Desde
o princípio dos tempos, nós mulheres, fomos “adestradas” no sentido de
respeitar o homem pela sua força ou pelo seu porte físico e que a presença
deles nos garantia proteção e segurança. Exatamente por serem considerados mais
fortes e protetores que as mulheres, chorar ou manifestar medo por alguma
coisa, era inconcebível para eles.
Dia
desses não pude deixar de ouvir uma conversa de um casal, devido à proximidade
que estavam da poltrona do ônibus no qual viajamos. Diga-se que ele me pareceu
um homem alto e forte e ela uma moça bem franzina. Constatei que a concepção de
fortaleza do homem perante a mulher, vem mudando através dos tempos, pelo menos
no que se refere a assumir publicamente e sem constrangimento, os seus medos e
inquietações, inclusive sem a preocupação de parecer menos másculo. Sinal dos
tempos?
Conversavam
sobre assombrações e confesso, me diverti muito e a moça que estava com ele
também gargalhava o tempo todo, enquanto o rapaz parecia intrigado por ela
parecer tão destemida. Ele contava com detalhes algumas histórias e
comportamentos dele em relação aos seus medos, que já o acompanhavam desde
criança. A primeira história, entre outras que narrou, havia acontecido
recentemente. Na empresa na qual trabalha, de última hora, por conta da
comemoração do dia internacional da mulher, ele havia ficado até mais tarde com
uma equipe, para montar nos corredores alguns enfeites, cartazes com mensagens,
etc. O que me lembro da prosa é mais ou menos assim:
Ele:
- Pois não é que uma jornalista que estava com a gente viu uma perna?
Ela:
- Uma perna, como assim? Perguntou.
Ele:
- Acho que ela é sensitiva. No entanto, o nosso prédio é cheio de grandes
corredores e de histórias. Eu o conheço bem porque trabalho lá aproximamente
trinta anos. Estávamos parados, de costas, quase na virada de um corredor para
o outro. Ela virou-se e viu uma perna dobrando a esquina do corredor. Ela viu
somente o momento que a perna ia se deslocando como a última parte do corpo na
esquina. A perna não tinha roupa.
Ela:
(risos) – credo! Assombração?
Ele:
- Para vocês que vem do Sul, não sei, mas para cá tem mil histórias. Estou
lendo do Gilberto Freire “Assombrações do Velho Recife”.
Ela:
- Por lá também temos muitas lendas, mitos, casos de assombrações.
Ele:
- Só que aqui temos o sertão que é uma região meio abandonada onde o misticismo
é o que fala. Eu só sei de uma coisa. O meu corredor é imenso. Sai de lá
morrendo de medo de voltar sozinho para casa. Duas horas da manhã acordei e fiquei
muito receoso. Em outras palavras: acredito em assombrações (risos). E tem mais,
eu só durmo com as luzes da casa acesa e sempre tenho uma vela e fósforos ao
lado da cama.
Ela:
- Esta é ótima, um homem deste tamanho todo! (ela não se continha e dava altas gargalhadas).
Ele:
- Se divertindo não é? No dia que alguém
mexer no teu pé enquanto dorme (risos)
Ela:
- Não tenho um pingo de medo, nem de gente viva. Acredita que durmo de janelas
abertas?
Ele:
- Vejo que tu não entendes de almas. Elas entram com janelas abertas ou não.
Ela:
- Eu rezo pelas almas todas as noites e aí elas me deixam em paz.
Ele:
- Ora, o Nordeste sem assombrações seria como uma comida sem sal. É a nossa
cultura. Somos ricos nessa área. O misticismo explica muita coisa por cá. E se não explica, a gente faz de conta que
explica. Eu sempre tive uma relação de medo e de namoro com assombrações. Tive
uma infância regada de histórias de almas penadas e perdia o sono, de tanto
medo. No entanto queria ver, ouvir e visitar lugares onde poderiam acontecer
coisas assim. Ia ao cemitério com o padre ao lado, mexer nas cruzes à meia
noite.
Ela:
- O próprio medo te instigava a desvendar os mistérios?
Ele:
- Sei lá o que era aquilo que me movia! Tu já entraste numa igreja à noite com
todas as luzes apagadas? É para morrer de medo.
Ela:
- Não tive esta experiência (risos). Só me lembro de ter tido medo quando era
criança, mas mesmo assim, fazia farra com o medo e vivia aprontando com os
outros mais medrosos, provocando situações que os assustasse. A fazenda de meus
avós, na época de minha infância, era o cenário perfeito para as assombrações,
pois morreu alguém enforcado por perto e diziam que o tal aparecia para as
pessoas e...
Ele:
- Pode parar por ai, nem me conte mais nada, senão não vou conseguir dormir
hoje.
Ela: Deixa eu contar, vai ver que é até divertido
(risos).
Ele:
- Cruz credo! Vamos mudar o rumo da prosa? E só para arrematar vou te contar.
Um dia cai na besteira de ir a uma psicóloga resolver uns problemas. Isso por
conta do aconselhamento de uma namorada que também era da área. Ela disse:
vamos tentar eliminar todos os seus medos. Sabe o que respondi? De jeito algum,
não tire os meus medos. Eu sou tudo isso. Se a senhora eliminar meus medos está
tirando minhas defesas. Cai fora de lá.
Eu não conseguia
parar de rir, ouvindo aquela conversa. Não sei o que era mais hilário, se ver
aquele homem forte com um ar sisudo, morrendo de medo, ou se era a moça
morrendo de rir das histórias dele. Só
sei que medo de assombração é coisa séria e melhor mesmo é não brincar com
estas coisas, afinal é como disse o rapaz ao final de sua conversa: - E daí?
Ninguém troca tapas com assombrações, então o tamanho é o que menos importa.
Autora:
Celêdian Assis - Belo Horizonte/MG
http://sutilezasdaalmaemente.blogspot.com/