quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Texto: 13 (do concurso) - “Peninha, Meu Sabiá”

Ela o encontrou semimorto debaixo da goiabeira. Penas encharcadas, olhinhos cerrados, asa quebrada. Pobre Sabiá! Flagrado pelo temporal da noite não pudera escapar. Condoeu-se do bichinho. Catou-o do chão e o aqueceu no calor das mãos. Subitamente, num movimento quase imperceptível, viu-o abrir os olhos, e uma alegria imensa tomou conta dela: ele ainda tinha vida!
Carregou o animalzinho para a cozinha. Enrolou-o em paninhos quentes e pensou “Hei de salvá-lo!”. Desde que o mundo é mundo não há melhor remédio que o amor para curar feridas e outras dores. Foi o que ela fez com “Peninha”, seu mais novo companheiro. Durante dias tratou-o como quem trata uma joia delicada. Comidinha pelo bico, água gota a gota na pontinha de colher, unguentos para a asinha ferida. Aos poucos Peninha ia ficando bom...
Ela o tinha em vigilância e cuidados, sem cessar. Dedicou-se ao bichinho de corpo e alma. Também, aos oitenta e tantos não tinha mesmo muito do que se ocupar. Os filhos morando longe, só vinham de visita breve. A solidão doía por dentro. Mas, agora tinha Peninha, amigo que a sorte lhe mandara, em noite de chuva... O passarinho, já mais animado, acompanhava a dona pela casa, sempre aos pulinhos, pois que a asa ainda amarradinha não lhe permitia maiores movimentos.
Ela se apegava a cada dia. E já pensava na hora em que Peninha, de asa sarada, alçasse voo para os infinitos do quintal. Ah, ia ser duro! Tinha se acostumado aos olhinhos buliçosos sempre a procurar pela sua presença na casa. Como seriam os dias sem o bichinho dando sentido à sua vida, fazendo da casa um lar de gente normal? Pensava, mas não queria pensar...
Num domingo de manhã, ela deu por falta de Peninha ao rabo do fogão, onde ele tinha por costume se encolher ao calor das últimas brasas. Fora embora! Enfim tinha tomado o rumo do arvoredo, que para isso ela sempre deixara aberta a janelinha de pau da cozinha. Não impediria sua vontade de partir. Jamais o obrigaria à gaiola de suas paredes. O mundo de Peninha era o espaço, os ares perfumados e sem fim da Natureza. Lá sim, era seu lugar por mais que lhe doesse a falta...
Abriu a porta e olhou o céu azul. Estava triste. Nem mesmo quando os meninos rumaram pra São Paulo, sentira aquele buraco por dentro. Também, naquele tempo era mais nova, não tinha a solidão de agora. Com o dorso da mão limpou uma lágrima que teimava em lhe escorrer pelo rosto sulcado pelo tempo. De repente... O canto! Como numa mágica, a melodia a guiou para o ponto exato de onde vinha: o galho da goiabeira! Era ele!
Tomada de emoção profunda ela demorou os olhos na avezinha de penas marrons e murmurou tremulamente “Peninha, meu sabiá!”. Peninha e seu canto mavioso! A primeira vez que o ouvia! E era como se cantasse para ela, só para ela! Caminhou em sua direção. A ave não se moveu, não voou... Não fugiu. Ao contrário, soltou no ar o seu canto ainda mais forte! Era sim para ela, só para ela que Peninha cantava! Longos e doces momentos de um cântico sonoro e terno! Depois... O silêncio. Vencido pelo esforço, a avezinha silenciou, apenas tombando a cabecinha de um lado para outro, como quem olha com esmerado carinho o ser mais amado... Seriam beijos de gratidão?
E quando o passarinho alçou vôo e sumiu no meio das folhas, confundindo-se com as árvores do pomar, ela não mais se entristeceu. Entrou leve e em paz. Sentiu que ele não a deixaria mais sozinha. E assim foi: pelas manhãs, Peninha sempre voltava para a serenata matutina que ela já esperava. Com a suavidade de seu canto, ele lhe adoçava a velhice, enchia de alegria e alento a varandinha da cozinha onde ela tomava o café matinal.
Pelos meados de setembro, ela partiu. A vizinha, na falta dos barulhos rotineiros da casa, estranhou. Rodeou pelos fundos e deu com o corpo caído de borco na mesinha da varanda, junto ao bule de café e um pratinho de biscoitos. No fim da tarde, entre réstias de sol e cheiros de primavera, o corpo desceu à terra. No galho de uma quaresmeira que despetalava seus roxos sobre a cova, cantava um sabiá. Cantava só, um canto triste como nunca se viu...

3 comentários:

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação me pareceram relativamente em ordem. Se há erros desta natureza, não detectei durante a breve leitura que fiz. Um relato simples, convincente, recheado de lirismo e muito comovente, e por isso envolve o leitor. O texto parece estar totalmente inserido na proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Avaliação pessoal: entre muito bom e ótimo. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Anônimo disse...

Conto maravilhoso. Ótimo!

Alberto Rocha disse...

Excelente texto. parabéns a quem o produziu.