terça-feira, 27 de outubro de 2020

TÍTULO: EM PARIS TUDO É POSSÍVEL

 



EM PARIS TUDO É POSSÍVEL

Parte 1 – Socorro Beltrão

Sarah estava sentada no alto da colina, tinha o mundo aos seus pés. A Fazenda Santa Rita. O rio murmurava baixinho lá embaixo, em seu eterno chuá chuê.  A paisagem era de tirar o fôlego, o sol dava um espetáculo à parte, tingindo de rubro o céu, deixando o espelho d’ água também rubro. O dia estava se despedindo, logo se faria noite. Tudo era encanto. Tudo era beleza. Tudo era serenidade. Mas Sarah estava pensativa. Quanto mais a natureza ficava bela ao seu redor, mais seus pensamentos se confundiam em sua mente.

Será que valeria a pena deixar tudo isso para trás em busca de um sonho? Pensava ela a ponto de desistir de tudo.

O que será de mim, longe daqui, sem meus pais, meus avós, meus irmãos, meus amigos?

Sarah nasceu e se criou na Fazenda Santa Rita. Seu pai ajudava ao seu avô. A fazenda ficava nas terras da Cidade de Vitória de Santo Antão. Com seus verdes prados, o gado mugindo a toda hora, bezerrinhos saltitantes, um grande galinheiro no quintal. Um pomar rico em frutas diversas. O jardim, cheio de rosas colorias e perfumadas, tomava toda frente da bela casa da fazenda. As cavalgadas, as vezes sozinha, outras tantas acompanhada pelos irmãos, avô ou o pai. Os banhos de rio, pular dos galhos da cajazeira e cair no rio jogando água para todos os lados. Os docinhos da voinha, sua mãe sempre por perto. Seu irmão, Agrônomo cuidava da lavoura, o caçula, estava concluindo o curso de Veterinária, iria cuidar da criação do gado. Sua irmã, professora da fazenda, casada com um filho de um fazendeiro vizinho, grávida de seu primeiro sobrinho. Tinha uma vida feliz.

A Sarah adorava pintar. Seus quadros enchiam a família de orgulho, pintava a natureza à sua volta com maestria. Desde pequena já fazia bonito com os lápis de cor. Aos 15 anos, sua madrinha Lia, a presenteou com uma linda caixa, cheias de tintas e pincéis, seu padrinho Marcelino, se encarregou das telas. A festa foi linda, mas ela não via a hora de irem embora para inaugurar suas tintas. A partir deste dia estava sempre às voltas com tintas, pincéis e telas. Terminou o magistério e não via a hora de viajar para a Europa onde iria estudar pintura. Dali há três dias estaria na França, todas as providências já tinham sido tomadas. Iria ficar na casa da irmã de sua madrinha. (20 linhas)

Parte 2 – José Bueno Lima.

A despedida de Sarah, como esperado, fora emocionante!  Entretanto, assim que se sentou em sua poltrona na classe executiva da aeronave, deu um chega para lá em tudo que aconteceu, senão jamais haveria condições dela conseguir realizar seu sonho. Logo, a comissária veio abordá-la, oferecendo-lhe todas as mordomias que faziam parte daquela classe. Uma taça de vinho lhe faria bem, pensou, e foi o que aceitou. Desse modo, a viagem correu maravilhosamente bem. Nas vezes em que acordava de um leve sono, já ia pensando no que fazer na França, pois teria duas semanas para o início das aulas de pintura, na Escola de Belas Artes de Paris, que escolhera. Finalmente, o pouso no Aeroporto Charles De Gaulle! No portão de desembarque, foi recebida por Mirtes, irmã da madrinha Lia, 32 anos, casada com um engenheiro francês, de mesma idade, o Laurent. Formavam um bonito casal. Ela fizera curso de línguas na Sorbonne, e lecionava numa escola para estrangeiros. Ele, trabalhava numa multinacional. Não tinham filhos. Moravam em um bom apartamento situado no Quartier Latin. Sarah simpatizou-se muito com o casal, e achou sua nova casa agradável, seu quarto bem confortável e espaçoso. Lia e Laurent desmanchavam-se em gentilezas. Sarah, assim que se viu só, vibrou de alegria, pois teria facilidade de desenvolver o idioma, pois já possuía uma boa base do mesmo, portanto não teria dificuldade para conhecer a cidade. Após o banho relaxou e adormeceu. No café da manhã conversaram sobre passeios que ela poderia fazer, tendo Sarah imediatamente demonstrado o desejo de primeiro ir à Escola de Belas Artes, pois estava ansiosa em conhecê-la. Lia e Laurent ofereceram a carona a ela. Sarah ficou maravilhada com a escola. Ao sair, ela consultou um guia que havia comprado no aeroporto, notou que o Pantheon ficava ali perto e aproveitou para visitá-lo. Com os conselhos de Laurent, ela verificou a facilidade do metrô, passando a utilizá-lo com grande frequência. E assim, nesse dia e nos demais, conheceu diversos pontos turísticos da Cidade Luz. Apaixonou-se pelo Louvre, mormente quando viu a Gioconda, e notou alguns pintores fazendo cópias da famosa tela. Logo logo, ela estaria ali fazendo o mesmo, prometeu a si mesma. Com o passar do tempo, devido aos inúmeros programas que faziam, Sarah começou a sentir algumas atitudes estranhas de Laurent em relação a ela. Não sabia definir. E, na realidade, ela também notou que sentia algo diferente, nessas ocasiões. Tentou evitar muitos encontros, mas na maioria das vezes era impossível.

Quem sabe após o início das aulas, as coisas mudassem!

Parte 3 – Cléa Magnani

Durante o jantar, por algumas vezes os olhos azuis de Lauren e os verdes de Sarah se encontraram, mas rapidamente se desviaram, para novamente se buscarem. Estava se tornando incontrolável aquele sentimento que, como um vulcão os queimava por dentro, e mesmo sabendo ser impossível, os atraía como um ímã. E quando, no momento de se servirem da salada, suas mãos se tocaram, um arrepio estremeceu o corpo de Sarah, que sentiu um rubor aquecer seu rosto, e temendo que Mirtes percebesse algo, comentou:

-   Nossa! O excelente vinho francês me deu calor...

Após o jantar, todos se dirigiram para a sala de estar onde conversaram sobre amenidades, enquanto tomavam um delicioso licor. Laurent lia os jornais. Mirtes tinha de preparar alguns textos para seus alunos e se dirigiu ao escritório para terminar a tarefa da aula do dia seguinte. Sarah, saiu na varanda do apartamento e observava as luzes da Cidade Luz, que reverberavam no sereno Rio Sena. Seus pensamentos voavam até a fazenda.... Quanta diferença entre a vida pacata que vivera até semanas atrás e a agitação da Europa.... Estava perdida em seus pensamentos debruçada no balaústre da varanda, quando Laurent se aproximou sorrateiramente e a abraçou pelas costas. A jovem voltou-se com um gritinho de susto, que foi calado pelo beijo ardente que Laurent lhe deu.

Indignada, mas não querendo atrair a atenção de Mirtes, Sarah tentava afastar-se do rapaz, que a envolveu num abraço, e sussurrando lhe pedia silêncio, enquanto declarava estar perdidamente apaixonado por ela.

Sarah sentiu-se muito mal naquela situação. Estava sendo acolhida na casa da irmã de sua madrinha, e o marido dela lhe convidava para trair Mirtes? Mas no fundo, ela também se sentia atraída pelo marido da amiga.

Sem dizer nenhuma palavra, Sarah desvencilhou-se do abraço de Laurent e correu para seu quarto.

Parte 4 – Alberto Vasconcelos

No desjejum do dia seguinte, Sarah ouviu com atenção os comentários de Mirtes sobre o dia nacional da França, era 14 de julho e ela havia esquecido disso. A cidade estaria toda tomada pela população para assistir às cerimônias com a presença das mais altas autoridades. Laurent não tirava os olhos de Sarah e para fugir daquele olhar atraente, ela resolveu ir ao centro para ver de perto as festividades. Não adiantaram as recomendações de Mirtes para que eles assistissem em casa pela TV. Ela estava resolvida. Como resistir durante o dia todo àquele desejo crescente de entregar-se aos carinhos do seu anfitrião? E com o argumento de que queria matar a saudade dos desfiles cívicos de sua Vitória de Santo Antão, tão distante e ao mesmo tempo tão presente em seus pensamentos, Sarah descartou a companhia de Laurent que se prontificava a lhe servir de guia.

Na estação Champs-Élysées-Clemenceau, toda enfeitada e feericamente iluminada, a multidão se afunilava no portão de saída a fim de chegar à avenida onde dentro de alguns momentos começaria o desfile militar. Alguns metros à sua frente, conseguiu identificar Mohamed, seu colega na turma de desenho artístico, marroquino, caladão, muitas vezes surpreendido a observar-lhe com olhos cobiçosos, mas que apesar desse incômodo, se tornara seu companheiro de mesa na hora do almoço. Certa vez ele lhe perguntara, por que ela usava aquela cruz ao pescoço, se nunca tinha ouvido falar do profeta Maomé e das maravilhas narradas no corão... Sarah, foi despertada desses pensamentos quando uma policial, com largo sorriso no rosto disse-lhe para usar a outra escada rolante que acabara de ser ligada. Lá no patamar superior, Mohamed acenava para que ela fosse ter com ele na praça em frente à estação.  

Encerramento – Socorro Beltrão.

Apesar do céu cinza e da noite mal dormida, as cores das vestes, a alegria dos transeuntes, o barulho e as manifestações próprias do dia festivo compensavam tudo. Sarah procurou esquecer os problemas e foi ter com Mohamed. Ele ficou feliz com sua presença e o demonstrou até com uma certa efusividade. Ela se sentiu bem-vinda. Ficaram juntos por toda a manhã, passearam de mãos dadas, o que Mohamed alegou ser para não se perderem. Ela gostou daquele gesto de proteção. Conversaram sobre seus países, sua gente, seus gostos. Ele notou o amor à família no brilho dos olhos dela. Passou a admirá-la além da beleza física. Ela sentiu a tristeza do rapaz quando se referiu à sua família dispersa. Logo percebeu que ele não era ligado aos seus. Ficou triste por ele.  Bem mais tarde, sentados na praça de La Concorde, tendo a linda paisagem de fundo do Museu de Louvre, ele a segurou de mansinho pelos ombros, vagarosamente beijou seus lábios, num gesto de tanto enlevo que a envolveu, mente e alma. Sarah ficou pensativa. Que diferença do atrevimento de Laurent... dentro de sua própria casa. Desde aquela noite passada percebeu nele um aproveitador. Todo encanto sumiu. Nunca admitiria uma traição. Houve uma atração recíproca? Houve. Mas daí a uma traição era uma distância imensa. Voltou-se para Mohamed e se perdeu em seus olhos escuros, profundos e enigmáticos sem se dar conta de que foi ela a tomar a iniciativa de um segundo e demorado beijo, repleto de emoção e de bom presságio.

Segundo conto produzido por escritores GANDAVOS – Contadores de Histórias, Socorro Beltrão, José Bueno Lima, Cléa Magnani e Alberto Vasconcelos.


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

TÍTULO: VERDADE ESCONDIDA

 



(Primeira parte- Marina Alves)

Sob o sol do meio dia, Amâncio subia a estradinha que levava ao topo da serra. Ao calor escaldante, o velho ofegava, alquebrado pelo peso da idade. Ia fazer oitenta anos no fim de dezembro. E era nisso que vinha pensando na volta da casa de compadre Honório, dono do pequeno e único empório do povoado de Santo Amaro.

Amâncio se sentia cansado. Depois de anos a fio trabalhando nas lavouras de fumo da Fazenda Primavera, de propriedade de Dr. Antero, o homem vinha pensando que merecia um descanso. A casinha ali no alto da serra, o pedacinho de terra cercado de verde, o corguinho de água limpa, os bichos de terreiro, os porcos na engorda, as poucas cabeças de gado de leite e os roçadinhos que tocava, lhes davam o que precisava para viver. Era isso: sentia que estava no limite de suas forças e algum dos filhos haveria de tomar conta das coisas dali por diante.

O velho seguia pensando que tinha mais do que podia ter desejado. Sim! Ia chamar os quatro filhos casados – dois homens e duas mulheres, que moravam em casas ali por perto e explicar tudo que andava pensando. Também era chegada a hora de contar a eles algumas coisas que nunca tinha tido coragem...uma dessas coisas era sobre a mãe que nem chegaram a conhecer direito... eram todos miudinhos ainda quando tudo aconteceu. Ah, estava mais que na hora. A vida cada vez mais curta...

Ia tomar coragem, contar tudo, tudinho sobre Madalena e outras coisas que pertenciam a um passado nunca enterrado de verdade...

(Segunda parte: Maria Mineira)

Já em casa, ainda ofegante pela longa caminhada, Amâncio abriu o antigo armário de madeira onde a finada esposa guardava os pertences de mais consideração. Espalhou em cima da cama, um punhado de retratos antigos. Contemplou a si mesmo, jovem e forte, de braço dado com Justina, mulher bonita, semblante alegre e olhos cheios de esperança. Ela segurava nos braços, Madalena, a filhinha do casal, bem na época que vieram trabalhar nas lavouras de fumo, quando a menina era só cisquinho de gente.

O velho suspirou, sentindo descer grossas lágrimas no rosto enrugado. Sozinho nas suas lembranças, sentia-se aniquilado pelo desgosto que há tantos anos escondia no fundo do peito sem deixar transparecer. Antes de guardar, beijou o retrato e lembrou-se mais uma vez da promessa feita no leito de morte da esposa. Iria esclarecer aquela situação, a qual, na verdade, só quem tinha conhecimento era o compadre Honório e o famigerado Dr. Antero.

Madalena fora criada ali, os pais se desdobraram para dar à filha, o melhor que podiam, a menina aprendeu a ler e escrever na escola da fazenda. Cresceu bonita, sem riqueza nem luxo, mas com muito amor e cuidado. Já contava com dezesseis anos, quando Joaquim, filho de Antero veio da capital visitar o pai. O casal ouviu preocupado quando Madalena falou do seu amor. Contrariados, conhecendo a fama do moço, tentaram em vão, dissuadir a filha, com argumentos de que o rapaz da cidade não servia para ela e além de tudo, ainda era muito jovem, não conhecia a vida. Sabendo que os pais não aprovariam o romance, semanas depois, Joaquim e Madalena fugiram juntos. A filha fizera sua escolha, deixou-a seguir seu destino.

Passados menos de três anos, após a fuga, numa noite de chuva e ventania, Antero mandou chamar o casal de empregados na sede da fazenda. O resultado daquela visita foi que Amâncio e Justina voltaram para sua casinha totalmente atordoados, porém cientes da imensa responsabilidade que teriam dali por diante. Ela trazia uma cesta com as gêmeas recém-nascidas e ele carregando nos braços, dois menininhos assustados. Dentro da calça surrada, havia só um envelope.

(Terceira parte:  Alberto Vasconcelos)

Ainda estava bem viva dentro da memória de Amâncio a conversa que teve com o Dr. Antero naquela noite tempestuosa que o tempo não apagou, a maneira incisiva com que ele fora alertado de que aquelas crianças, desnutridas e maltrapilhas, jamais deveriam saber a sua origem, sob pena dele ser entregue às autoridades para responder por todos os assassinatos que cometera a mando do Dr. Antero e dos seus compadres. Sim. O passado de Amâncio o condenava, fora matador de aluguel até que seus olhos não mais permitiram fazer os serviços que interessavam aos poderosos que tinham sempre álibis irrefutáveis para deixa-lo bem longe dos locais das dezenas de assassinatos.

Registros novos foram forjados onde constavam que as crianças eram filhas legítimas de Amâncio e Justina, para que fosse apagada toda e qualquer vinculação com a família do Dr. Antero e com a sua imensa fortuna. Joaquim voltou para a fazenda, estava bem mais velho, mas quem visse os meninos saberia imediatamente que eram seus filhos, pois eram a cópia fiel do pai. Mesmos gestos, mesma maneira de falar, a única diferença eram as palavras, pois Joaquim pelos estudos e pela vivência na capital, tinha vocabulário diferenciado do mundinho da fazenda.

Amâncio e Joaquim tinham se encontrado no Empório Boa Compra, a bodega do compadre Honório, conversaram como velhos conhecidos e quando ele saiu, compadre Honório alertou que já era tempo de botar em pratos limpos toda aquela trama para que os meninos herdassem o que era direito deles, por serem netos do velho fazendeiro. A maioria dos assassinatos praticados já estavam prescritos e mesmo se ainda houvesse algum, a idade avançada de Amâncio seria levada em consideração na hora do julgamento que, se houvesse, iria envolver muita gente graúda, mas agora a situação teria que ser esclarecida de uma vez por todas. Era chegada a hora de contar tudo...

(Quarta parte: João Batista Stabile)

Como era de costume toda tarde; Amâncio separou os bezerros das vacas de leite, para ordenhá-las no outro dia bem cedinho, tratou os porcos e completou os coxos de água, jogou milho no terreiro para as galinhas. Depois sentou num toco que tinha embaixo da figueira a porta da cozinha, fazendo um cigarro de palha, olhava para o horizonte o sol que já se escondia por traz da serra, seus últimos raios luminosos tingiam o céu de vermelho, como se alguém tivesse jogado de qualquer jeito uma lata de tinta.

Nessas horas que ele mais pensava na sua Justina. Ah, se ela tivesse ali saberia tomar a decisão certa. Mulher de fibra, inteligente e decidida. Mas Deus não quis e a poupou de mais esse sofrimento, deixando-o sozinho com esse segredo terrível.

 Amâncio pensava nos conselhos que dera compadre Honório, dizendo que ele dificilmente iria a julgamento e mesmo que fosse teria sua sentença abrandada pela idade e também aquilo pouco importava para ele agora.

Pensava na promessa feita à finada, no seu leito de morte, que um dia quando as crianças tivessem formadas, contaria todinha a verdade, sem esconder nada. Mas ao mesmo tempo pensava na ameaça de Dr. Antero, naquela noite de chuva e ventania que trouxe as crianças para casa. Pensava ainda no fim que tivera sua filha Madalena, lá na capital, que morreu num acidente doméstico muito mal explicado.

Não temia a justiça, muito menos a morte, que estava acostumado a lidar com ela desde a sua juventude, temia sim pelo futuro dos seus filhos, que na verdade eram netos e os filhos deles. Dr. Antero mesmo idoso ainda era o chefe político da cidade e era um homem frio e perigoso. Vindo dele, se poderia esperar o pior.

Perdido em pensamento nem sentiu a hora passar, só se deu conta que já era tarde da noite, quando sentiu uma aragem fria que vinha da mata. Entrou na cozinha, lavou os pés numa bacia de alumínio, comeu um pouco de feijão com carne seca que estava em cima do fogão à lenha e foi se deitar.

Não conseguia pegar no sono, quando os galos já cantavam, vencido pelo cansaço, acabou adormecendo...

(Encerramento: Marina Alves)

Sentado no alpendre da casa de Honório, Amâncio acabava de relatar ao compadre as decisões que tinha tomado. Cedo ainda, tinha ido atrás de Antonico e pedido que levasse o recado aos irmãos: queria todo mundo no almoço de domingo! Que não faltasse ninguém! Tinha para si que de domingo o segredo não passava.

Honório escutava atento as palavras do compadre.  Abriu a carreira de dentes de ouro num sorriso de satisfação:

- Grazadeus! - exclamou - vai se livrar do peso, minha Virge Santa!

- Vou! - disse Amâncio - Vou seguir os seus conselhos, compadre! E seja o que Deus quiser!

Depois de uma caneca d'água, Amâncio tomou o rumo de casa. Com passos lentos, o velho subia a estradinha que levava ao topo da serra.  Ia distraído. Tão distraído que nem reparou no vulto escondido no mato: o tiro veio certeiro e o atingiu em cheio no meio do peito. Cambaleou, os joelhos se dobraram sobre a poça vermelha que se desenhou na poeira.  Estava morto!

Atrás da densa folhagem marginal, o capataz de Joaquim esporeou o cavalo e partiu a galope rumo ao povoado. No embornal de algodão, a mando do patrão, levava um bolo de notas graúdas que deveria passar às mãos de Honório, como pagamento de certa revelação...

Duas semanas após o fatídico acontecimento, Antonico voltou para fechar de vez a casa do pai. Já de saída, o rapaz avistou o paiol aberto e voltou para cerrar a portinhola. Foi quando seus olhos caíram sobre a antiga cabaça que sempre estivera pendurada rente à cumeeira. Puxou o objeto já enegrecido e ressequido pelo tempo, que num estalo seco se dissolveu entre seus dedos. Em meio ao pó, um maço de papel amarelado e carcomido. Antigas anotações! Escritos preciosos rabiscados por Justina, que valiam uma fortuna! Antonico apertou os papéis contra o peito e duas lágrimas grossas lhe escorreram pelo rosto: o castigo podia até vir a cavalo, mas a verdade tinha vindo escondida numa cabaça...


Autores:

MARINA ALVES, MARIA MINEIRA, ALBERTO VASCONCELOS E JOÃO BATISTA STABILE


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

TÍTULO: CARTAS

 



Parte 1 – Alberto Vasconcelos

Quando a Professora Verônica chegou do colégio Sagrado Coração, aonde lecionava História Universal viu a carta endereçada a ela com o timbre da Universidade de Salamanca no envelope pardo, semicoberto de selos. Com as mãos trêmulas pela emoção, procurou a faquinha de abrir correspondências que deveria estar em alguma daquelas muitas gavetas da escrivaninha, sua companheira de intermináveis horas de estudos e de redação dos textos da monografia, escrita em língua espanhola com a ajuda do seu noivo Bernardo, o boliviano seu amigo desde as primeiras séries do curso ginasial, pois apesar de ser fluente na conversação, sentia muita dificuldade com a terrível gramática e, principalmente, com a conjugação dos verbos.

A carta era simples, direta e objetiva, Verônica deveria se apresentar à Reitoria da instituição no primeiro dia de agosto quando se iniciariam as atividades da Universidade e as aulas do seu doutorado. Era a concretização do sonho acalentado desde sempre. Finalmente o dinheiro amealhado durante anos seria utilizado. Apesar da carta dizer que lhe fora concedida bolsa integral, nunca se sabe os imprevistos que podem (e devem) ocorrer numa viagem tão longa, para uma terra tão distante. Outro continente, outro país, outra cultura, outros hábitos inclusive alimentares. Agora que se confirmara o aceite da Universidade, um receio crescente se apoderou dela. Ainda hoje teria que providenciar o passaporte, a passagem...

Mercedes, a mãe de Verônica, além do tipo físico dos pantaneiros, havia herdado toda maneira de ser dos seus ancestrais caboclos. Poucas palavras, reações comedidas e a preocupação constante de que a qualquer momento, Bernardo, o noivo da filha iria envolve-la em situação embaraçosa. A contragosto, concordara com o compromisso entre sua filha e aquele rapaz de beleza característica do povo quéchua e essa preocupação tornou-se quase palpável quando ao entrar na sala, viu a filha junto à janela com a carta na mão.

Parte 2 - Socorro Beltrão

Mercedes entrou na sala, jogou o chapéu no sofá, desamarrou a cinta de tecido colorido que lhe prendia o facão, sentou-se e tirou as botas, remexeu os dedos dos pés e foi juntar-se a filha, queria saber que envelope era aquele que a filha sustentava como se fosse de ouro. Verônica lhe contou que finalmente fora aceita na Universidade da Espanha, finalmente iria para a Espanha, realizaria seu sonho. A senhora Mercedes meneou a cabeça. Acostumada a dureza da vida nada disse. Ficou um tempo pensativa, sua filhinha ia partir, atravessar o marzão, que ela só conhecia por fotografias, morar noutras terras, conhecer outas gente. Fazer o quê? Que fosse para o seu bem. Os filhos crescem, os pais os criam para o mundo. Assim é a vida, ela ia voltar.

Não deu uma palavra, apenas deu umas leves tapinhas nas costas de Verônica. Seguiu para cozinha, era hora de preparar a janta, o marido e os filhos não tardariam para chegar e esfomeados. Ato continuo começou a preparar o prato do dia, peixe à escabeche, arroz e farofa.

Verônica ao se ver novamente sozinha ficou a imaginar como seria sua vida. Sabia das sérias mudanças que iria enfrentar. Tinha que espantar as incertezas. Ia dar tudo certo.

Planejou essa viagem cuidadosamente. Sua gente precisava de alguém qualificado para registrar a sua história. Era esse seu objetivo, escrever a história do pantaneiro, deixar nas páginas de um livro, seus costumes, suas origens no torrão brasileiro. Seria a futura Doutora em história Universal. Corumbá me aguarde, pensou.

Ao entardecer os homens voltaram da lida. Logo depois chega o Bernardo para noivar. Só agora, quando todos estavam reunidos no terreiro da casa, ao redor do fogo, ela conta a novidade. Bernardo levantou-se abruptamente, deixando cair a cadeira, não gostou da notícia. Embora soubesse dos planos da noiva, achava que ela não conseguiria a tal bolsa de estudo, que eles em breve casariam e tudo ficaria como estava...

Parte 3 – José Bueno Lima

Transtornado, Bernardo dirigiu-se para a portão de saída, deixando todos surpresos com sua reação. Sendo sua origem indígena, era difícil se ver contrariado. Os quéchuas são a segunda maior população indígena da Bolívia, só perdendo para os aymarás. Sua língua é uma das três oficiais de seu país. Isso explica o modo violento de Bernardo, cujo sentimento de orgulho é próprio da raça.

Imediatamente, Verônica foi ao seu encontro, já no portão da casa. Pediu a Bernardo calma! Que ele era sabedor de o quanto ela aguardava essa chamada. Que era o seu futuro. Ser paciente, logo estaria de volta. Confiasse nela. Ele nem quis ouvir. Subiu em seu carro e se foi.

Enquanto isso, lá no terreiro, a família conversava sobre o episódio. Na realidade, o noivado de Verônica não era bem visto. Mercedes e a família, sem mesmo nada contarem, nunca foram a favor desse compromisso. Não se tratava do fato de Bernardo ser de descendência indígena. Eles queriam ver sua Verônica casada com um médico, um engenheiro, e não com um simples funcionário público, ligado ao governo da Bolívia. Já por ocasião dos tempos de namoro, e no dia do noivado, quando tiveram oportunidade de conhecer os pais de Bernardo, em um jantar a eles oferecido, sentiram que a moça não estava escolhendo seu companheiro ideal. O comportamento deles à mesa, a conversa, abrutalhados, sem a mínima noção de como usar os talheres, falando com a boca cheia, contrariou demais a todos.

Então, Mercedes deixou o tempo passar.

Verônica, a partir daí, passou a se dedicar com a preparação de sua viagem para Salamanca, já que o prazo era exíguo para se apresentar na Universidade. As orientações contidas na carta, eram muitas, e rígidas, havia necessidade de pressa. Um aspecto a deixá-la despreocupada, estava no fato de ter uma amiga que residia na cidade espanhola há um bom tempo, e iria recepcioná-la. Não se sentiria perdida.

Bernardo passou para um segundo plano.

Parte 4 – Suzo Bianco

Eis então que o fatídico dia chegou, e com ele uma carta. Dona Mercedes a entregou para Verônica, que ao ler o nome de Bernardo no envelope estremeceu-se inteira, foi procurar apoio no encosto da janela do seu quarto. Dentro do envelope, uma única folha destacada de um caderno escolar. Lia-se num português cuidadoso, demonstrava capricho por parte dele:

“Olá, minha verdadeiramente amada Verônica. Me perdoe pelo que fiz na última vez que nos vimos, sei que hoje você partirá e provavelmente nunca mais a verei. Queria que, com essa carta, soubesse que ainda a amo, embora meu orgulho me impedisse de dizer isso antes. Mas precisa entender meu lado quanto aquela minha atitude, acho que te devo isso. Vou ser direto para não roubar seu tempo. Desde que nos conhecemos sua família infelizmente pareceu não gostar de mim, muito preconceito. Me viam como uma ‘raça’ diferente, grosso, violento por conta de meu jeito de falar ou da minha etnia e cultura. Me viam como fracassado por trabalhar como funcionário público, ouvia eles comentarem. E não via você reagir, achava que no fundo pensava o mesmo, e minha confiança foi diminuindo com o tempo. Meus pais e eu sempre fomos honestos e trabalhadores como vocês, não entendi quando falou para todo mundo com felicidade que iria para longe agradar os desejos da sua família, sem nada me dizer antes. Aquilo partiu meu coração. Vi que não gostava de mim como eu a desejava. Eu pretendia ser feliz com você e nossos futuros filhos. Mas hoje estou na Bolívia, sem filhos, vivendo bem, seria perfeito não fosse a falta que você me faz. Mesmo assim, te desejo toda a sorte e felicidade desse mundo nessa nova etapa da sua vida, daquele que ainda te ama muito, Bernardo”  

Ela chorou ao terminar de ler a carta.

Verônica já estava com a reserva no banco, as passagens compradas, e tudo o mais. Ela só não contava com o amor que ainda tinha pelo Bernardo, esse, por euforia, ela quase esqueceu...  

Parte 5  FINAL-  Cléa Magnani

Verônica estava eufórica, mas receber aquela carta tão desalentada, a deixou preocupada. Será que Bernardo não viria nem se despedir dela?

As horas passavam rapidamente e pouco antes de deixarem a casa de Verônica rumo ao aeroporto, Bernardo chegou de surpresa. Parecia estar alegre e trazia um grande buquê de rosas brancas, que ofereceu à jovem enquanto a beijava ardentemente. Recuperando o fôlego, Verônica sorriu muito feliz, e disse

- Bernardo! Se você continuar a me beijar assim, eu acabarei me arrependendo de partir...

O rapaz a olhou no fundo dos olhos e disse:

- É para que nunca você se esqueça de mim, minha Verônica.

- Mas é claro que jamais o esquecerei, meu amor! – ela respondeu.

Bernardo a abraçou longamente, e pediu que dessem uma caminhada até a beira do rio, onde haviam trocado seu primeiro beijo, e que ela levasse as rosas, pois queria guardar a sua imagem para sempre, linda como ela estava naquele dia.

Saíram caminhando, os dois enlaçados e rindo muito, se recordando de momentos do seu romance.

Na beira do rio, onde grandes árvores de Angico sombreavam a vegetação típica e florida formando um pequeno jardim natural, Bernardo pediu que ela se sentasse na relva, e se deitasse. Começou a colocar as rosas sobre o peito da jovem, e contornando seu rosto.  Muito feliz Verônica sorria e Bernardo nunca a vira assim tão linda. Sentou-se ao seu lado a admirando com muita ternura; curvou-se sobre ela, ajeitou uma mecha de cabelo que lhe cobria a testa, e a beijou apaixonadamente, sentindo as lágrimas lhe descerem pela face, retirou do bolso uma Mauser que encostou no lado esquerdo do corpo da jovem, que envolta pelo seu carinho não percebeu a morte se aproximando. A bala atravessou seu coração e o seu seio esquerdo. O sangue jorrou sobre as rosas brancas. Os olhos de Verônica se fecharam lentamente sob as lágrimas de Bernardo, que lhe pedia perdão num choro convulsivo. Encostando a arma em sua própria cabeça o rapaz atirou, caindo sobre o corpo inerte do grande amor de sua vida...


Autores: Alberto Vasconcelos; Socorro Beltrão; José Bueno Lima, Suzo Bianco  e Cléa Magnani


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

TÍTULO: O LEGADO DE VOVÔ



[ALICE GOMES]

Aprendi a nadar com ele, num riozinho do seu sítio, para onde eu ia em todas as minhas férias. Com ele perdi muitas das minhas fobias. De nadar, por exemplo, porque uma vez quase me afoguei na piscina e pensava que nunca mais entraria na água. Ele me fez entrar, abraçado a ele, e me admirei por ter sido tão fácil!  Nunca mais esquecerei o que senti, perdendo meu medo e aprendendo sobre amor e paciência. Também com ele aprendi a cavalgar, numa égua mansinha que havia por lá. Ele, atrás de mim, segurando as rédeas da égua e a dos meus medos.

Querido avozinho, quantos momentos maravilhosos passei ao  lado dele! Quantos conselhos preciosos aprendi com ele! E ele não seguiu o único conselho que lhe dei. Eu lhe disse que seria perigoso para sua idade, mas ele insistiu, e deu no que deu...

[Maria Mineira]

Não tem como falar de vovô, sem  lembrar daquele quartinho onde guardava  sua antiga tralha de peão boiadeiro. Seu berrante, seu arreio, as esporas, a capa, o pelego...Aquele era com certeza, seu bem mais precioso, dizia ele, depois de vovó Doralice e eu, seu único neto.

Às vezes, no meio de alguma história, ele  ria e deixava a esposa toda sem jeito, ao lembrar a época em que se conheceram. Foi quando comandou uma Comitiva na Região do Pantanal, acabou roubando a filha do fazendeiro e  casando-se com ela.

Doralice, minha vó, contou-me que na juventude, vovô era um boiadeiro afamado. Seu nome corria nos estados de  Minas, Goiás e Mato Grosso. Era solicitado para todas as  festas regionais. As moças suspiravam por ele, e os homens o invejavam. Além de saber como ninguém, lidar com o gado, ele emocionava  a todos, quando cantava e tocava sua viola...

[Cristhian Dias]

Naqueles dias, haveria uma grande festa em comemoração aos cento e sessenta anos do Vilarejo dos Anjos. Local onde vivia um povo simples, como já não se vê. Eram tão religiosos que antes do festejo, reuniam-se para rezar na capela da Virgem dos Pobres, pedindo prosperidade nos negócios, salvação para os falecidos e bênçãos para as famílias.

Logo após o estouro dos foguetes, o povo, fatigado do serviço, após rezar na capela, saia para festejar o merecido descanso. Aquela festa duraria uma semana. Foi nessa época, que me arrependi por ter acompanhado vovô pelas estradas de terra até o vilarejo.

Em um determinado momento, passou um carro de som anunciando a programação da Festa. Enquanto eu reclamava da poeira que o carro fez subir, vovô ouvia atentamente, assim como uma criança fixando o olhar em seus doces, as palavras do homem que anunciava.

Pouco me lembro das palavras que o maldito divulgava, mas  o pouco que recordo hei de contar:

Venham todos para o Vilarejo dos Anjos! Venham rapazes, moças, crianças, festejar o aniversário de nossa vila! De segunda à sexta-feira, contaremos com um baile para os casais! Ah! E durante os primeiros cinco dias, haverá inscrições para o Rodeio que ficará na história!!! Valendo um prêmio de [...]

Confesso que não me lembro o valor do prêmio, talvez seja porque meu avô não fazia questão da premiação, mas sim daquela desalmada tentação. Ele ficou ansioso, sei que as batidas de seu coração pulsaram mais fortes, no instante em que ouviu a palavra “Rodeio” .

Perguntei em tom irônico:

O senhor ficou doido?!

Mesmo sendo ainda menino, sabia que aquilo não convinha para vovô, pois ele já era um idoso!

Só pode! Já não basta a falação de vovó, o senhor inventa essas ideias de rodeio?! Vô, o senhor já passou  dos sessenta, por que  não procura  fazer aquilo que os  de sua idade fazem? Vá jogar truco, rezar terço, mas vê se não coloca essas ideias de rodeio na cabeça!

Naquele dia, meu avô deve ter se assustado com a firmeza de um moleque ao se dirigir a ele. Ficou em silêncio, mas este silenciar não era sinal bom, pois quando ele ficava calado, já podia se imaginar: “Nosso velho vai aprontar...”

[Helena Souza]

E foi o que o velho fez. Ninguém percebeu quando ele saiu cumprimentando a todos os boiadeiros, aos peões, ao padre que tinha acabado de fazer a oração que daria início à festa. Até hoje eu não sei o que um padre faz nesse tipo de evento, onde se maltratam os animais.

Eu nunca gostei de assistir a peões subindo em bois, esporar os coitados e ainda sair sorrindo, depois de levar umas chifradas....nunca, nunca pude entender. Mas meu avô pertencia a esse tipo de pessoas. Ele vibrava a cada pulo dos pobres animais e a cada peão que caía no chão ou que se sustentava além dos minutos necessários.

Mal sabia ele que naquele dia, o peão jogado para o lado seria ele.  Meu avô havia ganhado uma cortesia para assistir ao rodeio dentro da arena. E  quando o terceiro boi voltou enfurecido e aos pulos, depois de levar várias esporadas, quem estava no caminho? Vovô Queiroz.....e ele nunca mais foi o mesmo depois daquela chifrada.

Nunca mais andou e a tristeza consumiu seus dias.  Eu pedi tanto a ele para não ficar lá dentro, mas o velho, embirrado que era,  não me ouviu. Não ouviu o único conselho que lhe dei...

[Epílogo: Alice Gomes]

Nunca mais pôde subir em cavalos, sua grande paixão... Como se recusava a usar a cadeira de rodas que papai lhe comprara, passava o dia deitado na cama, olhos perdidos no teto. Às vezes, papai insistia que ele participasse das refeições da família e o carregava no colo até a cozinha. Depois, sentava-o à janela, onde permanecia em silêncio, observando as revoadas de passarinhos, na imensa árvore que havia na frente da casa e que dava vista  para a curva do riacho, pouco mais adiante. Sabe Deus em que pensava meu avozinho nesses momentos...

Alguns meses se arrastaram, para ele e para mim, que o observava, consternado, me sentindo impotente, sem saber como lhe devolver ao menos o brilho do olhar. Seus músculos foram se atrofiando, seu apetite diminuindo a cada dia e, por fim, uma depressão severa roubou-lhe definitivamente a vontade de viver.

Quando partiu, eu era ainda criança, porém, essas lembranças doloridas jamais me abandonaram. Hoje, percebo que foi por ele que contrariei a vontade de papai, que sonhava para mim, uma carreira completamente diferente, de prestígio e grandes posses financeiras. Instintivamente, optei pela Fisioterapia, com especialização em Watsu (shiatsu aquático) e Equoterapia, ambas direcionadas aos sequelados por acidente ou doença.

Não raro, ouço relatos emocionados de familiares dos meus pacientes, pela melhora muscular e, principalmente, pela sensação de liberdade que a água ou os cavalos lhes resgatam. Por coincidência (ou não) os dois medos que ele me ajudou a perder. 

Autores: 1 - Alice Gomes; 2 - Maria Mineira; 3 - Chisthian Dias e 4 - Helena Souza.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

TEXTO COLETIVO: DESTINO X ESCOLHAS

 


[ANA ROSA JUNQUEIRA] A bela Ana Maria era filha única de Coronel Julião e Sinhá Marcília. Cresceu  mergulhando nas águas do Rio Lavrinha, que corria nos fundos do quintal da sua casa. Seu sonho era estudar na capital e ser professora. No entanto, a capital era muito longe dos olhos atentos do pai. O recurso foi  enviá-la para estudos no Convento das Freiras,  localizado não muito longe  dali.

Ana retornou antes dos dezesseis anos completos. O pai cortou o mal pela raiz, pois não agradou da ideia de ver a filha querendo prestar os votos de santidade como freira.  Coronel Julião, precavido como sempre, tratou de construir uma escola ali mesmo na fazenda para cumprir os gostos da filha. Aproveitou também para apalavrar sua mão para o jovem  Alonso,  filho caçula de um fazendeiro vizinho...

[GLÓRIA TANCREDI] O coronel Julião como verdadeiro patriarca sempre deixou muito claro o seu zelo e preocupação com sua família, principalmente no que dizia respeito à sua filha Ana Maria. No entanto, o autoritarismo revelado do pai, influenciava negativamente os sonhos e perspectivas da jovem, que apesar de morar no interior, sempre demonstrou grande curiosidade com relação à “cidade grande”, a liberdade, o poder da mulher diante da sociedade.

A transmissão de conhecimento e o empoderamento feminino sempre estiveram em seus pensamentos, povoando os seus mais grandiosos sonhos, mesmo que fossem de encontro com seu pai. Para o Coronel, o papel da mulher seria ser boa dona de casa, se tornar uma boa mãe e dedicar-se única e exclusivamente ao marido e seus filhos.

Não obstante, a jovem por não se convencer de tal conduta começou a ministrar aulas para meninas, moradoras do interior que seu pai comandava, aguçando ainda mais sua vocação para professora e os ideais, nos  quais acreditava. Mas sabia que estar ali não seria suficiente, era preciso mais. Ana sentia que precisava aprofundar seus conhecimentos em uma faculdade. Assim, prontamente pensou em fazer um curso superior na cidade. Compartilhando a ideia com sua mãe, que sempre lutou para manter a filha na escola.

Sinhá Marcília, mãe de Ana, ficou apavorada ao saber que a filha afrontaria as ideias do Coronel que já prometera sua mão em casamento ao filho de um grande fazendeiro da região. Marcília, além de pensar que o marido poderia não ver com bons olhos a ideia da filha, ainda não saberia se Alonso estaria disposto a esperar o tempo preciso para que Ana se formasse antes de cumprir a promessa matrimonial... 

[LÍVIA HOLIER] Mas a promessa matrimonial mal importava para Ana Maria, ela estava decidida que iria para a cidade grande e falaria com seu pai nesse mesmo dia. Não importava o que ele dissesse, ela seguiria seu sonho.

Chegada a hora do jantar, todos se juntaram à mesa para saborear a deliciosa comida de Sinhá Marcília. Ana estava inquieta, não parava de balançar sua perna e mal tocava no prato. O Coronel Julião percebeu a inquietação de sua filha e a questionou. Ela tomou um gole de água e começou a falar sobre os seus planos de se mudar para a cidade e fazer um curso superior.  O casamento não estava na sua lista de prioridades naquele momento.

O silêncio tomou conta da sala. Marcília estava com o coração disparado, com medo da reação do marido. Ana Maria se sentia aliviada e decidida sobre o assunto com seu pai. O Coronel ficou parado como uma estátua, com o olhar gélido, pensando no que tinha acabado de ouvir. Mas o que os pais não sabiam era que naquela noite, um grande segredo de Ana seria revelado...

Julião se levantou e foi em direção a Ana, que começou a andar para trás, na tentativa de se desviar do pai. Até que ele a cercou e perguntou o motivo daquilo tudo. Se era para envergonhá-lo ou só para enganá-los, já que sua mão já estava prometida a Alonso.

Ana Maria se sentiu pressionada e forçada contar a verdade, mas disse que só falaria com a mãe sobre o assunto. Marcília e a filha foram para o quarto de visitas, próximo a copa onde estavam, mesmo assim, o Coronel não conseguiu ouvir a conversa das duas.

Ana Maria começou a chorar, não sabia o que aconteceria após contar seu segredo à mãe, pois provavelmente ela o revelaria ao marido. Soluçando, após muito chorar, contou tudo o que a afligia.

Quando estava no Convento de Freiras, conheceu Regina, uma linda noviça de olhos castanhos e cabelos ruivos, pela  qual se apaixonou, assim que a viu. Ambas eram muito unidas, mas as freiras não admitiam tais modos, então  transferiram Regina para um convento da capital, forçando Ana Maria a fazer os votos de castidade,  exatamente na época em que o pai impediu, levando-a para a fazenda.

Desde então, além de desejar concluir seus estudos, tinha esperanças de reencontrar Regina e  ficarem juntas para sempre. Sua mãe ficou assustada e a mesmo tempo  emocionada com a história da filha e afirmou que estaria sempre ao seu lado e a ajudaria ir para a capital.

De repente, a porta do quarto se abre...

[GERSON DE CARVALHO SILVA] O Coronel entrou no quarto falando alto e de forma autoritária informando que no dia seguinte, marcara o jantar com Alonso e sua família, para formalizar o noivado.

Ana resolveu conseguir algum tempo e pediu um adiamento, alegando haver necessidade de preparativos. O pai aceitou os argumentos, dizendo que não poderia passar de um mês.

Regina, precisava encontrá-la. Enviou um telegrama. A resposta não tardou, ela  viria em alguns dias. A amiga noviça era muito esperta e ao chegar, disse ter vindo para participar do noivado da amiga, mas a  ideia não era bem essa. Tentaria livrar Ana do problema imediato. Informou-se sobre o pretendente, Alonso, e resolveu conhecê-lo.

Regina abandonara a vida religiosa e resolveu continuar sua vida. Recebeu uma pequena herança do falecido pai e tornou-se proprietária de um restaurante, o qual possuía um andar superior que funcionava somente à noite. Ali havia moças, que além de garçonetes, recebiam rapazes dispostos a gastar.

Regina foi até a fazenda vizinha e encontrou o pretendente de Ana.

 — Alonso, você por aqui?

[EPÍLOGO ANA ROSA JUNQUEIRA] Assustado, Alonso não sabia o que dizer à Regina. A última coisa que imaginaria era vê-la na fazenda de seu pai.

 Sou eu quem pergunta, nunca lhe dei meu endereço aqui do interior.

  Eu não vim por sua causa, vim conhecer o noivo de uma amiga e por ironia do destino esse noivo é você! Então a moça rica que daríamos o golpe é nada menos que Ana Maria?

Nesse momento, Ana que estava ouvindo a conversa do lado de fora da casa entra com a aparência que quem recebeu uma punhalada pelas costas. Nem tanto por Alonso, que mal conhecia, mas nunca esperaria isso de Regina...

— Aninha, não me disse que viria também, posso te explicar! Tudo que eu quero  é estar perto de você. Eu não podia saber que era ele — disse Regina tentando se desvencilhar da enrascada.

— Ana Maria, vocês de conhecem de onde? Saiba que a ideia foi da Regina! Idealizou meu casamento com uma fazendeira para saldarmos nossas dívidas de jogo, pois estamos sendo perseguidos.

— Calem-se, os dois! Não quero ouvir mais nada!

Ana Maria saiu às pressas daquele lugar que lhe fazia muito mal. Queria se livrar daqueles dois, nunca mais vê-los. Pegou seu cavalo e a galope sumiu por aqueles campos sem rumo certo...

Demorou algum tempo, mas Ana Maria já não era mais a menina frágil e ingênua.  Entendeu que o melhor era ser  dona de si, e lutar  pelas coisas que acreditava. Aprendeu a se   amar em primeiro lugar  e nunca deixar sua felicidade depender de ninguém. Correu atrás dos seus sonhos, seguiu a vida acadêmica e hoje segue ajudando sempre outras pessoas a encontrarem seu caminho.


GRUPO 06:

Autores: Ana Rosa Junqueira; Glória Tancredi; Lívia Holier; e Gerson de Carvalho Silva.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

TEXTO COLETIVO: “DE VOLTA AO PASSADO”


 

[CELÊDIAN] Não foi nada fácil revisitar aquele lugar, passados mais de dois anos e confesso, me faltaram coragem e força, mas eu não poderia adiar mais. Postei-me de frente às duas lápides, que me pareciam frias e indiferentes àquelas histórias ali enterradas. Não sei quanto tempo permaneci em transe, estático. Como num replay de um filme, revivi os momentos felizes que junto à minha esposa Anna e à minha filha Polianna, foram os melhores anos de minha vida. Cheguei a sorrir ao senti-las assim tão perto de mim de novo.

Uma aragem gélida e o farfalhar das folhas secas me fizeram recobrar a lucidez e naquele momento senti um misto de saudade, tristeza, revolta, raiva. Lembrei-me de cada detalhe daquele fatídico dia, do sofrimento que parecia me sufocar. Estávamos em um acampamento no qual passávamos as nossas férias, quando Polianna, com apenas seis aninhos, se perdeu na mata. Foram horas e horas de uma angustiante busca, mesmo com a ajuda de outras pessoas que ali acampavam também. Dividimo-nos para procurá-la. Eu fui para o lado do lago, enquanto Anna se embrenhou na mata. Ao fim da tarde, eu retornava desolado ao acampamento, sem saber como contar sobre minha busca infrutífera. Foi quando ouvi os gritos medonhos de Anna, vindos da mata. Ela pedia socorro aos berros. Desabalei-me para a mata guiando-me pelo som da voz dela, até que não a pude ouvir mais. Continuei andando a esmo, sem rumo e foi quando me deparei com aquela cena horripilante...

[MARINA] O ar faltou-me, por um breve instante achei que não fosse aguentar. Minhas pernas trêmulas mal sustinham meu corpo e meu peito ardia num nó que me estrangulava. Com esforço sobre-humano corri para o corpo de minha esposa, mergulhado na poça de sangue que ainda jorrava aos borbotões por um imenso corte que lhe abria o pescoço de um lado ao outro. Ajoelhado junto ao seu corpo, fixei meus olhos de pavor no rosto pálido da bela mulher com quem fora casado por quase dez anos. Vi que sua fisionomia ainda guardava a expressão de terror que experimentara antes de morrer. Anna fora morta com requintes de crueldade e o assassino não a poupara de extremo sofrimento.

— Meu Deus! — exclamei num grito desesperado — Quanta barbárie! O que fizeram com você, meu amor!?

Depois de um longo tempo em que apenas consegui cobrir o rosto e chorar toda a minha dor, levantei-me com uma força que desconheci. Precisava chamar a Polícia, tomar alguma providência, pedir ajuda... Dei alguns passos adiante, tentando me orientar no meio da mata, e foi aí que outra parte do meu doloroso calvário me colocou novamente à prova: meio coberto pelos galhos de um arbusto, avistei o corpo de Polianna! O mesmo corte no pescoço, o mesmo modus operandi do assassino de Anna! Não tive dúvidas. Havia algo de muito sinistro por detrás das mortes das pessoas que eu mais amava. Os sinais deixados pelo criminoso não deixava dúvidas: certamente, tratava-se de alguém movido por graves distúrbios psiquiátricos, pois seria inconcebível imaginar crimes tão hediondos sendo praticados somente por maldade. Nada justificaria tamanha selvageria. Completamente aniquilado, atordoado pela visão de minha filha esvaída em sangue — à maneira covarde da mãe — deixei-me cair ao lado de seu corpo, e entre soluços que me sacudiam de forma incontrolável, fiz um juramento: eu viveria para vingar meus dois amores...

[JOÃO BATISTA] Impulsionado por esse sentimento, tomei nos braços o corpinho daquela criança que tanto amei, corri sem bem saber o que fazia até chegar ao acampamento e colocá-lo ao solo, num gramado. O pânico instaurou–se de imediato. Todos que ali também acampavam, rodearam-me, ficando em forma de círculo, falavam ao mesmo tempo, com exclamações de terror. Eu, ajoelhado ao lado de Polianna mal ouvia as vozes, só consegui entender que alguém ligava para a Polícia e passava as informações do ocorrido e da localização.

Em meio a tudo isso, senti uma presença incômoda, relanceei o olhar a todos que me rodeavam, até que em um ângulo de 45 graus à minha esquerda, meu olhar deparou-se com um rosto, que por alguma razão não me era estranho. Era uma mulher que aparentava uns 35 anos, porte esguio, cabelos ruivos ao ombro, olhos azuis, rosto delicado com algumas sardas nas bochechas. Usava um par de óculos de sol em cima da cabeça, prendendo o cabelo, e ao sentir-se observada por mim, baixou-o para os olhos e passou os dedos entre os cabelos jogando-os pra trás, de uma forma sensual, quase obscena, o que para o momento me pareceu uma afronta. Os músculos da sua face contraíram-se num movimento quase imperceptível, esboçando o que poderia ser um sorriso. Desviei o olhar, baixando-o para o corpo inerte de Polianna, mas pelo canto do olho a observava.  Ela tirou do bolso o celular e digitou alguma coisa, esperou alguns instantes. Parecendo ter recebido uma resposta, foi se afastando discretamente até que a perdi de vista.

Permaneci no mesmo lugar, imóvel, buscando na memória algo que pudesse me revelar quem era aquela mulher misteriosa. De repente, num flash a vi ainda adolescente...

             —Não! Não! Eu devo estar delirando, procurando um culpado. O som estridente da sirene da viatura policial trouxe-me de volta à realidade. 

            [ROSÁRIO] E de repente, eu me vi envolvido numa cena de terror, olhando os corpos das mulheres da minha vida sendo colocados em sacos plásticos, como se fossem pedaços de carne, cobertos de sangue e do pó da terra onde rolaram. Vi quando as levaram e alguém me guiou por caminhos que eu não via mais. Nem sei como cheguei a casa e quem me acompanhou nos momentos seguintes, quando passei pelo velório, assisti ao funeral e vi a terra cair sobre os caixões da minha mulher e filha, sem que uma lágrima sequer me rolasse pela face, ou que uma palavra saísse dos meus lábios. Fiquei assim não sei por quanto tempo, relutando em acreditar que tudo aquilo era verdade, que havia acontecido realmente.

              E os dias foram passando, a dor foi se acomodando, e eu tive que retornar à vida. E nesse retorno, a pergunta que me despertava todo dia era a mesma? Por quê?  Foi tentando entender o motivo que me lembrei dela novamente. Aquela mulher que eu vira no local do crime não me era estranha. Seu olhar buscava o meu enquanto falava ao telefone, foi um segundo só, mas eu havia percebido. E buscando lá no fundo das minhas memórias, de repente eu me lembrei.

             -- Era ela!  O olhar era o mesmo, meu Deus, como não pensei nisso antes? O que fazia ali, naquele momento?

                Foi então que me lembrei daquela noite. Éramos jovens, na nossa pequena cidade do interior, e havíamos terminado o ginasial. Fomos comemorar com os amigos o fim da nossa jornada e, pela primeira vez, eu bebi além da conta. Lembro-me de ter passado mal no meio da festa e saí para o jardim para respirar ar puro; estava me sentindo sufocado pelo cheiro de bebida e a fumaça de cigarros que me davam náuseas. E foi ali, recostado num banco do jardim que ela me encontrou. Lembro-me que nunca havia falado com ela, mas ela se mostrou preocupada comigo e me ajudou a recobrar do mal-estar. Ficamos juntos por algum tempo, até que minha mão mais atrevida começou a acariciá-la, num gesto impensado de carinho. Ela me olhou assustada a princípio, mas depois foi se aproximando, devagar. Notei que também havia bebido, mas que mal isso podia fazer? Não estava acostumado a me aproximar assim das meninas da escola, mas ela parecia diferente. Nossos corpos se tocaram, começamos a nos beijar e, de repente, eu não era mais eu. Perdi completamente a noção do tempo e do espaço e num instante estávamos rolando na grama, cheios de desejo. Ela parecia louca, sequiosa dos meus beijos, enlaçando meu corpo com as pernas, numa clara demonstração de que me queria. E eu cedi à fraqueza do meu corpo, deixei que a paixão me dominasse e a possuí como um animal selvagem.

                 Ficamos assim, por um tempo olhando as estrelas no céu, procurando palavras que não vinham e esperando nossa respiração voltar ao normal. Timidamente, tentei tocar-lhe os seios, mas suas mãos foram mais rápidas que as minhas e não deixou. Achei estranho e já ia me levantando quando um impulso me fez agarrar a sua blusa, que se abriu diante dos meus olhos.  A luz da lua iluminou seu dorso nu e o silêncio foi quebrado pelo grito de raiva dela e pelo espanto do meu. Em vão, ela tentava cobrir com as mãos, os seios que não existiam. Sob os dedos crispados, apenas cicatrizes escuras, que ela relutava em esconder. Meu olhar de espanto deve tê-la confundido, porque de repente ela saiu correndo enquanto me amaldiçoava:

               —Teve nojo? Tem nojo de mim? Ou tem pena? Seria diferente se soubesse? Maldito! Não diga para ninguém, ouviu? Ninguém!!!  Se alguém souber que sou assim, você ainda vai sofrer por ver cicatrizes mais fundas e tristes que as minhas! Nunca diga nada para ninguém, esqueça que eu existo e tudo que aconteceu aqui!!!

                  E sem que eu pudesse dizer nada, ela se foi, desaparecendo pela rua escura. Algum tempo depois, desabafei com um amigo e contei o meu segredo. Fui embora para a capital pouco tempo depois e soube que ela também havia se mudado, quando a nossa história virou tema de chacotas pela pequena cidade que deixamos. E agora, lembrando de tudo, as palavras “cicatrizes mais fundas e tristes que as minhas” latejaram na minha mente.  Tive medo dos meus pensamentos.  E de repente, a garganta cortada de Anna e da minha pequena Polianna se tornaram cicatrizes fundas e tristes nas minhas lembranças.

[CELÊDIAN] Tomado por sentimentos muito confusos, que variaram desde a sede de vingança pelos meus amores perdidos, a certa culpa pelo constrangimento que causei àquela moça no passado, resolvi tomar uma atitude para pôr fim a tamanho sofrimento. Decidido, rumei para a minha cidade natal em busca de informações sobre a tal moça, a fim de saber onde poderia encontrá-la para desvendar aquele mistério. Não foi difícil, pois aquele meu amigo que se encarregou de espalhar nossa história e torná-la motivo de chacota, foi o primeiro a quem procurei. Quase não o reconheci, o encontrei num estado lastimável, desde aquela época tornara-se um alcoolista inveterado. Não teve nenhum escrúpulo em me contar que passado algum tempo depois que parti de nossa cidade, Adelina, a moça a quem ofendi profundamente no passado, voltara, também para saber de meu paradeiro. Ela tinha sede de vingar-se de mim e ele, no afã de controlá-la, tornou-se seu amigo e posteriormente acabaram se apaixonando, até que se casaram. Adelina, que também se tornara uma alcoolista, tornou-se obcecada por encontrar-me, até que isso passou a interferir de uma forma incontrolável na relação deles. Contou-me que era louco por ela e faria qualquer coisa para não perdê-la e foi então que ela viu num destes sites empresariais, o meu nome e onde eu trabalhava, e daí começou a tramar sua vingança. Aproveitando-se da louca paixão dele por ela, o convenceu a ajudá-la em sua vingança. Vieram ambos para a cidade em que eu vivia com minha família e passaram a seguir meus passos, a conhecer minha rotina. Foi assim que tomaram conhecimento de nossas férias no acampamento. Foram até lá e de tocaia aguardaram o melhor momento de atacar a minha filha. Descreveu-me com detalhes o que Adelina, embora ela não tenha participado daquele brutal ato que ele cometeu, assistiu a tudo com a frieza de quem esperava há anos para ver marcadas em mim, cicatrizes mais fundas e tristes que as dela.

Ouvi cada palavra daquele relato horrendo tremendo de ódio e asco e sem pestanejar, abri minha pasta, saquei a minha arma e apontei para ele, mas algo me fez titubear, não consegui atirar naquele ser desprezível e miserável. Virei as costas e saí dali rapidamente. Foi então que tive coragem de voltar ao túmulo de minhas amadas e ali entre as minhas boas lembranças delas, que entendi porque não tive coragem de matar aquele sujeito: eu aprendera com elas ao longo de nossa convivência, que as pessoas más convivem com seus infernos particulares e que eles são o bastante para puni-las até que um dia se arrependam, ou não. Não somos nós que definimos as suas penas.

E ali diante da presença ausente de Anna e Polianna, sorri, senti-me em paz, finalmente!    


 GRUPO 4

AUTORES: 1 - Celêdian Assis de Sousa; 2 - Marina Alves; 3 - João Batista Stabile; 4 - Maria Rosário Bessas.