Como ele não reagiu e só me olhava com olhar suplicante, ali eu entendi que o negócio não era só cortesia com o visitante. O bicho se borrou de medo do outro, e o outro comeu a sua carne e foi-se embora, para só voltar no dia seguinte, ao contrário dele, que nunca ia para lugar nenhum. Resumindo: o Tigrão tanto voltou que acabou ficando também. Com o tempo e a minha constante intervenção eles acabaram tendo uma convivência pacífica. Sustentar dois gatos com a minha parca carne não dava, então resolvi comprar ração para eles. Pensando bem, acho que a convivência pacífica foi por não terem que disputar comida, já que, na fartura, até os homens convivem bem. Os machos de todas as espécies  só se enfrentam por dois motivos: por comida e por fêmea, o que dá no mesmo, dependendo da interpretação de cada um. A comida não era mais problema, mas um dia apareceu a Mary Jane e... bem, digamos que não foi um bom dia para Black Jack.
Mary Jane era uma gatinha amarelinha, novinha ainda, mas já bem saliente. Como toda fêmea, já chegou nariz empinado, dona de si, como se os machos tivessem a obrigação de lhes ceder a primeira porção. Black Jack, cavalheiro e certo de que também comeria ( a ração ) não se incomodou, porém com o Tigrão ela teve que negociar muito. Com macho-alfa não tem essa de cortesia fora de hora com fêmea não.  Mary Jane, devido à personalidade altiva e taciturna de Tigrão, acabou se entendendo melhor com Black Jack e formamos, os três, o bloco dos fracotes assumidos. Onde comem dois comem três, a ração aumentou e a vidinha deles continuou tranquila. Continuou tranquila até o dia em que ela entrou no cio...
Desta vez digamos que não tenham sido bons dias para Tigrão. Apareceu macho-alfa de tudo quanto foi lado e todos eles brigando com ele, por causa dela. E ele, ao invés de aprender com a sabedoria de Black Jack, que saíra de cena na primeira arranhada, arcou com as consequências do seu machismo. “Defender território não é mole não!” ele gritava pra mim, no seu idioma. E Mary Jane se fazendo de lady, só esperando o vencedor. Black Jack e eu, só observando. Eu, curioso e torcendo por Tigrão, e Black Jack atrás e embaixo de mim, não sei se torcia pelo amigo ou se só queria que aqueles dias passassem rapidamente. Tigrão lutou bravamente e conseguiu expulsar todos eles mas, no momento em que ia desfrutar da merecida recompensa, esbarrou num viking, recém chegando e já dando voadora.  Olha, até eu fiquei com dó do Tigrão, porque foi uma luta desigual: de um lado do ringue, um enorme gato branco de olhos azuis, unhas afiadíssimas e pulmão ainda fresco e de outro, um gato grande também, mas cansado e todo estropiado das lutas anteriores. Não deu pro Tigrão, infelizmente. Ainda me lembro de vê-lo se urinando todo: de dor, de medo, de humilhação e com um dos olhos imprestável para sempre. Fugiu e nunca mais o vi. “Bobo”, pensei. Podia ter ficado aqui com a gente, mesmo não sendo mais o macho-alfa do pedaço. Quem de nós iria criticá-lo?
O viking, a quem chamei de Jack White, praticamente só pernoitou e também se foi. Eu vi, pelo olhar de Mary Jane, que ela preferia que o vencedor tivesse sido Tigrão, talvez porque com ele ela teria como dividir as tarefas da criação dos filhotes que viriam, mas, sabe como é,  teve que servir comidinha e agasalho ao vencedor. As coisas são assim no reino felino, fazer o quê... 
Durante a gestação a paz voltou a reinar e, não sei se foi impressão minha, ou se realmente Black Jack estava até mais tranquilo que o normal e ela, amorosa com ele. Todos os dias eu os observava, um ao lado do outro. Às vezes até caminhavam juntos, como se conversassem por telepatia. E não é que formavam um casal simpático? Até decidi que quando ela parisse eu ia mandar esterilizá-la, em homenagem ao meu amigo, que se revelou um bom partido.  Ele me ensinou muito da vida, tanto que, se hoje estou noivo, devo a ele a minha coragem de me declarar. Aprendi com ele que carinho e atenção também podem cativar uma fêmea. No dia do parto foi ele quem me chamou para me apresentar aos seus filhos adotivos.  Mary Jane assustou-se com a minha presença, porque é de praxe que as mães escondam seus filhotes até que eles estejam desmamados; mas não ficou tão surpresa quanto eu, ao conhecê-los. Cinco rebentos: dois brancos, dois amarelinhos como a mãe e um todo malhado, com as cores amarela e preta, bem mais franzino do que os outros... “Black Jack, seu danado, cê veio lá das bandas de Minas, foi?”  

Texto: 53 (do concurso) - Norte, o cão boiadeiro

Corria o ano de 1955. José, o meu irmão mais velho entre os dez que éramos, certa feita, montou seu cavalo altivo, malhado de três cores e partiu mundo afora. Nos seus 18 anos, poucas vezes, saíra porteira afora da fazenda de meu pai. Naquele dia, com mais oito companheiros, rumou de Bom Despacho para os sertões inóspitos de São Gonçalo do Abaeté. Esse município, então desconhecido e inexplorado, ficava muito além do São Francisco e de outros rios das Minas Gerais. Vizinhava com Patos de Minas. Missão: levar trezentas reses que meu pai vendera para um amigo dele, que acabara de comprar muitas terras por lá.
Aquele foi o batismo de fogo do primogênito de Domingos Leite e Dona Neném. Seu Tiro de Guerra. Seu passaporte para a maioridade. Ele atravessou serras e cursos d’água. Cerrados e matas. Estradas e povoados. Dormia ao relento ou em paióis de milho das fazendas, onde conseguiam licença para pousar. Aí se recuperavam da longa e cansativa viagem. Arrumavam pasto e descanso para os bois e os cavalos.
Dia seguinte, quando o rei dos terreiros contava pra  acordar o sol e fazê-lo levantar-se, a comitiva de boiadeiros  estava de pé. O cozinheiro já partira na frente, com suas panelas e mantimentos. Ia esperá-los numa parada qualquer, lá pelo meio dia. O almoço já pronto pra ser servido.
Nos meus 10 anos de idade, achei a viagem do Zé muito longa. Ela durou meses. Ouvia minha mãe dizer chorosa que estava com muita saudade dele. Eu, embora não o dissesse, também estava.
Uma tardezinha, quando o sol se avermelhou, no horizonte, com a friagem de junho, ele chegou.
Meu jovem irmão apeou de seu belo cavalo pampa, suado e emagrecido pelo rigor da viagem. Puxou a guaiaca cheia de dinheiro da paga dos bois e entregou-a a meu pai. Naqueles tempos, banco era coisa rara e ladrões, também. Não havia perigo. Nem existia outro meio de transportar dinheiro que não aquele pelo qual meu irmão trouxera alguns contos de réis lá do outro lado do mundo, por caminhos ermos dos sertões mineiros. Hoje, contudo, mais de 60 anos depois desse acontecido, o que ficou guardado em minha memória com mais nitidez é a lembrança do Norte.
Norte, um cachorro que o Zé ganhou de um boiadeiro de outra comitiva que pousara com ele e seus companheiros, numa noite escura, em uma velha tapera, na volta do sertão.
Ele não possuía nada de especial. Tamanho de um policial comum. Mas de pelo curto e branco, com grandes manchas vermelho-claras espalhadas por todo o corpo. Dócil, porém na lida com o gado, um gigante fenomenal. Nunca se vira por aqui, e nem em lugar nenhum, alguém jamais viu fazer-se o que o Norte era capaz de fazer com cavalos e reses.
O boi estava bravo e você queria vê-lo no chão, era só mandar. Estivesse o animal parado ou em desabalada carreira, o Norte entrava sob seu ventre. Enfiava-se entre suas patas dianteiras. Puxava-os pelo focinho. Aí era fatal: aplicava-lhe um balão. Como num golpe de judô e jogava-o de costas. As quatro patas viradas inapelavelmente pra cima. Invariavelmente os bichos se levantavam mansos e cordiais. Novilhas ariscas, vacas pegadeiras, rês desgarrada, garrotes ou touros descomunais e nervosos se tornavam mansos depois da primeira pega do Norte.
Para nós, meninos, o Norte chegou como um anjo que caiu do céu. Nas lidas das roças, sobravam pra gente os serviços menores: dar milho às galinhas, tratar dos porcos, guiar boi, apartar bezerros das vacas leiteiras. A gente achava mais difícil, contudo, a missão inglória de buscar cavalos no pasto.
Bastava haver entre eles um animal de mau caráter e velhaco e a tropa toda se punha a segui-lo em disparada para longe da porteira do curral. Por coivaras espinhentas, por ladeiras e subidas íngremes, por alagados e atoleiros, o menino os perseguia. Empurrava-os rumo à sede da fazenda. Acontecia de, no momento final, próximos de cruzarem a porteira, eles soltarem longos relinchos e livres e soberbos correrem pasto afora. Parecia afastarem-se conscientemente dos cabrestos, dos freios, das selas e dos serviços pesados que sabiam estarem à espera deles. O menino cansado, ofegante e irritado tinha de começar tudo de novo.
Graças a Deus, apareceu o Norte. A gente já saía para a invernada, em sua companhia. Se os malandros iniciassem suas carreiras fugindo de nós, açulávamos o bravo cão contra eles. Norte entrava intrépido no meio da tropa em disparada e heroicamente derrubava um, dois, três cavalos. Depois disso, saía milagrosamente ileso do meio das patas perigosas do bando de equinos. Um espetáculo magnífico e emocionante. Dele não me esqueço jamais. E até me arrepio, só de lembrar as memoráveis façanhas desse cão.
Mas tudo que existe se acaba, num dia cinzento de agosto, picado por uma cascavel, o Norte morreu.
Hoje, ao trazer à memória a sua figura, não houve como recordar-me também de Suassuna, no Auto da Compadecida:
“Ele cumpriu sua sentença, encontrou-se com o único mal irremediável, a marca de nosso estranho destino sobre a terra, que iguala a todos num só rebanho de condenados. Porque tudo que é vivo morre.”
Mas Norte sobreviveu por muito tempo ainda. Nos pastos da fazenda, o grito de seu nome fazia os cavalos ariscos dirigirem-se obedientes para o curral. Era a sua alma ajudando-nos a campear, embora ele já estivesse no além, no paraíso preparado pelo deus dos cães para os cachorros valentes.                  

Texto: 32 (do concurso) - Tina - Uma cadela inesquecível

Num repente pelo portão aberto ele adentrou à nossa casa, porte médio, pelos amarelecidos, um cachorro, mas nem parecia um cachorro, mais parecia um amontoado de ossos articulados, dava até para contar todas as suas costelas tamanho era a sua magreza, imensas cicatrizes pelo corpo, e estas eram denunciadas pela falta de pelos no local, parece que ele fora atropelado para que portasse tamanhas escoriações, foi entrando casa adentro afora, rabo por entre as pernas, uma humildade cativante e dilacerante ao mesmo tempo, ficamos com pena dele, ou melhor, dela, pois ao examiná-lo mais detalhadamente vimos que se tratava de uma cadela!
E ela com aquela tristeza no olhar, aquele olhar pedinte, pedia, ou melhor, implorava para que fosse aceita em nosso convívio, meu pai a princípio foi contra, nós outros suplicamos para que ela fosse adotada, que fizesse parte da nossa vida!
Contra todos, meu Papai se absteve, e para alegria de todos concordou com a adoção, e ele que era contra cachorro em nossa casa, logo logo se mostrou solícito, no dia seguinte providenciou a construção de um pequeno canil, coberto de telhas, no seu interior foi colocado um estrado de madeira para que ela não dormisse no piso frio, também foram colocados vários colchonetes, cobertas, papelões sob o estrado, e outros agasalhos próprios para os cães!
Não sei por que, mas eu só sei passamos a chamá-la de Tina, e a Tina aos poucos foi tomando conta da nossa casa, das nossas vidas, matreira, inteligente, desconfiou que não gostávamos de cachorros na cozinha e na sala de jantar, e ela prontamente evitava estes locais, preferindo salas, quartos, quintal...
E passaram-se os meses, e uma melhora apresentável em seu estado físico se denunciou, depois de tomar algumas vacinas, vermífugos, e vitaminas, ela renasceu, ganhou alguns quilos de peso, tornou-se mais lisa, as costelas que antes estavam à mostra haviam desaparecido, e ela tornou-se mais esperta, mais brincalhona, mas nunca perdeu aquela humildade cativante, nunca deixou de se portar como uma verdadeira dama, dona de uma personalidade marcante, mas aos mesmo tempo submissa e carinhosa!
E o tempo foi passando e ela foi ficando mais fogosa, mais brincalhona, a todos bulia, chamava a atenção para os seus feitos, como buscar uma bola atirada a esmo pelo quintal, pular na piscina, posso dizer com toda a certeza que ela estava vivendo os melhores dias da sua vida, foi quando...
Mesmo que o portão permanecesse aberto, ela no máximo que fazia era espiar a rua, gostava de ver os carros passarem, curiosa a tudo e a todos atentava, mas neste dia um acontecimento inesperado...
Sem que ninguém notasse, ela fugiu, desapareceu, por mais que a procurássemos pelas redondezas não conseguimos encontrá-la, as buscas foram então se esmorecendo, até que definitivamente a demos por perdida, na certa sentiu saudade dos seus velhos camaradas, sentiu saudade da liberdade das ruas, talvez ela não se tenha adaptado com a disciplina em seu novo lar, parece que  simplesmente se cansou da nova morada!
Passado algumas semanas eis que surge novamente no portão da nossa casa, nada mais, nada menos, que ela própria, em carne e ossos, estava de volta a nossa querida Tina, parece que passou por dificuldades, na certa passou fome, havia emagrecido, o seu pelo estava um tanto amarrotado e sujo, denotava que havia dormido ao relento, sentiu saudades da nossa casa, e o mais importante é que não perdeu a sua humildade, nem o seu olhar terno e submisso, e ela foi recebida de braços abertos por todos, nós que a julgávamos perdida!
Decorrido algum tempo do seu regresso, notamos que a Tina estava mais barriguda, aquela barriga avantajada parece que a perturbava, e ela parecia envergonhada da arte que fizera, ficou um tanto arredia, mas nada daquilo impedia que víssemos que ela estava grávida, a sua fuga na verdade foi para atender os anseios da carne, com toda certeza a boa alimentação havia recuperado seu antigo vigor sexual, e ela se sentira novamente uma flor em botão pronta para ser fecundada, e para atender a tais vontades ela vagou pelas ruas na procura do seu príncipe encantado, e com toda certeza o encontrou...
Tamanho foi o nosso contentamento pela sua volta, que nem pensamos em repreendê-la ou maltratá-la pela escapada, nem a expulsamos pela barriga saliente, que agora mostrava a todos como que dissesse:
– Agora, eu preciso de maiores cuidados, pois eu estou grávida, preciso de carinho e de uma boa alimentação para que meus filhos nasçam fortes e sadios!
Num amanhecer qualquer, ao sair de casa ouvi francos grunhidos, atentei melhor e ouvi e vi que tais grunhidos estavam saindo do canil, e não foi surpresa alguma ver que a Tina havia dado a cria, agachado, adentrei ao canil, e ela toda orgulhosa me mostrava a sua meia dúzia de filhotes, asseadamente comia os restos da placenta e com todo o carinho do mundo lambia seus rebentos!
Concordamos que os filhotes ficariam com ela até serem desmamados, porque não tínhamos condições de ficar com todos eles! E assim foi, uma vez que os filhotes desmamaram colocamos uma plaqueta em nosso portão que dizia “Estamos doando filhotes de cão de raça”...
Pelo bem dos filhotes não informamos qual era a raça, pois se tratavam de legítimos Vira-latas, e logo em nosso portão se fez um alvoroço de pessoas indagando pelos filhotes, queriam vê-los, e uma vez visto, não tem quem não se engrace por um filhote de cachorro, e assim um a um os filhotes foram dados, um era presente para o filho, outro era presente para esposa, outro era num sei pra quem...
E por fim restou um filhote rabicó, além de rabicó mancava de uma das patas traseiras, com aquela aparência sofrida ele foi sobrando, enjeitado, mas era o xodó da mãe, mas tudo tem o seu dia, finalmente um pai desesperado com a tristeza do seu filho que viu seu cachorrinho ser atropelado e morrer, ele chegou na nossa casa e logo se engraçou com rabicó, tão feliz ficou que queria até pagar pelo filhote, o que não aceitamos, nós é que ficamos agradecidos por tê-lo levado.
Naquela noite ao regressar a nossa casa, após colocar o carro na garagem que ficava ao lado do canil, quando o motor do veículo foi silenciado, pelas frestas de um breve silêncio ouvi um gemido, aquilo era mais que um gemido, era um lamento, era um choro lastimoso, aqueles grunhidos eram de cortar o coração, e todos aqueles sons saiam do canil, curioso adentrei ao mesmo, foi quando encontrei a Tina deitada, com a cabeça entre as pernas dianteiras, até parece mentira, mas escorriam lágrimas dos seus olhos, ela chorava copiosamente sentindo a falta de seus filhos, aquela cena me marcou pra sempre, marcou mais que um ferro em brasa, ainda hoje eu carrego aqui dentro do meu peito aqueles momentos tristes vividos ao seu lado, a principio não sabia como proceder diante daquele fato inusitado, comovido abracei a Tina como se abraça em ente querido, abracei e apertei-a contra o meu peito com tamanha ternura, com tamanho respeito, que ela agradecida lambia o meu rosto, minhas mãos, e assim permanecemos abraçados por um longo tempo, tempo suficiente para que eu derramasse as minhas lágrimas, meu coração não resistiu a meiguice daquele momento, por fim, eu expliquei pra ela que os seus filhotes não poderiam permanecer ao seu lado, que era necessário doá-los, pior seria jogá-los pelas ruas, abandoná-los pelas estradas desertas, ou chegar ao extremo da crueldade matando-os, mas que tivemos todo cuidado de doá-los para pessoas que iriam cuidar deles com toda a ternura e dedicação!
Ela ouvia calada as minhas explicações, se entendia eu não sei, parece que entendia, parece que me compreendia, mas que nunca aceitaria de bom grado aquele acontecimento, não tem uma boa mãe que aceita que seus filhos lhe sejam tirados à força, apesar dos pesares ela voltou a sorrir...
Latiu, não mais um latido de tristeza, mas um latido misturado com lágrimas parecendo demonstrar compreensão...
E a Tina compreendeu até aquilo que não dissemos pra ela, nunca mais fugiu de casa, apesar do portão das vezes ficar aberto, no máximo que ela fazia era chegar até a calçada cheirar a tudo e a todos e voltava correndo para dentro da casa...
Engraçado, como tempo passa rápido, passou rápido demais para todos nós, principalmente para a Tina, que se envelheceu, adquiriu doenças e mais doenças, por fim uma hemorragia ceifou a sua vida!
Com todo carinho do mundo coloquei seu corpo na caminhonete, e ela não foi atirada numa barranqueira de um estradão qualquer, em nosso sítio, na sombra de uma imensa figueira, cavei uma cova e ali guardei o corpo da nossa inesquecível Tina, e para perpetuar por décadas afora lembranças daquela cadela inigualável, na cabeceira da sua cova cravei uma lasca de aroeira, e nela estava gravado em alto-relevo a palavra Tina!
Hoje, passado muitos anos da sua morte, a lasca de aroeira ainda esta cravada na cabeceira da sua sepultura, o tempo a ressequiu, a lasca se rachou, mas ainda da para ver o nome dela, Tina, uma cadela inesquecível!
Sentado na sombra desta figueira, fecho os olhos, clamo pela Tina, e nos meus sonhos lá vem ela pela estrada a toda velocidade, orelhas para traz, coladas na cabeça, boca aberta, língua ao vento, e ela salta sobre mim, ela esta toda feliz, sem perder aquela humildade cativante, lambe as minhas mãos, lambe o meu rosto, vivo momentos de felicidade...

Texto: 57 (do concurso) - A dupla

   Jonas olhou em volta e viu somente seus companheiros de infortúnio. Moradores de rua que se acomodavam como podiam embaixo do viaduto da Capital Paulista. Como chegara a este ponto? Sem conseguir dormir resolveu andar nas proximidades. Lembrou de Ângela, com quem estivera casado até que a falência de sua pequena franquia de roupas infantis entrasse em colapso. O amor não resistiu aos problemas financeiros. A moça voltou para a casa dos pais no interior do Estado. Os bens foram utilizados para pagamento dos credores e dívidas trabalhistas. Restou muito pouco. No início conseguia dormir e pequenos hotéis e pensões coletivas. Agora albergues da Prefeitura, quando possível. No mais, na rua.
     Ao amanhecer, foi até o boteco no qual o proprietário deixava que usasse o banheiro e lhe ofertava um café. Depois saiu puxando seu carrinho de sucata, o último investimento. Um carro freou próximo a ele e a mulher ao volante chorava muito. Em seguida empurrou para fora do automóvel um jovem e lindo cão pastor alemão.
     - Moço, cuide dele, pelo amor de Deus. Ele mordeu meu filho e meu marido vai matá-lo. Seu nome é Tobi.
     O cachorro estava desesperado e saiu correndo atrás do carro que arrancou com muita intensidade. Voltou até o atônito Jonas, que a tudo assistia. O incidente mudaria a vida de ambos.
     - Muito bem Tobi, meu amiguinho, agora somos nós dois, os rejeitados. Você é Jonas versão canina e eu Tobi, versão humana.
     Jonas chegou cursar a faculdade de Filosofia e tinha uma visão de mundo muito peculiar. Pensava – “o fundamental é manter o mínimo de dignidade”. Lavava  suas roupas com frequência na Pastoral e até Tobi tomava, às vezes, banho. Não demorou muito, dois outros cães de rua se juntaram a eles: Platão e Ari (Aristóteles). Agora formavam uma família.
     Tobi, protegia Jonas de maneira absurda. Não deixava ninguém se aproximar, dele ou de seu carrinho. Ari, não ficou muito tempo. Saiu atrás de uma cadelinha fogosa e nunca mais voltou. Platão sofria de constantes convulsões, preocupando seus companheiros. Numa das crises foi necessário pedir ajuda ao Dr. Luís, veterinário, que sempre passava a Jonas latinhas de alumínio e que conversava constantemente com Jonas.
     - Sinto muito. O cãozinho era cardíaco. Faleceu. Deixe que eu dou destino ao corpo.
     Tobi e Jonas sentados na calçada, estavam desolados. Um senhor aproximou-se dizendo chamar-se Antônio e ser o pai do veterinário Luís.
     - O senhor não descartaria uns itens velhos que tenho em casa?  Pago pelo serviço.
     Não era hábito de Jonas fazer este tipo de serviço, mas devia favor a Luís. Foi até a casa do Sr. Antônio e carregou o carrinho com os “itens”. Andou alguns quilômetros até encontrar um ecoponto para descartar o conteúdo. Quando ia saindo encontrou o Sr. Antônio que o seguira:
     - Vim me certificar de que você não descartaria em qualquer lugar. Parabéns. Além disso, o Luís falou-me do senhor: O reciclador-filósofo. Tenho uma proposta a lhe fazer...
     Jonas não acreditava, o Sr. Antônio ofereceu a ele e Tobi um lugar para morar,  numa pequena casa no terreno ao lado da sua . Seria uma espécie de caseiro e impediria invasões.
     - Eu estava para ampliar a minha casa, mas minha mulher morreu e eu desisti do projeto. O terreno ficou lá, vazio. Além disso, você poderá continuar normalmente, com suas atividades de reciclagem.
     A vida mudou, Tobi corria pelo quintal, comia ração e tomava banhos semanais. Desta parte ele não parecia gostar muito.
     Tudo mudaria numa noite quando a dupla foi acordada por gritos. Correram até a casa do Sr. Antônio. Houve um assalto. Os bandidos agrediram gravemente o dono da casa. Tobi foi decisivo: correu atrás dos ladrões, que fugiram. Chegaram a atirar, mas não o atingiram.
     A polícia foi chamada pelos vizinhos. Levaram Jonas como suspeito de facilitar o assalto.
     A detenção durou uma semana, na qual houve agressões dos policiais para obterem uma confissão, coisa que não aconteceu e , ainda,  dos “companheiros de cela”. Foi solto por falta de provas e pela intervenção do Sr. Antônio, logo após sair do hospital.
     Ao voltar para casa, Jonas resolver agradecer ao Sr. Antônio e saber de sua saúde. Na varanda escutou a voz de D.Diva, irmã do convalescente:
     - Você tem que se livrar desse morador de rua. Será que ele realmente não participou do assalto? Do cão já me livrei. Deixei o portão aberto e ele sumiu.
     “Hora de ir embora”, pensou Jonas. Por onde anda o Tobi?”
     Colocou o pouco que tinha numa velha mochila e saiu empurrando seu carrinho. O Sr. Antônio estava na varanda. Ambos acenaram. Sabiam que não era apenas um aceno, mas sim um adeus. Deixou o carrinho na cooperativa de catadores e saiu sem rumo à procura de Tobi.
     Ninguém mais viu o reciclador-filósofo ou seu cão. Numa viagem de carro a Minas Gerais, Luís afirma ter visto um homem com um cão na estrada. Tinham as mesmas características da dupla que deixou saudades. Tornaram-se andarilhos?  Não pode afirmar com certeza. Espera sinceramente que sejam eles. Seria ótimo que  fossem...

Burrim véi



Havia um lugar solitário perdido na imensidão da Canastra, casa de avós, onde crianças alegres passavam as férias. Toda manhã tinham leite puro, devido à suculenta e verdejante pastagem que brotava ali naquele sítio.  Capim orvalhado, consumido e ruminado lentamente em horas de silencioso mastigar dos animais, com seus enormes olhos, voltados para o chão e para o céu. Daquele ruminar ao entardecer, dependia o leite tão saboroso na manhã seguinte.
Além das vacas, cabritos e aves, havia no sítio um burrinho velho deixado pelo boiadeiro, em troca do pouso numa noite chuvosa.  
O animal era de cor marrom, pelo ralo e olhos mansos. Tinha uma doçura e mansidão sem fim. Virou montaria de intrépidos cavaleiros e amazonas, passava  os dias pastando a grama que crescia verdinha, ali em volta da casa. Puseram-lhe o nome de Burrim Véi.
A menina começou a protegê-lo, tão manso e indefeso parecia ser. Até convenceu o avô a construir um cocho, onde depois dos passeios, o deixavam ficar comendo farta e sossegadamente o milho, as canas e até cenouras que trazia da horta da avó. ·.
Dizem que os burros têm mais intuição que os cavalos, principalmente para distinguir o perigo, em estrada molhada, para descer morro e até para atravessar rio o burro é mais garantido.
Nas férias de final do ano a menina foi a primeira a chegar, procurou no gramado onde o animal ficava  e não o encontrou. Com o coração apertado perguntou ao avô:
        —Vovô, cadê o Burrim Véi?
O avô nunca mentia para os netos e com semblante triste contou:
—Seu tio vendeu ele...
        —Vovô, cumé qui o sinhor teve corage de deixá vendê ele?
        —Ieu num dexei minha fia, sabia qui ocêis tinha amor nele. Foi seu tio qui vendeu no dia qui o vovô num tava im casa...
O tio apareceu de repente e sem um pingo de dó, riu e foi logo dizendo aos sobrinhos:
—Aquele burro véi docêis, uma hora dessas já virô salame! Oia as butina novinha qui ieu comprei com os cobre.
A menina chorou sem parar. Se recusava olhar para o tio, não falava com ele. Não pedia mais a benção, transformou-se na sua maior inimiga. Não gostava nem de ver as roupas dele secando no varal.
Certo dia o tio foi picado por uma cobra cascavel, ficando entre a vida e a morte, pediu que chamassem a sobrinha. Queria seu perdão.
O avô pegou a neta pela mão, levando-a até onde estava o tio enfermo. Ela emudeceu ao olhá-lo nos olhos e saiu correndo do quarto. Sentia um mal estar enorme diante dele, uma coisa sem explicação.
Depois de algum tempo, convenceram-na a voltar e falar com ele. A benção ela tomou de longe, com medo que ele  morresse, mas não conseguiu dizer mais nada. Sua presença a magoava, isso durou anos. A cicatriz ficou apesar do tempo ter se encarregado de amenizar, fazer doer menos.
        Restou a saudade do Burrim Véi... Em volta da casa a grama cresceu.

Autora: Maria Mineira - São Roque de Minas/MG

Texto: 51 (do concurso) - Serelepe

Não tenho certeza, mas acho que “seu” Armando daqui a alguns anos iria passar para a quarta idade, se é que ela existe. Entretanto, ele não sabia disso, pois continuava firme e saudável. Não queria incomodar ninguém e por isso morava sozinho. Sua filha sempre arrumava uma desculpa e dava um jeito de ir conferir. Um dia ela decidiu dar de presente um fox paulistinha para o pai. Era um presente de aniversário e mais uma desculpa para ela poder vê-lo com mais frequência. Agora, com o Serelepe ia ficar mais fácil, pois todos sabiam que ela amava cachorrinhos.
O “seu” Armando, como era fácil de se prever, se apaixonou pelo Serelepe. Ficavam juntos a maior parte do tempo e, uma boa parte dele, o danadinho passava no colo de seu dono. Eles “conversavam” bastante mas não precisariam, pois eles se entendiam sem se”falar”.
O tempo foi passando e, cruel, foi judiando do “seu” Armando. Mas este não era de se entregar, continuou vivendo. Tinha algumas dores, não podia fazer algumas coisas, mas tinha saúde suficiente para continuar morando sozinho.
Mais tempo se passou, e os dois ficaram mais velhinhos, bem mais velhinhos. A filha quase brigou para que eles fossem morar com ela, mas nada. Era orgulhoso e teimoso. Andava com dificuldade, mas era capaz de fazer praticamente tudo que fosse necessário.
Um dia, sentado na varanda,  o “seu” Armando parecia mais triste que o normal e também estava muito pensativo. O Serelepe era muito vivo e percebeu que havia uma tristeza no ar. Por isso estava meio irriquieto e mudou de posição três vezes no colo do seu dono. De repente o “seu” Armando falou:
-Serelepe, nós vamos  fazer assim. Eu vou primeiro, porque se você ficar sozinho, a minha filha vem aqui e pega você para morar com ela. Ela vai cuidar de você melhor do que eu, você sabe. Além disso, você também está velhinho e precisa de cuidados. Se eu ficar sozinho, vou ficar muito triste sem você, e não vou querer sair daqui, nem que minha filha insista. Fica combinado assim, então.
Acho que o Serelepe não gostou muito daquela conversa. Podia se notar que estava preocupado. Ele se mexeu muito à noite, certamente não dormiu bem. Um dia mais se foi e o “seu” Armando não falou nada. Passou o dia inteiro triste e com o Serelepe no colo.
No dia seguinte, ele tomou café da manhã, alimentou o Serelepe e foi para a varanda. O cãozinho pulou no colo e percebeu que o seu dono não estava muito bem. Parece que ele adivinhou os pensamentos do Serelepe, pois falou assim para ele:
-Parece que não vamos ter problemas, Serelepe. Afinal de contas, acho que vou mesmo antes de você. Se eu for mesmo, não quero ir para o hospital, quero “ir” daqui mesmo. E você, na hora certa, vai morar com minha filha, eu falei, ela vai cuidar bem de você.
Depois de falar mais um pouco, abraçou o Serelepe, deu um beijo em sua cabeça e aparentemente dormiu. Não sei o que o Serelepe pensou, mas ficou muito assustado. Dali a pouco saiu do colo e foi para sua cama.
Mais tarde o “seu” Armando acordou, sentiu a falta do Serelepe e foi conferir. Desconfiou do jeito que ele estava dormindo, um medo interior se apossou dele. Ajoelhou-se perto da cama e conferiu os sinais vitais do Serelepe. Ele não respirava mais, havia morrido. Imediatamente o “seu” Armando percebeu o que havia acontecido:
-Serelepe, seu safado! Você achou que eu ia morrer e resolveu ir antes para não ficar sozinho. Malandro, não foi isso que nós combinamos!
A filha ajudou a enterrar o pobrezinho. Depois disso, o “seu” Armando teve de ir à força para o médico. Na volta não teve chance e  foi praticamente “sequestrado” para a casa da filha. Por mais que tentassem alegrá-lo, não havia jeito, ficou lá, encostado, pensando no Serelepe. Remungava baixinho:
-Danadinho, você me enganou.
Alguns dias depois, o “seu” Armando, sem ficar doente, nem nada, faleceu. Como o médico disse, morreu de velhice mesmo, sem doença. O coração simplesmente parou de bater. A filha sabia muito bem o que havia acontecido. Com certeza, ele foi atrás do Serelepe para tirar satisfação a respeito do acordo não cumprido.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Olá amigos...


Com muito orgulho participo pela segunda vez da FEIRA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PERNAMBUCO, A FLIPORTO. O evento acontecerá de 13 a 16/11. No stand da Livraria CARPE DIEM, você poderá adquirir o meu livro SEGUINDO NA PROSA, por R$ 15,00.
Será um prazer recebê-lo sábado dia 15, as 18h00hs, na tenda de autógrafos da Feira do Livro.

Compareça e faça parte desse memorável encontro literário

Carlos A Lopes

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Falando de igualdade

Há alguns anos atrás no  sepultamento de um amigo da família eu estava junto ao túmulo do morto, quando observei quatro sacos de lixo, desses de cor preta,  no chão.Curiosa perguntei para o coveiro o que era. Ele me respondeu que eram os ossos dos  parentes do falecido. Agora já é pó dona, disse o  homem.Mais curiosa ainda, peguei um dos sacos para ter a percepção do peso. Muito leve, quase nada, talvez menos de meio quilo. Confesso, aquilo foi um choque! Jamais havia tomado consciência do preceito bíblico que diz: do pó viemos e ao pó voltaremos. Ali, naqueles sacos de lixo, estava tudo o que restara  de pessoas que haviam sido bonitas, ricas, talentosas amadas e bem sucedidas na vida...E será tudo o que restará de todos nós, sejamos brancos, negros, pardos, mulatos etc... Ou ainda, ricos, pobres ou remediados.
Quero acreditar que o corpo físico tem no pó a sua redutibilidade, mas que deve existir algo alem desse pó.Ocorre-me que por conta de irmos todos ao pó, não haveria porque ser solidário,
participativo, tolerante, idealista. Afinal para quê? E ai volto a uma questão que me é presente todos os dias da minha vida: meu corpo é a forma mais bem acabada da existência de uma inteligência superior, que para mim é Deus.Essa perfeição está presente em todos os nossos irmãos, sejam eles de qualquer cor, raça ou religião e por isso me pergunto: porque o preconceito,   a intolerância, o ódio racial,  a ganância, a violência e a lei do olho por olho, dente por dente?
É só pensar que é lá, naquele saco de lixo que está a essência da igualdade humana! Do pó viemos e ao pó voltaremos!

Autora: Conceição Gomes - Curitiba/PR

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=54344

domingo, 28 de setembro de 2014

Neblina - Autor: Gerson Carvalho Silva

O ônibus chegou no horário de sempre. Preciso. O motorista era o mesmo,  assim como a maioria dos passageiros. A novidade era a neblina bastante intensa naquela manhã. A viagem até o trabalho de Gilberto, era a mesma rotina de sempre.

Entretanto, algo estava estranho. Ele jamais dormia em transporte público. Ainda mais agora que conseguira mais um emprego, o quinto em dois anos. Depois do acidente que o deixara em coma por quase dois meses, ele jamais fora o mesmo. Sua capacidade de raciocínio não era a mesma. A cada novo emprego, uma função mais simples. Era que era economista por formação, agora organizava o estoque de uma pequena empresa de cosméticos. Estivera internado em clínicas para resolver seus surtos de ausências. Clínicas que em sua opinião não passavam de novas versões dos antigos sanatórios. O sono foi chegando, pesado, irresistível. Tentou não dormir, tinha medo de chegar atrasado e perder novamente o emprego. Não conseguiu. Dormiu.

Ao acordar não reconheceu o lugar onde o ônibus parara. A neblina cada vez mais densa. O motorista não mais estava. Ninguém estava. Desceu. Andou pela rua quase sem visibilidade alguma até avistar um lugar iluminado. Era um pequeno bar. Entrou e pediu um café ao homem gordo atrás do balcão. Olhou ao redor e estranhou a clientela. Estavam fantasiados para o carnaval: um Pierrô, um Arlequim e na outra mesa vários Bate-bolas (Clóvis).

Ao servir o café o balconista disse o preço. Gilberto procurou pela carteira e não a encontrou. Ficou sem graça. O homem gordo jogou o café na pia e lavou o copo. Gilberto envergonhado já ia se retirar do bar, quando uma Colombina e uma bailarina entraram e levaram consigo o Pierrô e o Arlequim. Está parecendo folhetim barato, pensou ele. Mal estes pensamentos lhe atravessaram a mente. Ele estremeceu. Na saída do bar os Bate-bolas o cercaram e começaram a agredi-lo com suas barulhentas bolas. Cercado e desnorteado não sabia o que fazer. Foi salvo por um homem de enormes bigodes, portando um bumbo, que provocou a dispersão dos Bate-bolas e que se apresentou como Zé Pereira, a seu dispor. Saiu cantando e batendo seu bumbo:

O Pierrô apaixonado, que vivia só cantando,
Por causa de uma Colombina, acabou chorando... 
 
Passou um bloco. Todos cantam e dançam.

Quanto riso, oh! Quanta alegria.
Mais de mil palhaços no salão...

De repente, gritaria. Um palhaço se suicidara no meio da rua. Gente ao redor do cadáver. Alguém pegou a arma.

- É de brinquedo! Afirmou.

O palhaço suicida, então, levantou-se deu uma bela gargalhada e saiu cantando:

Alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo...

Sumiu na neblina e bloco avançou até desaparecer da visão de Gilberto, que ficou pensando: é carnaval? Não me lembro. Tentou voltar ao local onde o ônibus estava. Não o encontrou. Lá estava uma menina cantando uma cantiga de roda. Aproximou-se e perguntou:

- Onde está o ônibus?

-Não sei. Foi embora o moço levou.

- Para onde, perguntou Gilberto.

- Sei lá, como vou saber? Saiu pulando e cantando Ciranda, cirandinha.

E agora, onde estou? Parece um dessas cidadezinhas onde há carnaval de rua. Mas é carnaval? Seus pensamentos começaram dar lugar ao medo. Seria uma alucinação? Tivera algumas, até ser internado. Sentou um leve torpor veio chegando.

- Cavalheiro, disse uma voz. O senhor está bem?

- Não sei. Onde estou? Não obtendo resposta.

- Vamos leva-lo até a delegacia. Ele não está falando coisa com coisa.

Na delegacia uma moça parecida com Lúcia, sua antiga namorada fez uma série de perguntas. Ele nunca soube o que respondeu.

A moça parecida com Lúcia disse que ele não parava de citar personagens do carnaval e que estavam em Setembro. Falara de um ônibus que o abandonara em uma cidadezinha, não sabia qual. Ela só não sabia explicar a grande quantidade de confete e serpentina que estavam em seu cabelo e no bolso do paletó. Tentaram em vão encontrar sua família e acabaram por encaminhá-lo ao Centro de Atendimento a Problemas Mentais. Ficou internado por algum tempo e, sem lugar para ir, não se lembrava, passou a morar nas ruas. Passou a ser conhecido como o maluco que tocava um tambor de lata e dizia ser o novo Zé Pereira...

Autor: Gerson Carvalho - Santo André S/P