quarta-feira, 25 de julho de 2012

“Konguinhe”1 Dias Índios (VII) - Autor: Professor Wanderley Dantas

Da porta da casa em que estou, vejo a casa dos homens no centro da aldeia. Sentado na minha cadeira, observo todos os movimentos do povo e anoto cada passo, gesto e ritual. É óbvio que compreendo pouquíssimo do que acontece, mas quase sempre tenho ao meu lado o dono da casa em que estou, o cacique que vai interpretando para mim a vida na aldeia.
-O que está acontecendo lá fora? – perguntei.
-Eles estão chamando ao centro da aldeia a família do outro cacique para banhar.
-É só a família dele?
-O irmão dele morreu lá na outra aldeia e a família ficou triste. –disse-me o cacique. Lembrei-me desse falecimento, fora umas duas semanas antes.
Quando um parente morre, entra-se num período de luto. Os parentes não dançam, não se pintam, quase não saem de casa, não trabalham e não vão para a escola. Na outra aldeia, onde o índio morreu, os parentes estão fazendo a mesma coisa. Lá, o mesmo ritual está ocorrendo. Eles também se banharão.
-O banho é para tirar a tristeza da morte – diz o cacique.
-Como vocês chamam esse banho?
-Konguinhe. É um banho para tirar a tristeza. A família está muito triste, mas hoje, depois do banho, eles vão se pintar e festejar. A tristeza da morte vai ser lavada e não vai mais ter tristeza...
Enquanto ele narrava os detalhes do ritual, fiquei olhando para o centro da aldeia. Homens, mulheres e crianças da família vêm todos nus para o centro. Eles vêm de cabeça baixa, enquanto outros índios trazem as panelas cheias de água. Então, vejo alguns homens derramarem efusivamente a água sobre a cabeça daquelas pessoas, que saíam dali imediatamente para festejar: pintarão seus corpos e dançarão o dia inteiro.
Konguinhe: a tristeza da morte fora retirada – eis que a alegria da vida se celebra!... Palavras são alçapões que a cultura utiliza para que sejam guardadas memórias de tempos imemoriais. Deus usará a língua para que o bem e o mal, ocultados nos subterrâneos daquilo que nossos olhos vêem, nos sejam revelados e possamos conhecer bem profundamente a cultura do povo


 
 
Autor: Professor Wanderley Dantas

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Publicação autorizada pelo autor em 09/07/2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Bom tempo aquele - Autor: Zélia Maria Freire

Bom tempo aquele em que o médico da família era o farmacêutico da esquina, não indo as suas prescrições além de maná com sena, elixir paregórico, Biotônico Fontoura e Emulsão de Scott, ficando o resto por conta da mamãe de cada um, na condição de guardiã da saúde dos seus, sem nenhuma suspeita gastronômica , acreditava que o segredo de uma vida longa e saudável, estava ligado a uma alimentação adequada, composta de carboidratos, proteínas e gorduras.

Por isso mesmo, a mamãe de cada um, empanturrava o senhor seu marido e os seus rebentos, que caíam sem culpa nem medo no repasto. E assim o dia começava doce: café com açúcar; leite com nata, pão com manteiga; cuscuz, tapioca; ovos e queijo.

Se no café da manhã a caldeira das calorias era efervescente, imagine o quanto borbulhava no almoço, que variava entre um cozido de peito ou costela servido com pirão; galinha à cabidela e feijão verde; mocotó acompanhado de rapadura, feijão branco e farinha; rabada com agrião; buchada de carneiro; costeleta de porco com batata doce corada; carne vermelha; feijoada completa, arroz, farofa e vez por outra, macarrão. De sobremesa um docinho de jaca ou goiabada guarnecido com queijo do sertão. Tudo rebatido com um suquinho de manga.

Para fechar o dia, servia-se no jantar, uma carne de sol com arroz de leite; macaxeira; batata doce e queijo de coalho assado. E antes de dormir um prato de coalhada com bastante açúcar.

De barriga cheia, ignorando colesterol e triglicéride, muitos desse tempo morreram depois dos oitenta, outros cresceram e se multiplicaram e vivem até hoje.

E agora? Bom, agora, estou eu aqui almoçando uma folha de alface sem sal , algumas gotas de limão, um filé de peito de frango grelhado e meio copo de suco de cenoura sem açúcar, já que hoje tudo faz mal e engorda e o doutor do coração, que cuida deu proíbe gorduras, carne vermelha, sal, açúcar, massas e os outros doutores que cuidam disso e daquilo proibiram o resto.

Não existe mais prazer em saborear sequer um doce, um salgadinho, os que se aventuram, forçosamente irão parar no divã do analista, tamanho será o seu sentimento de culpa. E haja SPA e academias de ginástica para acomodar a legião de atormentados.

E como se não bastasse a tortura física, via barriga, vem mais uma novidade das cabeças-pensantes de Harvard, precisamente um tal de Dr. Herbert Benson, que depois de anos de pesquisas, solta os seus números e estatísticas, alertando que, ai daqueles de espírito macambúzio, pessimista, depressivo e ansioso. A sentença é de que um indivíduo de mente tão pra baixo, gera no cérebro uma reação química que se espalha pelo corpo, atingindo o coração ou gerando câncer.

Pois me diga: de barriga vazia, lendo, ouvindo e vendo o noticiário terrivelmente violento e deparando-se com um governo feito cobra mordendo o seu próprio rabo; relatos e mais relatos de falcatruas pra tudo quanto é lado. Como é que você se sente? Macambúzio e pessimista, né não?

Mas não se avexe não, viu? Lembre-se que João Batista – o que batizou Jesus- alimentava-se de gafanhoto e o filósofo Schopenhauer, o maior pessimista e depressivo que se tem noticia, viveu mais de oitenta anos.

Autora: Zélia Maria Freire - Natal/RN

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Publicação autorizada através pela autora

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sem tempero - Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira

Edmundo, o "Mundico", era  esposo  de  Cândida, a "Nhá  Candoca", que  de  candura  tinha  muito  pouco. Pelo  contrário, era  tinhosa, caboclinha do  sangue  quente e  "adubava  o lombo" de  Mundico  na  maioria das vezes em  que  êste  chegava  de  porre  em casa.
Magrinha, olhar  enferuscado,sempre  de  lençinho  à cabeça, costumava postar-se  defronte  ao  casebre onde moravam espiando pra  ver  se  o  Mundico vinha  "tocando os  gansos" como  dizia. Quando  isso  acontecia, e  era  frequente, o pau  comia sempre  com  larga vantagem  para  a  tinhosinha da  pá virada.
Atributos não  faltavam  à  Nhá  Candoca. Cozinhava  muito  bem. O  trivial, é  claro, mas  com  capricho e  um  tempero  especial. Cuidava  bem  do  ranchinho  e  dispensava um  cuidado todo  especial quando  da  lavagem  das  roupas.
Num  certo  dia,tendo  cuidado dos  afazeres,tomou  os  panos  de  prato, lavou-os  e  os  colocou num  balde  a  ferver com  água  e  sabão. Após  um  longo  dia de  trabalho, já  muito  cansada, deitou-se e  caiu  num  sono profundo.
Mundico, que  passara  a  tarde  "bebendo tôdas", adormeceu  num  barranco e  ao  acordar  deparou-se  com  uma  lua  cheia  belíssima iluminando  a  campina. Levantou-se e, errando  passadas, acabou  chegando em  seu  rancho. Era  noite  alta,tudo  estava  muito  quieto e, então, pensou:
-Se  eu  não  fizer  barulho, a  Candoquinha não  me    chegar  e consequentemente  não  me  senta  o  braço.
  ante  pé, ainda  meio  tonto, adentrou  e, faminto, sem  acender a  luz dirigiu-se  até o  fogão.
Candoca roncava  no  quartinho  ao  lado. O  bêbado tateando  com  as  mãos se  deu  conta  do  caldeirãozinho  de  feijão, do  qual serviu-se e percebendo  ao  lado dêste  um  grande  panelão, meteu o  garfo  e  sentiu  o  peso de  algo  que  vinha  fisgado. Passou  a  mão e  levou  aquela  coisa  à boca. Mastigou, puxou  com  os  dentes e... Nada. Apenas  uma  coisa  sem  sabor, rija  e insossa.
Que  comida  mal  feita!... Candoca está  ficando  desmazelada, pensou  com  seus  botões. Tentou outra  mordida, e... Nada. Acabou por  comer    o  feijão.
Manhã do  dia  seguinte:
Candoca, enfurnada, empurra-lhe  com  grosseria  o  prato de  polenta  frita que  acompanha  o café da manhã. Mundico   serve-se e  com  ar  pensativo dirige-se  à  mulher:
Candoca, não  me  leve  a  mal, mas  daqui pra  frente quando  fizer courinho de  porco com  feijão cozinhe-o  melhor e  jogue  sal  e  uns  temperinhos  por  cima. Aquêles  que  você  me  deixou  ontem  à  noite, estavam  em  pedaços  muito  grandes, rijos  e  sem  sal. Tinham  um  gosto  de  sabão e  desculpe-me, mas  não  consegui  come-los.
Um  ar vingativo desenha-se  no  sorrisinho  diabólico de  Candoca antes  de  responder-lhe:
_"Vô  pensá  no  teu  caso!... Vô  pensá!

Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira - Irati/PR

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=57640
Publicação autorizada através de e-mail de 19/07/2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sobre o livro: A saga de um Pedro - Amor e luta traçando destinos




Comentário do dia 08/07/2012
Tirei o início desta noite de domingo para ler "A Saga de um Pedro", e o fiz num estirão rápido e prazeroso. O livro é uma biografia do pai do autor, revelando sua vida inquieta e difícil, desde os tempos de menino, mas repleta de aventuras e causos. Sendo, como o autor e seu pai, também pernambucano, os lugares (Tabira, Afogados da Ingazeira, Iguaraci, Sertânia e Custódia) me são familiares, aliás, fui juiz de Sertânia e conheço bem Custódia). Acompanhei apreensivo os tempos atribulados do Pedro enquanto soldado e me diverti com sua viagem para se apresenar no Quartel do Derby. Antes, me impressionou sua coragem de se mandar para trabalhar nas terras da Usina Serra Grande, na divisa de Pernambuco e Alagoas, aonde fica o município de Ibateguara, lugar que, no tempo em que estive morando em Maceió, passava todas as semanas. Soldado reformado, segue o Pedro dando o rumo a sua vida turbulenta, conseguindo, a duras custas, se casar. Sua viagem a Brasília e os tempos em São Paulo, os começos e recomeços de suas atividades comerciais, até acertar a sintonia como revedendor de rádio, que leva ao nascedouro da Casa Campeão e o seu auge enquanto comerciante cheio de posses e respeitado. Mas, vem a derrocada comercial e o Pedro, desolado, se muda para Custódia, onde à frente do Cine Custódia (cujo nome comercial é Cinema Santa Maria), consegue sobreviver com relativa folga até a massificação da televisão. Endividado, vê na tentativa de obter um empréstimo na sua antiga corporação a solução para seus problemas. O empréstimo não veio, ao invés dele algo bem melhor: a milhar 9690. Com o dinheiro, compra um chevette novinho em folha e ainda sobra cobre suficiente para quitar suas dívidas e comprar a casa própria para D. Celeste e encanto de seus meninos. Na difícil história dos homens comuns, essa desse Pedro valeu de fato ser retratada e imortalizada em páginas de livro. Valeu, Carlos. Meus parabéns.
Comentário do dia 09/07/2012
Apenas continuando o comentário acima, a respeito da trepidante e engenhosa vida de "Zé das Máquinas", que vem a ser o pai do escritor Carlos Lopes, de fato fiquei impressionado com sua trajetória de homem inquieto, fiel às suas convicções e, principalmente às suas teimosias, o que, às vezes, lhe custou muito caro. Me diverti muito com sua estadia inicial no Quartel do Derby e sua aversão aos banhos, assim como sua última viagem de caminhão com a família toda para o Estado de São Paulo e o seu jeito para arranjar as coisas, bem típico do nordestino sabido. Assim, Carlos, retratando a vida de seu pai, você propiciou aos seus leitores com uma leitura interessante, dessas boas de se fazer a qualquer tempo e qualquer lugar.
Autor: Augusto Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=29657
Publicação autorizada pelo autor

domingo, 15 de julho de 2012

Mão-no-bolso! A bricadeira! - Autor: Chagoso

Essa era uma bricadeira entre meninos da minha cidade, considerada muito violenta. Consistia num contrato entre dois moleques onde aquele que flagrasse o outro sem pelo menos uma das mãos no bolso tinha o direito de desferir-lhe um murro nas costas. Podia ser qualquer bolso, desde que de uma roupa que estivéssemos usando. E caso a roupa (calção, camisa...) não tivesse um, valia meter a mão por dentro do calção. A execução era sumaríssima e acompanhada de um grito: "Mão no bolso!". Geralmente quem sofria mais eram os iniciantes na brincadeira, pois os mais experientes estavam sempre com uma mão no bolso, quando não as duas. E ainda assim, quando viam alguém se aproximar, ato reflexo, punham-se em guarda. Os impasses ocorriam justamente quando a pena era aplicada no momento em que o infrator colocava o mão no bolso e instalava-se o conflito: o infrator dizia-se injustiçado e o executante afirmava legalidade no ato. Quando havia um terceiro moleque, amigo dos dois, recoriam a ele para julguar a legítimidade. Caso fosse considerado injusto, o injustiçado tinha o direito de desferir semelhante soco, como forma de reparo. Obviamente a brincadeira era de total desconhecimento de nossos pais pois tamanha brutalidade era incompatível com o padrão de amizade que reinava naqueles idos.
Hoje fico me perguntando: Como não seria melhor o mundo se nossos jovens ainda brincassem de mão-no-bolso e abominassem outras formas de violência...
 
Autor: Chagoso – Porto Velho/RO

sábado, 14 de julho de 2012

Depressão do Pinguim de Geladeira - Autora: Adriane Morais


Valores. Não, não vou repetir essa coisa de que alguns valores de hoje são divergentes daqueles de tempos idos, e por tal motivo vários aspectos de nossas vidas estão em desencaixe. Não! Simplesmente acredito na evolução das ideias e num repensar de diversos dogmas, e alguns argumentos que se contrapõem a essa crença, numa espécie de devaneio, associo a um eufemismo: depressão do pingüim de geladeira. Minhas avaliações são estranhas até para mim, mas...sigamos.

Viver na condição de não alterarmos o status quo por estarmos conformados ou simplesmente por que desconfiamos do novo, faz parte da inércia de vários. E tal inércia, como já está consolidada em vários aspectos e há anos...não! Décadas...não! Séculos...ah! é melhor não tentar limitar...perpetua-se em maciços e fortes defensores que atuam em indefinidos segmentos, e o know how em anular o indesejável se torna cada vez mais proporcional à praticidade de permanecermos quietos, na moita do não querermos envolvimento, do não querermos dar força a algo que renasça e contradiga o que aí está acatado.

Assim, fico feliz ao enxergar algumas sensíveis mudanças concorrerem com a descrença. Refiro-me ao fazer diferente de algumas pessoas, contra-argumentando o antes e evoluindo no possível e adequado, independentemente de holofotes ou do auto-marketing. É apenas um pensamento solto à reflexão.

Sobre a depressão do pinguim de geladeira. Humm! Há um forte argumento de que a colocação do pinguim sobre tal eletrodoméstico tinha um valor comercial agregado. Nos anos de 1950, os modelos dos refrigeradores eram bem arcaicos, lembravam armários de cozinha. Daí, para diferenciá-los de tais móveis, uma marca americana apostou na figura do pinguim para a divulgação e venda da então geladeira troglodita. Sabem como é: pinguim...geleiras. A idéia deu tão certa e cativou tanto os compradores, que havia gente que se tornava cliente da então empresa e adquiria o gelado armário, digo refrigerador, só por causa da figura de cerâmica em forma de pingüim. Pode?!

Os anos se passaram. A forma dos tais refrigeradores evoluiu. A marca americana que desenvolveu a idéia com a ave nadadora foi adquirida por outra empresa. O pinguim de cerâmica se transformou numa coisa démodé, ultrapassada. Sua utilização representava cafonice. Enterra-se o tal artigo de impulsão de vendas numa depressão comercial.

Os anos se passaram. Os valores sobre o significado e entendimento do que representa démodé...antigo...ultrapassado, são alterados. A máquina de costura, aquela com base de ferro, centenária, movida a manivela, esquecida e abandonada, torna-se um belo artigo retrô para decoração, e nesse saudoso caminho desfilam: telefones de disco; radiolas, LPs ou bolachões; roupas; sapatos; cortes de cabelos etc. Retrô! Graças a essa palavra e na força dos que acreditaram no enaltecimento do velho numa linha de arte, eis que retorna...quem?...quem? o pinguim de geladeira. Repaginado. Fashion. Vários são os personagens: roqueiro, surfista, intelectual, tímido, clássico, ousado, natalino ou até indecifrável.

Pois é! Esse é o meu devaneio ou um eufemismo para a radicalização do que deve ser permanente e, portanto, consolidado como inalterável. Valores, nós os criamos, nós os viabilizamos, nós os conduzimos ou os repensamos. A conveniência, interesse, crença e ações são os pilares do que se quer ou não associado a nós. A propósito, ainda não tenho um pinguim de geladeira, mas tenho uma coruja.


Autora: Adriane Morais – Recife/PE

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Postagem autorizada através de e-mail de 14/07/2012

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tamanho não é documento de valentia - Autora: Celêdian Assis

Desde o princípio dos tempos, nós mulheres, fomos “adestradas” no sentido de respeitar o homem pela sua força ou pelo seu porte físico e que a presença deles nos garantia proteção e segurança. Exatamente por serem considerados mais fortes e protetores que as mulheres, chorar ou manifestar medo por alguma coisa, era inconcebível para eles.
Dia desses não pude deixar de ouvir uma conversa de um casal, devido à proximidade que estavam da poltrona do ônibus no qual viajamos. Diga-se que ele me pareceu um homem alto e forte e ela uma moça bem franzina. Constatei que a concepção de fortaleza do homem perante a mulher, vem mudando através dos tempos, pelo menos no que se refere a assumir publicamente e sem constrangimento, os seus medos e inquietações, inclusive sem a preocupação de parecer menos másculo. Sinal dos tempos?
Conversavam sobre assombrações e confesso, me diverti muito e a moça que estava com ele também gargalhava o tempo todo, enquanto o rapaz parecia intrigado por ela parecer tão destemida. Ele contava com detalhes algumas histórias e comportamentos dele em relação aos seus medos, que já o acompanhavam desde criança. A primeira história, entre outras que narrou, havia acontecido recentemente. Na empresa na qual trabalha, de última hora, por conta da comemoração do dia internacional da mulher, ele havia ficado até mais tarde com uma equipe, para montar nos corredores alguns enfeites, cartazes com mensagens, etc. O que me lembro da prosa é mais ou menos assim:
Ele: - Pois não é que uma jornalista que estava com a gente viu uma perna?
Ela: - Uma perna, como assim? Perguntou.
Ele: - Acho que ela é sensitiva. No entanto, o nosso prédio é cheio de grandes corredores e de histórias. Eu o conheço bem porque trabalho lá aproximamente trinta anos. Estávamos parados, de costas, quase na virada de um corredor para o outro. Ela virou-se e viu uma perna dobrando a esquina do corredor. Ela viu somente o momento que a perna ia se deslocando como a última parte do corpo na esquina. A perna não tinha roupa.
Ela: (risos) – credo! Assombração?
Ele: - Para vocês que vem do Sul, não sei, mas para cá tem mil histórias. Estou lendo do Gilberto Freire “Assombrações do Velho Recife”.
Ela: - Por lá também temos muitas lendas, mitos, casos de assombrações.
Ele: - Só que aqui temos o sertão que é uma região meio abandonada onde o misticismo é o que fala. Eu só sei de uma coisa. O meu corredor é imenso. Sai de lá morrendo de medo de voltar sozinho para casa. Duas horas da manhã acordei e fiquei muito receoso. Em outras palavras: acredito em assombrações (risos). E tem mais, eu só durmo com as luzes da casa acesa e sempre tenho uma vela e fósforos ao lado da cama.
Ela: - Esta é ótima, um homem deste tamanho todo! (ela não se continha e dava altas gargalhadas).
Ele: - Se divertindo não é?  No dia que alguém mexer no teu pé enquanto dorme (risos)
Ela: - Não tenho um pingo de medo, nem de gente viva. Acredita que durmo de janelas abertas?
Ele: - Vejo que tu não entendes de almas. Elas entram com janelas abertas ou não.
Ela: - Eu rezo pelas almas todas as noites e aí elas me deixam em paz.
Ele: - Ora, o Nordeste sem assombrações seria como uma comida sem sal. É a nossa cultura. Somos ricos nessa área. O misticismo explica muita coisa por cá.  E se não explica, a gente faz de conta que explica. Eu sempre tive uma relação de medo e de namoro com assombrações. Tive uma infância regada de histórias de almas penadas e perdia o sono, de tanto medo. No entanto queria ver, ouvir e visitar lugares onde poderiam acontecer coisas assim. Ia ao cemitério com o padre ao lado, mexer nas cruzes à meia noite.
Ela: - O próprio medo te instigava a desvendar os mistérios?
Ele: - Sei lá o que era aquilo que me movia! Tu já entraste numa igreja à noite com todas as luzes apagadas? É para morrer de medo.
Ela: - Não tive esta experiência (risos). Só me lembro de ter tido medo quando era criança, mas mesmo assim, fazia farra com o medo e vivia aprontando com os outros mais medrosos, provocando situações que os assustasse. A fazenda de meus avós, na época de minha infância, era o cenário perfeito para as assombrações, pois morreu alguém enforcado por perto e diziam que o tal aparecia para as pessoas e...
Ele: - Pode parar por ai, nem me conte mais nada, senão não vou conseguir dormir hoje.
Ela:  Deixa eu contar, vai ver que é até divertido (risos).
Ele: - Cruz credo! Vamos mudar o rumo da prosa? E só para arrematar vou te contar. Um dia cai na besteira de ir a uma psicóloga resolver uns problemas. Isso por conta do aconselhamento de uma namorada que também era da área. Ela disse: vamos tentar eliminar todos os seus medos. Sabe o que respondi? De jeito algum, não tire os meus medos. Eu sou tudo isso. Se a senhora eliminar meus medos está tirando minhas defesas. Cai fora de lá.
Eu não conseguia parar de rir, ouvindo aquela conversa. Não sei o que era mais hilário, se ver aquele homem forte com um ar sisudo, morrendo de medo, ou se era a moça morrendo de rir das histórias dele.  Só sei que medo de assombração é coisa séria e melhor mesmo é não brincar com estas coisas, afinal é como disse o rapaz ao final de sua conversa: - E daí? Ninguém troca tapas com assombrações, então o tamanho é o que menos importa.


Autora: Celêdian Assis - Belo Horizonte/MG

http://sutilezasdaalmaemente.blogspot.com/

terça-feira, 10 de julho de 2012

Hapitihítso - Dias Índios (VIII) - Autor: professor Wanderley Dantas


          Quando entrei em casa, vi sentado em minha rede o índio que nos recebeu em 2007, quando visitávamos nossa aldeia pela primeira vez. Eu tenho por ele profundo carinho, pois vejo bem suas dificuldades na aldeia e sua baixa auto-estima: ele é negro e os povos da minha região são profundamente preconceituosos.
Ele estava rodeado de outros índios e índias que riam um riso escondido ao lado dele. Aproximei-me. Vi que eles estavam vendo fotos tiradas numa festa no ano passado. Mas era uma foto específica que estava gerando sorrisos e olhares maliciosos. Era uma índia, uma jovem índia de uns 20 anos de idade. Ao me verem, todos saíram. Ele permaneceu sentado na minha rede.
-Hapitihítso - disse ele para mim, mostrando-me a foto.
-O que é isso? – perguntei.
-Hapitihítso – repetiu, enquanto os outros índios riam e saíam de perto.
-Eu não sei o que isso significa.
-Ela, essa menina na foto, ela é hapitihítso – disse novamente, enquanto índios e índias que estavam na casa riam e, mesmo diante do meu desconserto, ele não falou mais nada. Afastei-me para sair da casa. Quando já à porta, outro índio segurou meu braço e me puxou para perto de si.
-Hapitihítso... Você não sabe o que é? – disse ele em voz baixa como que prestes a me revelar um segredo.
-Não, não faço a menor idéia.
-“Mulher do vovô”. Hapitihítso é “mulher do vovô” - Percebendo que eu estava para descobrir algo submerso em águas profundas, esforcei-me ao máximo para não expressar nenhum traço de surpresa, mesmo diante de um provável escândalo.
-“Mulher do vovô”... Mas isso é o quê?
-É a menina que o pai não deixa casar e fica em casa para namorar o pai. A gente chama de “mulher do vovô” – disse-me. Eu precisava disfarçar o meu estado de choque, pois me preparara para muitas coisas, mas realmente fiquei perplexo com aquilo.
-O pai namora a filha? Eles deitam juntos? – não sabia bem como me expressar.
-É. O pai não deixa a filha casar para ficar fazendo sexo com ela –disse-me o índio.
-Isso acontece muito? Quero dizer, acontece muito o pai namorar a filha? – Eu não podia transparecer o meu escândalo, eu precisava fazer com que ele confiasse e se sentisse à vontade para continuar a conversa.
-Acontece.
-Aqui na nossa aldeia acontece isso?
-Não, só na outra aldeia... Mas você não pode contar para ninguém que eu te disse isso. Você não pode dizer que fui eu quem te disse isso!

Ao estudar as culturas indígenas da minha região, aprendi que expressões como “só na outra aldeia” são ditas para se esconder algo que acontece ali também. Adultério, infanticídio e incesto são sempre apresentados como coisas que só acontecem “fora da aldeia”. Ou na roça ou na outra aldeia, mas nunca dentro da comunidade.



Publicação autorizada pelo autor em 13/08/2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Ngüne atütü - Dias Índios (IX) - Autor: Professor Wanderley Dantas


Casa linda: ngüne atütü! O que mais eu poderia dizer? Em qual língua expressar a alegria de finalmente vê-la construída? Não somente vê-la construída, mas certamente admirá-la. A casa é grande, a casa é maravilhosa, muito além de nossas expectativas. Mas sei que é mais que uma casa: é uma vitória de Deus!

Ano passado, o cacique havia me procurado ainda em Brasília para dizer que iria construí-la, mas passadas algumas semanas houve um incêndio ao redor da aldeia que destruiu aquilo que seria usado como telhado de nossa casa, o sapê.

Combinamos que eu entraria sozinho até que a casa estivesse pronta para que eu levasse minha família comigo. Foram meses de solidão, de solidão com Deus. Sem esposa, sem filhas, todavia com a promessa em meu peito de que Deus nos levaria à aldeia em condições mínimas de moradia. Bastaria um telhado…

Janeiro passou, fevereiro passou e março também… Tornei-me eu mesmo uma casa, mas para minhas dúvidas: será que eles me queriam ainda ali? A construção da casa pela comunidade era algo fundamental na nossa comunicação intercultural, era a maneira do povo dizer se nos queriam mesmo ali entre eles ou não. Assim, esperei durante todo mês de abril.

Descobri, enfim, que havia jogos de poder por trás das cortinas desse palco -a disputa entre as lideranças sobre a quem eu pertencia. Eu era o professor de um cacique ou eu era o professor da comunidade? As intrigas, as tramas, os jogos culturais haviam há muito se deflagrado, entretanto demorei a descobrir. Até que um dia a comunidade aproveitou-se da ausência do cacique que me recebera em sua casa, fazendo uma reunião sem ele e determinando que a minha casa fosse construída em outro lugar.

Deixe-me explicar melhor. O cacique que me recebeu na aldeia definira que minha casa seria atrás da casa dele, assim eu estaria afastado da aldeia e em ligação direta com ele. Este cacique foi e começou a construção da minha casa atrás da casa dele, já colocando até mesmo as madeiras de sustentação. Mas, no início do mês de maio, ele foi a um velório numa outra aldeia por dois dias. Neste meio tempo, a liderança da aldeia (há outros 2 caciques) tomou nova decisão, desmontando os alicerces da minha casa e a construindo no lugar em que ela está agora. O que eu poderia fazer? Gelei e esperei pelo pior.

Ao regressar do velório, eu e toda a comunidade ficamos ouvindo o seu choro alto por horas. Não quis acreditar que era por causa da história da casa, dentro de mim decidi que deveria ser pelo recente velório. Como saber? Não quis perguntar. Eu estava me sentindo como uma peça num tabuleiro de xadrez. Os jogadores eram todos parentes entre si e caciques, enquanto eu era apenas um ignorante peão estrangeiro…
Algumas semanas depois, ele me levou para a roça. Estávamos a sós e então ele falou sobre o assunto pela primeira vez após o incidente:

- Wanderley, eu não gostei do que fizeram – ele disse repentinamente de foice na mão.

- Eu também não – disse tentando encontrar algum vão para me solidarizar com sua tristeza e mostrar que eu não tinha tido nada com aquilo.

- A liderança tinha que respeitar minha decisão. Agora, você vai ficar longe de mim. Como eu vou te ajudar? Fica difícil saber o que você está precisando, fica difícil pra mim levar peixe pra você.

- Eles decidiram sem você, não foi?

- Mas você está feliz? – ele me perguntou, olhando bem nos meus olhos.

- Eu queria minha família comigo. O importante era isso.

- Agora sua família vem. A casa vai ser construída...

Saímos da mata e eu estava triste e alegre. Triste por saber que aquela experiência ímpar de morar na casa de um dos caciques iria acabar. Alegre por saber que seria a minha última entrada na aldeia sem minha família. Durante o mês de Junho, construímos minha casa e minha família entrou para morar comigo na aldeia em julho daquele ano.


Publicação autorizada pelo autor em 21/08/2012