sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O abandono

Autora: Michele Calliari Marchese

Lenise sentou-se na cadeira de palha da varanda de sua pobre casa. Era tardinha e os filhos estavam brincando. Três ao todo e o quarto na barriga. Entregou-se àquele entardecer como se fosse o último. Fechou os olhos e acariciou o ventre com amor. Sentiu o vento no rosto a enxugar o suor da lida e do abandono.
Sentia-se fatigada de tanto pensar, com o peito em dor doou-se por inteira ao destino que se lhe abria de uma hora para outra, exatamente no momento em que o marido fora internado em algum hospital da capital pela perda do juízo. Bebia muito aquele homem e se por um lado sentia-se aliviada com a internação, por outro lado sentia-se só com todas as responsabilidades do porvir.
Sabia que não tinha condições de fazer o trabalho do marido naquele fim de mundo e a gravidez em estado avançado não lhe permitia pensar no que aconteceria com os outros filhos. A dor foi tomando conta de todo o seu corpo, como uma vertigem lenta, antecipando todos os sofrimentos que teria de passar. Já tinha avisado os parentes, dela e dele. Por certo haveriam de ajudá-la de alguma maneira, visto a situação chegar aonde chegou.
Escutou os gritos dos filhos a reclamar de fome e levantou-se num ímpeto. Esquentou o que sobrara do almoço e alimentou um a um sem pensar em si e o que restou – parcas migalhas - foi o que comeu, em prioridade daquele que viria, porém a sua única vontade era de mudar tudo e todas as coisas, ou simplesmente não comer nunca mais.
Agarrou-se ao sentimento mais profundo da vida e seguiu adiante; limpou a cozinha e tratou dos outros afazeres que exigiam urgência. “Todos tão pequenos” ela pensou, e as lágrimas lhe escorreram pelo rosto cansado da juventude. Tentaria fazer o melhor que pudesse, até a chegada do neném.
“Quatro filhos!” Disse em voz baixa num desespero de agonia. Ainda bem que o marido estava internado sem previsão de voltar, porque se ali estivesse, lhe meteria o quinto filho barriga adentro. Não aguentava mais tanta miséria.
“Todos descalços!” E recomeçando o choro dolorido e incontrolável foi até a janela para respirar o ar que lhe faltava. Ela passou a mão no rosto para afugentar tanta fraqueza e em seu íntimo sabia que mesmo que a família chegasse seu sofrimento não terminaria ali. Não tinha condições de manter os filhos por muito mais tempo e não saberia como teria aquele que iria nascer. Era o marido que trazia a parteira, era o marido que lidava com quase tudo o que existia fora de seu mundo, não sabia como fazer para alimentar as crianças com outras coisas que não tinham em casa.
Era difícil imaginar uma caminhada a pé com todas aquelas crianças e todas descalças, inclusive ela própria, até a cidade para pedir ajuda. Era difícil a sua vida de mãe.
Foi quando ela sentiu as dores do parto e as crianças choravam que apareceram seus familiares, dois irmãos e um cunhado. Sem muitas explicações, ajudaram-na durante o parto, deram de comer aos pequenos e trataram de cuidar o que jazia abandonado.
Vieram com um taxi da cidade, colocaram todos dentro, quase nenhum pertence fora levado e o bebê estava enrolado num lençol surrado e muito velho.
Naquela noite, na casa de uma irmã de Lenise, tudo estava bem e morno como um aconchego. Os filhos dormiam com os primos, tinham tomado banho e comido muito bem e então chegou a hora da verdade. Ficaria ali para sempre se pudesse, porém não podia. A irmã disse que conseguiria criar um dos filhos da Lenise sem problemas, inclusive dando-lhe educação, e ela arregalou os olhos diante daquela proposta impensável.
Era muita dor em seu coração quando o cunhado disse que levaria dois para o Paraná - onde morava – e o outro ficaria com o outro irmão de Lenise até que a situação melhorasse para que pudesse então juntar seus filhos. Não poderia vender aquele pedaço de chão sem a assinatura do marido. Teria que trabalhar em algum lugar até que ele voltasse da internação, se é que voltaria algum dia.
Segurou o bebê junto de seu coração, acordou os outros filhos e despediu-se deles sem chorar, sem lamentar e sem se desculpar. Precisava mostrar que a mãe deles era forte o suficiente para aguentar tantas provações e eles precisavam saber disso e tinham que esperá-la.
Foi-se embora no meio da noite, porque sabia que se ficasse não teria coragem de deixar os filhos com os outros. Escutou os gritos e os choros e pôde sentir as lágrimas deles dilacerando a sua alma. Não conseguiu olhar para trás.
Precisava fazer aquilo para poder ajudá-los e para que pudesse continuar vivendo. Foi dormir na casa de uma mulher sua conhecida da infância e no dia seguinte, com os peitos vazando leite, porque não tinha mais como dar de mamar, porque seu bebê havia ficado, porque ele não conseguiria resistir à dura empreitada consigo, porque ela os amava demais para deixa-los morrer a míngua e foi pedir emprego de casa em casa, de comércio em comércio e no fim de uma semana conseguiu. Dormiria no emprego, porque não tinha lugar para dormir e olhou admirada aquela alma auxiliadora trazendo um par de chinelos para calçar.
O marido nunca mais voltou e um Juiz concedeu-lhe, quinze anos depois, o direito de vender as terras que tinham, e foi o que ela fez. Tentou a todo custo que seus filhos voltassem para junto dela, mas o que conseguiu foi uma casa vazia. Completamente vazia.
Nenhum dos filhos quis voltar. Os dois menores não a reconheciam como mãe mesmo sabendo que ela era a mãe deles e os dois maiores não entenderam nunca a atitude dela naquela noite de abandonos.
E então Lenise sentou-se em sua cadeira nova de palha na varanda. Respirou pela última vez o entardecer. Fechou os olhos e acariciou o ventre daqueles quatro filhos que nunca esqueceria em sua vida. Sentiu o vento em seu rosto, mas ele não foi capaz de enxugar as lágrimas do seu coração.

Michele Calliari Marchese é catarinense de Xanxerê. Formada em ciências contábeis, é contista semanal do Jornal Diário Folha Regional de Xanxerê - SC, mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras e no blog Sem Vergonha de Contar. Participou com contos nos livros UFOs - Contos não identificados e Espectra, ambos pela Editora Literata de SP,  do Livro dos Prazeres editado pelo SESC de Santa Catarina e no E-book Quinze Contos Mais pela editora Helena Frenzel.

5 comentários:

Helena Frenzel disse...

Puxa! De arrepiar porque a narrativa nos põe na pele e na dor da protagonista e uma mãe, de fato, nunca abandona seus filhos, ela só aceita a separação por motivo de força maior, até para a sobrevivência dos rebentos. Homens, sim, são capazes de abandono sem dó, mas uma mãe, não consigo conceber que consiga esquecer de quem gerou. É uma dor para o resto da vida e dessa protagonista senti muita dó. Deve ter sido muito difícil colocar esta história comovente no papel. Muito bem, Michele, muito bom.

João Batista Stabile disse...

Bom dia Michele. É um belo conto, texto forte e muito triste mas é uma realidade cruel que faz parte da vida de muitos do nosso povo brasileiro. Abraço.

Celêdian Assis disse...

Olá, Michele!
Você conseguiu numa narrativa comovente, emocionante, ficar acima dos valores de juízo, isentando-se de influir no enredo com opiniões próprias e assim deixando a cargo do leitor, a reflexão sobre todos os vieses que permeiam a história de vida do personagem central. Muito bom, mesmo, gostei muito.
Um abraço
Celêdian

Maria Mineira disse...

Bom dia, Michele! Um conto comovente que toca o leitor no fundo da alma.Pensar que há inúmeras mães que precisaram abdicar dos filhos para que não morressem. Parabéns! Abraço aqui da Canastra.

Anônimo disse...

Gente, obrigada pelas palavras! Beijos!
Michele C.Marchese