sábado, 14 de julho de 2012

Depressão do Pinguim de Geladeira - Autora: Adriane Morais


Valores. Não, não vou repetir essa coisa de que alguns valores de hoje são divergentes daqueles de tempos idos, e por tal motivo vários aspectos de nossas vidas estão em desencaixe. Não! Simplesmente acredito na evolução das ideias e num repensar de diversos dogmas, e alguns argumentos que se contrapõem a essa crença, numa espécie de devaneio, associo a um eufemismo: depressão do pingüim de geladeira. Minhas avaliações são estranhas até para mim, mas...sigamos.

Viver na condição de não alterarmos o status quo por estarmos conformados ou simplesmente por que desconfiamos do novo, faz parte da inércia de vários. E tal inércia, como já está consolidada em vários aspectos e há anos...não! Décadas...não! Séculos...ah! é melhor não tentar limitar...perpetua-se em maciços e fortes defensores que atuam em indefinidos segmentos, e o know how em anular o indesejável se torna cada vez mais proporcional à praticidade de permanecermos quietos, na moita do não querermos envolvimento, do não querermos dar força a algo que renasça e contradiga o que aí está acatado.

Assim, fico feliz ao enxergar algumas sensíveis mudanças concorrerem com a descrença. Refiro-me ao fazer diferente de algumas pessoas, contra-argumentando o antes e evoluindo no possível e adequado, independentemente de holofotes ou do auto-marketing. É apenas um pensamento solto à reflexão.

Sobre a depressão do pinguim de geladeira. Humm! Há um forte argumento de que a colocação do pinguim sobre tal eletrodoméstico tinha um valor comercial agregado. Nos anos de 1950, os modelos dos refrigeradores eram bem arcaicos, lembravam armários de cozinha. Daí, para diferenciá-los de tais móveis, uma marca americana apostou na figura do pinguim para a divulgação e venda da então geladeira troglodita. Sabem como é: pinguim...geleiras. A idéia deu tão certa e cativou tanto os compradores, que havia gente que se tornava cliente da então empresa e adquiria o gelado armário, digo refrigerador, só por causa da figura de cerâmica em forma de pingüim. Pode?!

Os anos se passaram. A forma dos tais refrigeradores evoluiu. A marca americana que desenvolveu a idéia com a ave nadadora foi adquirida por outra empresa. O pinguim de cerâmica se transformou numa coisa démodé, ultrapassada. Sua utilização representava cafonice. Enterra-se o tal artigo de impulsão de vendas numa depressão comercial.

Os anos se passaram. Os valores sobre o significado e entendimento do que representa démodé...antigo...ultrapassado, são alterados. A máquina de costura, aquela com base de ferro, centenária, movida a manivela, esquecida e abandonada, torna-se um belo artigo retrô para decoração, e nesse saudoso caminho desfilam: telefones de disco; radiolas, LPs ou bolachões; roupas; sapatos; cortes de cabelos etc. Retrô! Graças a essa palavra e na força dos que acreditaram no enaltecimento do velho numa linha de arte, eis que retorna...quem?...quem? o pinguim de geladeira. Repaginado. Fashion. Vários são os personagens: roqueiro, surfista, intelectual, tímido, clássico, ousado, natalino ou até indecifrável.

Pois é! Esse é o meu devaneio ou um eufemismo para a radicalização do que deve ser permanente e, portanto, consolidado como inalterável. Valores, nós os criamos, nós os viabilizamos, nós os conduzimos ou os repensamos. A conveniência, interesse, crença e ações são os pilares do que se quer ou não associado a nós. A propósito, ainda não tenho um pinguim de geladeira, mas tenho uma coruja.


Autora: Adriane Morais – Recife/PE

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Postagem autorizada através de e-mail de 14/07/2012

4 comentários:

Carlos Lopes disse...

Então Adriane, concordo contigo. Discordo do cantor que diz ¨O passado é uma roupa que já não nos serve mais¨. Serve sim. O que não podemos pensar é que as coisas do passado deviam ser permanentes ou até melhorá-las. Porém concordo com o mesmo cantor quando diz: ¨O novo sempre vem¨. Gerações funcionam tal idades de crianças, cada uma tem sua beleza.Então que venha o moderno com os pés no passado, assim caminha a história da evolução do homem. A história do homem e sua produtividade nos remete ao pensar e não cometer besteiras futuras. Eu adoro o passado, falar das minhas experiências e dos meus convivas, porém tenho fascinação pelo computador e outras engenhocas. O carro não foi feito para matar pessoas, mas matam. O segredo está em saber viver e respeitar o espaço alheio. É isso aí. Um dia quero fazer piquinique na lua. Viva eu, viva tu, e viva o rabo do tatú.

Wanderley Dantas disse...

Adriane, que texto inteligente! Parabéns! Criativo, diferente e pessoal. Fiquei fã do seu jeito reflexivo de escrever. Abraços!

Drica disse...

Wanderley, obrigada....obrigada por tais estimulantes palavras!

Drica disse...

Pois é, Carlos, somos o foi e por isso estamos, mas graças ao amanhã continuamos, ahhhhh! e como é dignificante o continuar (...).