quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Texto: 57 (do concurso) - A dupla

   Jonas olhou em volta e viu somente seus companheiros de infortúnio. Moradores de rua que se acomodavam como podiam embaixo do viaduto da Capital Paulista. Como chegara a este ponto? Sem conseguir dormir resolveu andar nas proximidades. Lembrou de Ângela, com quem estivera casado até que a falência de sua pequena franquia de roupas infantis entrasse em colapso. O amor não resistiu aos problemas financeiros. A moça voltou para a casa dos pais no interior do Estado. Os bens foram utilizados para pagamento dos credores e dívidas trabalhistas. Restou muito pouco. No início conseguia dormir e pequenos hotéis e pensões coletivas. Agora albergues da Prefeitura, quando possível. No mais, na rua.
     Ao amanhecer, foi até o boteco no qual o proprietário deixava que usasse o banheiro e lhe ofertava um café. Depois saiu puxando seu carrinho de sucata, o último investimento. Um carro freou próximo a ele e a mulher ao volante chorava muito. Em seguida empurrou para fora do automóvel um jovem e lindo cão pastor alemão.
     - Moço, cuide dele, pelo amor de Deus. Ele mordeu meu filho e meu marido vai matá-lo. Seu nome é Tobi.
     O cachorro estava desesperado e saiu correndo atrás do carro que arrancou com muita intensidade. Voltou até o atônito Jonas, que a tudo assistia. O incidente mudaria a vida de ambos.
     - Muito bem Tobi, meu amiguinho, agora somos nós dois, os rejeitados. Você é Jonas versão canina e eu Tobi, versão humana.
     Jonas chegou cursar a faculdade de Filosofia e tinha uma visão de mundo muito peculiar. Pensava – “o fundamental é manter o mínimo de dignidade”. Lavava  suas roupas com frequência na Pastoral e até Tobi tomava, às vezes, banho. Não demorou muito, dois outros cães de rua se juntaram a eles: Platão e Ari (Aristóteles). Agora formavam uma família.
     Tobi, protegia Jonas de maneira absurda. Não deixava ninguém se aproximar, dele ou de seu carrinho. Ari, não ficou muito tempo. Saiu atrás de uma cadelinha fogosa e nunca mais voltou. Platão sofria de constantes convulsões, preocupando seus companheiros. Numa das crises foi necessário pedir ajuda ao Dr. Luís, veterinário, que sempre passava a Jonas latinhas de alumínio e que conversava constantemente com Jonas.
     - Sinto muito. O cãozinho era cardíaco. Faleceu. Deixe que eu dou destino ao corpo.
     Tobi e Jonas sentados na calçada, estavam desolados. Um senhor aproximou-se dizendo chamar-se Antônio e ser o pai do veterinário Luís.
     - O senhor não descartaria uns itens velhos que tenho em casa?  Pago pelo serviço.
     Não era hábito de Jonas fazer este tipo de serviço, mas devia favor a Luís. Foi até a casa do Sr. Antônio e carregou o carrinho com os “itens”. Andou alguns quilômetros até encontrar um ecoponto para descartar o conteúdo. Quando ia saindo encontrou o Sr. Antônio que o seguira:
     - Vim me certificar de que você não descartaria em qualquer lugar. Parabéns. Além disso, o Luís falou-me do senhor: O reciclador-filósofo. Tenho uma proposta a lhe fazer...
     Jonas não acreditava, o Sr. Antônio ofereceu a ele e Tobi um lugar para morar,  numa pequena casa no terreno ao lado da sua . Seria uma espécie de caseiro e impediria invasões.
     - Eu estava para ampliar a minha casa, mas minha mulher morreu e eu desisti do projeto. O terreno ficou lá, vazio. Além disso, você poderá continuar normalmente, com suas atividades de reciclagem.
     A vida mudou, Tobi corria pelo quintal, comia ração e tomava banhos semanais. Desta parte ele não parecia gostar muito.
     Tudo mudaria numa noite quando a dupla foi acordada por gritos. Correram até a casa do Sr. Antônio. Houve um assalto. Os bandidos agrediram gravemente o dono da casa. Tobi foi decisivo: correu atrás dos ladrões, que fugiram. Chegaram a atirar, mas não o atingiram.
     A polícia foi chamada pelos vizinhos. Levaram Jonas como suspeito de facilitar o assalto.
     A detenção durou uma semana, na qual houve agressões dos policiais para obterem uma confissão, coisa que não aconteceu e , ainda,  dos “companheiros de cela”. Foi solto por falta de provas e pela intervenção do Sr. Antônio, logo após sair do hospital.
     Ao voltar para casa, Jonas resolver agradecer ao Sr. Antônio e saber de sua saúde. Na varanda escutou a voz de D.Diva, irmã do convalescente:
     - Você tem que se livrar desse morador de rua. Será que ele realmente não participou do assalto? Do cão já me livrei. Deixei o portão aberto e ele sumiu.
     “Hora de ir embora”, pensou Jonas. Por onde anda o Tobi?”
     Colocou o pouco que tinha numa velha mochila e saiu empurrando seu carrinho. O Sr. Antônio estava na varanda. Ambos acenaram. Sabiam que não era apenas um aceno, mas sim um adeus. Deixou o carrinho na cooperativa de catadores e saiu sem rumo à procura de Tobi.
     Ninguém mais viu o reciclador-filósofo ou seu cão. Numa viagem de carro a Minas Gerais, Luís afirma ter visto um homem com um cão na estrada. Tinham as mesmas características da dupla que deixou saudades. Tornaram-se andarilhos?  Não pode afirmar com certeza. Espera sinceramente que sejam eles. Seria ótimo que  fossem...

2 comentários:

Alberto Rocha disse...

Muito bom texto, perfeitamente dentro dos parâmetros do concurso. Necessita de revisão. Parabéns a quem o produziu.

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação: pequenos detalhes pedem revisão, mas nada que prejudique o entendimento do texto. Uma história simples e com uma bela mensagem social, e que parece estar de acordo com a proposta do concurso (considerando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Um pouquinho mais de desenvolvimento na narrativa seria algo a ser pensando em uma próxima versão. Fica só a sugestão, logicamente. Avaliação pessoal: entre bom e muito bom. Parabéns à autora ou ao autor e muito boa sorte! (Torquato Moreno).