segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Ô prosa boa sô

Marcos Pestana

Uma turma da capital resolveu sair da rotina e caminhar pelas trilhas e picadas no pé da Mantiqueira no Vale do Paraíba. Seguiam eles uma antiga trilha usada por tropeiros, entre Taubaté e Pindamonhangaba. Para isso contrataram um guia da região... Ditinho o nome dele, pindense inveterado, amante da natureza e daquela mata, sabia tudo que se passava.
A rapaziada enquanto andava proseava, risos e vozes altas quebravam o silêncio da mata fechada. Seguiam os passos de Ditinho quando de repente, o grupo se deparou com uma cruzinha, param curiosos, um deles olhou para Ditinho como que pergunta... O que é isso?   
Sem rodeios ele foi logo explicando...
“É de bom agrado aqui na região colocar uma cruzinha ou até erguer uma capelinha onde alguém perdeu a vida, seja por acidente ou de forma violenta”.
A região é rica em causos e com o passar dos anos, criam-se lendas e contam-se estórias de assombração e alma penada.
Mal a turma iniciou a caminhada, depararam com uma grande pedra, e, gravado nela, o contorno de um pé humano. Logo os curiosos se aproximam, formando um círculo e questionam Ditinho para que explicasse o que significava aquilo. Nessa hora Ditinho tornou-se sério e explicou...
“Foi um filho que tentou matar a mãe, ali ele ficou de tocaia., e no momento do crime...  sentiu que a pedra havia prendido seu pé... tão grande foi o susto que morreu ali mesmo...”.
Uns arregalaram os olhos, outros se benzeram. Em meio aos olhares e murmúrios, um rapaz mais curioso perguntou...
“O senhor tem conhecimento de algum outro causo”.
Sem hesitar Ditinho olha nos olhos do rapaz e diz lentamente...
“Tenho... é o do corpo seco, coisa ruim, é com mãe também”.
Aflito o rapaz pergunta...
“Pode contar?”.
“Posso sim, você sabe que bater em mãe é pecado, não sabe? e é difícil ser perdoado”.
Ditinho fez uma pausa, e ninguém solta um som sequer, todos olham ansiosos, preocupados... E ele continua...
“Quem ergue as mãos pra mãe, quando morre, a terra rejeita. É um corpo tão sem valor, que nem a terra quer. Ninguém sabe quando o corpo está seco. Só na hora que se mexe na cova é que se descobre. Então o coveiro tem que avisar a um padre, ele benze... tem que ser à meia noite certinho. Então dois homens pegam o corpo seco e dão a um terceiro que deve estar de costas para pegá-lo de forma que um não paro outro. Carrega até o mato e o joga... sem olhar para trás, pois ser olhar, o corpo seco monta no de quem olhou. No mato, sozinho, ele se esconde, fica encostado num pau e toma conta do matagal. Naquele lugar é ele quem manda...”.
Um outro pergunta intrigado...
“Aqui tem algum?”.
Ditinho se benzeu... Um ou outro, também, e respondeu...
“Não, aqui não... dizem que mais ali adiante, perto do Paraíbão, tem um... mas não sei te precisar o lugar... nunca fui bisbilhoteiro”.

Autor: Marcos Pestana - São Paulo/SP

Página do autor:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=95857

Publicação autorizada pelo autor



4 comentários:

Maria Mineira disse...

Amigo Marcos Pestana. Seja bem vindo a esse blog! Tenho certeza que vai gostar daqui. Abraço de sua amiga mineira.

João Batista Stabile disse...

Boa noite, Marcos. Esse caso é dos bons, gostei muito. Parabéns. Abraço.

Patricia disse...

Adorei seu texto, parabéns.

Celêdian Assis disse...

Uma prosa das boas mesmo! Gostei muito do texto.
Um abraço,
Celêdian