terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Homem da Rosa








“Trago uma flor comigo” – disse ele em voz alta, talvez querendo ser ouvido por alguém...







Recentemente, tive o privilégio de conhecer o jornalista e escritor amazonense Carlos Costa, através de um comentário deixado por ele em minha publicação La Barca. Pessoa educada, carismática, suas crônicas são agradáveis de ler e mostram um pensador, questionando sobre tudo, portador de uma bagagem de conhecimento imensurável.

Autor do livro O Homem da Rosa, em seu prefácio ele apresenta um homem sem idade, sem passado, presente ou futuro. Um homem que discute temas comuns, em lugares comuns. Um homem que mostra que a vida é formada em círculos de onde se sai e para onde se vai. Um homem quase comum, igual a você, a mim, a nós, que buscamos respostas...

Na apresentação do livro, o poeta Pojucam Bacellar comenta que o texto de Carlos Costa navega no cotidiano dos sentimentos, a caminho do sonho e do delírio, mas um delírio construtivo, oportuno, afinal é imprescindível clamar o amor diante das indiferenças.

Quando Carlos Costa me pediu para formatar um PPS com fragmentos deste seu livro, senti-me honrada, contudo, confessei a ele que eu entraria em contato com as formatadoras que gentilmente me enviam seus belos trabalhos, pois eu apenas veiculava as apresentações recebidas de amigos. Feito isto, a encantadora Amélia Soares se prontificou em me ajudar e aceitou o desafio. O resultado aí está: magnífico! 


Melhor visualização na tela cheia (full screen)
Formatação: Amélia Soares  
Fundo musical: Corazon Solitario, Ernesto Còrtazar 
Fragmentos do livro selecionados por: Fernanda Paixão (neta sobrinha de Carlos Costa)

O Homem da Rosa é um peregrino que tenta plantar a flor no coração dos homens. De aparência simples, envelhecido, barbudo e maltrapilho, segue com sua esplendorosa rosa imortal na esperança de poder entregar a flor a outras pessoas, para que ela floresça em seus corações.

Esta obra pode ser encontrada na íntegra no Gândavos, http://gandavos.blogspot.com.br/2012/01/o-homem-da-rosa-autor-carlos-costa.html

Resíduos - Autora: Adriane Morais

Dezessete graus centígrados...é a temperatura revelada num termômetro próximo ao meu guardião...que por 5 anos me envolve, com seu corpo reto e ombros bem definidos, cuja transparência de sua textura me permite observar o lugar em que vivo.

Um quarto compacto, com controle da umidade, cheio de prateleiras de madeira pura, criteriosamente distribuídas no espaço, com cortes arredondados, cujos formatos eram de encaixe perfeito para as dezenas de guardiões se deitarem e assim permanecerem imóveis, condenando à mesma situação os seus envolvidos.

Tais guardiões possuíam na ponta de seu pescoço um tampão esquisito, chamado rolha, difícil de remover. Perdi as contas das tentativas de diálogo para que me deixasse sair...ufa! e os empurrões...nada acontecia! Agora, curioso mesmo era uma espécie de caroço que o guardião possuía no fundo. Para que serve? Qual a utilidade? Que curiosidade?

Crrrrrrrrr!!! Eita! alguém está entrando. É o proprietário do lugar. Um senhor alto, esguio, cabelos brancos, sério, olhar arregalado.  Há um tempo ouvi alguém chamá-lo por Orlando. Era nessas ocasiões que o silêncio do lugar era quebrado.

Orlando nos observava, e num ritual de espantar se aproximava das prateleiras...retirava alguns guardiões do lugar, erguendo-os a uma certa altura...depois lia as mensagens grudadas em seus corpos, os rótulos, que traziam informações nossas, os envolvidos, ou como nos costumam chamar, vinho. Em seguida, sumia com o escolhido.

Sobre mim, o verso do rótulo revela que sou de Portugal, uma mistura de três uvas, cor vermelho escuro, teor alcoólico de 14%, o que quer dizer que sou curioso, criativo, falante, espontâneo e com muita ciência do sex appeal, além do meu nome. Chamo-me Cartuxa, nascido em 2005.

Epa! Orlando se aproxima de mim! Será que é a minha vez!!!  Será que, finalmente, sairei daqui? Vejo mãos ao redor do meu guardião...como é bom experimentar outras posições além da horizontal...o meu rótulo...Orlando está lendo minhas informações...sou Cartuxa...nasci em 2005...não aguento mais ficar por aqui...curioso, criativo, falante, espontâneo e ciente do sex appeal...desespero-me: ELE ME ESCOLHEU! ELE ME ESCOLHEU! VOU SAIR! VOU SAIR!

Não quero perder um detalhe! Quanta curiosidade, mas uma insiste em me comandar: para que serve aquele caroço no fundo dos guardiões. Ahhh!! lentamente, seguros pelas mãos do Orlando, observo ficar para trás o lugar em que vivi. Adeus prateleiras, adeus baratas, aranhas...chegou a minha vez. Uma porta se fecha atrás de nós. Abre-se um outro mundo!

Que lugar claro! Que lugar colorido! Que lugar diferente! Orlando nos coloca numa mesa bem preparada. Uma outra pessoa coloca junto ao meu guardião uns copos esquisitos, com pés altos e finos e bocas grandes.

Duas visitas se sentam junto à mesa. Orlando traz um metal esquisito, pega o meu guardião entre as mãos, aperta-lhe o pescoço e encaixa o esquisito metal no gargalo. Aos poucos a rolha que por tanto tempo me prendeu vai saindo. Ufa!! eu não acreditava. Enfim, livre!!!!

Fiquei tão, mas tão feliz que contaminei todo o lugar com meu aroma, só de um sopro, um sopro de alívio, um sopro de liberdade, um sopro só por respirar.

Ah! Os olhares de encanto de Orlando e de suas visitas me embalam. Sigo respirando, respirando...de repente vou me desgrudando de meu guardião. Divido-me entre os tais estranhos copos. Naquele momento, senti-me pleno ao ser conduzido pelo destino, e no compasso de risos e conversas, deleito-me em mergulhos no corpo humano.

Ah!!! E numa espécie de rompante, volta a curiosidade: para que serve aquele caroço no fundo dos guardiões? Dentre as várias informações, uma me chamou atenção: acúmulo dos resíduos. Resíduos. Resíduos do que antes eu fui...

Autora: Adriane Morais – Recife/PE

Contato:
Postagem autorizada através de e-mail de 04/01/2012

O mendigo - Autor: Ciro Fonseca

          Positivamente o dia não começou bem. Levantei atrasado e fui direto para o banheiro para o banho matinal, o maldito chuveiro elétrico estava muito quente o que me fez lembrar que eu tinha que pagar a conta de luz que já havia vencido. Aprontei-me correndo e mal tive tempo de tomar o cafezinho e fui logo aquecendo o carro para sair, quando observei que o ponteiro de combustível estava perigosamente perto do reserva, sai em alta velocidade para tentar compensar um pouco do tempo perdido mas confesso que os quebras-mola que tanto me irritavam hoje parece que estavam maiores e mais próximos do que os de costume. Parei no posto de gasolina para abastecer, paguei com o cartão de crédito o que me fez lembrar que a fatura do mesmo já havia chegado e precisava ser paga, rumei em direção da Avenida Brasil com os pensamentos voltados para os compromissos do dia, para a conta de luz, de água, telefone, cartão de crédito, etc. que por pouco não avancei um sinal que já estava no amarelo. Impaciente, com o carro já engrenado em primeira marcha, foi quando deparei com uma cena que mudou o meu dia e talvez o resto da minha vida.

         Ele era um mendigo ainda jovem, descalço, com as calças sujas e rasgadas, no ombro desnudo carregava um velho cobertor que o tempo já tinha descolorido e que parecia ser a sua única e derradeira posse. O seu tesouro, mas o que mais chamava a atenção era o seu olhar despreocupado, a cara de felicidade e o sorriso estampado na boca que faltava um dente; Atravessou a rua bem em frente ao meu carro parado, com a cara feliz e quando chegou do outro lado, abaixou-se e apanhou no chão uma guimba de cigarro acesa que rapidamente levou a boca e sorveu a fumaça com avidez enquanto resmungava umas palavras ininteligíveis, agora com o sorriso mais largo e com os olhos úmidos de prazer e felicidade. O sinal abriu e eu arranquei com o carro levando comigo os meus problemas, minhas preocupações, minhas contas a pagar, mas aquela cena simples de rua, com aquele mendigo que nada tinha, mas parecia ter tudo, mudou o meu dia para melhor e talvez tenha mudado a minha ótica de vida toda.

Autor: Ciro Fonseca - Rio de Janeiro/RJ
Blog do autor: http://cirofons.blogspot.com/
Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 10/10/2011

domingo, 15 de janeiro de 2012

O rei que leilou a filha - Autor: Geraldinho do Engenho

Um palácio construído em ouro prata e marfim. Figurou-se na maior riqueza da face terra. Era invejado pelos soberanos de todos os reinos do universo.

Atraídos pela ambição, os nobres do mundo inteiro almejavam a mão da herdeira daquele fabuloso reinado.

O soberano ao contrario de sua esposa colocava os bens que possuía acima da felicidade da filha, recusando todas as propostas de seus pretendentes.

A rainha muito bondosa apoiava a filha que procurava com muita simplicidade cultivar suas amizades, entre as criadas e os súditos do reino, o que, aliás, não agradava em nada ao rei.

Aproximando o aniversário da princesa programou-se uma grande festa, e a nobreza de sangue azul fora convidada em massa para o grande evento. Comitivas e mais comitivas chegavam de todas as estâncias e reinos existentes no planeta. Acomodações não faltavam afinal àquele era o maior palácio existente na face da terra.

Pensando em lucrar com o casamento da filha o rei promoveu um desafio, colocando sua mão em jogo, determinou: - aquele que oferecesse a ela o presente mais valioso, a desposaria.

O que ele não sabia, é que o coração da filha já tinha dono. Ela era apaixonada pelo cocheiro do reino que por sua ordem a ensinara cavalgar. A mãe apoiando a filha prometeu-lhe ajudá-la na escolha do noivo, que, como previa o pai, ocorreria após o grande banquete, quando cada pretendente entregasse seu dote, que naturalmente seria um presete valioso.

Tudo correu razoavelmente bem com a mesa repleta de iguarias, refinados vinhos e licores, uma mega festa.

Enfim chegou o tão esperado momento. Sentado em seu trono ladeado pela filha e a rainha o soberano ouvia a descrição de cada pretendente candidato a genro, que ao entrar na sala, após beijar-lhe a mão depositava sobre a mesa forrada de cetim seu valioso presente.

Apesar de machista o rei era perdidamente apaixonado pela esposa, e como mulher ela aproveitava os momentos mais íntimos do casal para conseguir seu consentimento na realização de seus objetivos. E foi em um destes momentos que ele permitiu a ela a inclusão de vários súditos na grande festa dentre eles o cocheiro. Confiou que súdito algum teria poder aquisitivo para superar os nobres.

Lendo o currículo de cada nobre o porta-voz palaciano descrevia sua riqueza, anunciando seu dote em beleza física e valor financeiro.

Jóias em ouro maciço cravadas de diamantes, colares, gargantilhas, anéis e etc., enfim tesouros valiosíssimos. O ultimo a ser apresentado chamou a atenção pela simplicidade de sua descrição. O porta-voz o descreveu como o príncipe do bosque, anunciando sua riqueza imaterial edificada por sonhos e fantasias elementos fundamentais que alimentam a alma. Entrando em sena o cocheiro beijou-lhe a mão e colocou sobre a mesa um ramalhete de flores.

Irado o rei quis contestar, mas a rainha o conteve refrescando sua memória. Lembrou-lhe aquele momento intimo quando sua palavra foi empenhada, afirmando que palavra de rei obrigatoriamente tem que se cumprir. Chegado o momento da escolha como o rei havia prometido à rainha em seus momentos de deleite, permitiu a filha fazer sua escolha. Contrariando o desejo do pai ela optou pelo ramalhete de flores. Furioso ele pediu-lhe explicações. Segurando-o pelo braço ela o conduziu até a janela onde se tinham uma visão da copa das arvores mais altas do bosque que confrontavam à janela. Escolhendo a mais florida ela perguntou ao pai,

- vedes aquela maravilha de flores sobre aquela arvore?

– Sim, mas o que tem a ver flores com o nosso problema?

– Acontece que são flores de um simples cipó que nasceu a seus pés e entrelaçando no tronco pode chegar ás alturas provando ser viável exibir-se no mesmo nível da poderosa arvore. Sem palavras ele ordenou: – prossiga filha.

- Digamos que tu sejas a arvore em questão, todo poderoso -, Sabe de onde vem tanto poder? Das pobres raízes que vivem entremeadas na lama, sujas e esfomeadas tentando se sustentar dos detritos e restos que os nobres atiram no lixo, lixo este que tu desprezas, e que na verdade torna em vossa razão de ser. Ao desprezar um de teus súditos é a vós mesmo que desprezais, por que são vossas bases vossas raízes. Mande cortar as raízes desta arvore assim como mandas colocar na forca teus súditos, e verás que morrerás com elas.

Se ao contrario mudares de idéia, o cocheiro será cipó e tu arvores -, eu serei flor, produzirei frutos, e sementes, e te darei muitos netos. E só assim serei feliz com a vossa permissão!

Em grande comoção o rei abraçou a filha, concedeu sua mão ao cocheiro que se casaram e foram muito felizes.

Autor: Geraldinho do Engenho - Bom Despacho/MG

Publicação autorizada através do e-mail de 24/10/2011

A moça do jornal - Autor: Carlos Lopes



A arma da vida tem múltiplos gatilhos e certamente aquele inspetor procurou nos conduzir pelas ações justas, onde são banidos os sentimentos de culpa ou remorsos. 
Carlos Lopes - Olinda/PE


Material retirado para compor livro

domingo, 1 de janeiro de 2012

O que escreverei nas últimas páginas do livro da vida! - Autor: Carlos Costa

Com calma, paciência, serenidade, simplicidade e muito amor à vida, começarei a escrever hoje, dia 1/12/2012, nas últimas páginas em branco que ainda me restam, a nova história de minha vida. Espero escrevê-la com sabedoria, menos revoltado, azedo, enfim, menos chato, como o fiz no ano que se foi, 2011.
Mas acho que isso não acontecerá porque sai ano entra ano e as coisas não mudam: rotineiramente ocorrem roubalheiras descaradas, liminares judiciais com a ajuda financeira de interesses escusos, políticos corruptos assumindo postos; enfim, posso até tentar mudar, mas a realidade social do Brasil não mudará! Talvez eu não mude também, embora tenha muita vontade de fazê-lo!
A nova história que escreverei nas últimas páginas em branco que ainda restam de minha vida, certamente a farei com muita mais emoção e amor no coração porque, ao acordar hoje pela manhã, encontrei em meu aparelho celular a mensagem de meu médico, Dr. Dante Luis Garcia Rivera: “Sr. Carlos, Feliz Ano Novo que este ano seja de paz e felicidade, muito amor e que todos teus projetos sejam realizados com sucesso. Deus abençoe tua família, são os sinceros desejos com muito carinho de Dante e família.” À Deus e ao médico, devo minha vida para continuar registrando nas páginas em branco que ainda me restam para novos registros.
Embora afetado em meu lóbulo de humor e emoção, não direi que essa mensagem de meu médico,  não me tenha movido minha emoção mas apenas respondi: “...e que o senhor fale pela boca de um anjo e que eu não tenha que ser hospitalizado em emergência para novas cirurgias, em 2012. Esse  é meu único desejo”.
Não que esteja relegando a um plano inferior a habilidade profissional de meu médico; ah, isso não! Mas porque eu mesmo sinto que as poucas páginas em branco do livro de minha vida estão ficando cada vez menores, quer pela idade, quer pelas duas  bactérias incuráveis que mantenho alojadas em meu cérebro, mantidas sob controle com remédios que tomo diariamente.
Mesmo assim, obrigado, Dr. Dante! Sua mensagem me deu mais ânimo para viver!
Saberei que pelas mãos de Deus, guiando as suas,  terei mais anos de vida, sim, com paz e felicidade ao lado de minha esposa e família. Embora ultimamente tenha tido poucos momentos de humor, me senti muito bem humorado quando li sua mensagem cheia de carinho, respeito e consideração. Eu, como seu mero paciente, talvez seja mais um apenas em meio de milhares de outros que o senhor os mantém em seu fichário de atendimento, continuarei sim, escrevendo até o fim, as últimas páginas em branco do curto livro que restam de minha vida! Mas...
Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
publicação autorizada através de e-mail de 01/01/2012

sábado, 31 de dezembro de 2011

A estória dos 5 pães - Autor: Osiris Duarte de Curityba


 (da série: o homem que calculava)

Nas terras das Arábias, é um antigo costume, o café com leite e pão das 4 horas da tarde.

Dois amigos, simples cameleiros, sentam-se à mesa, cada qual com seu alforje. O primeiro tira do alforje 5 pães d’água, e sobre a já referida mesa, os põe. O segundo, tira 3 pães d’água do alforje (dele) e procede da mesma maneira que o primeiro.

Eis que senão quando, passa por ali, o Califa daquele município, que é convidado para, em tríduo, compartilhar aquele café com leite e pão das 4 horas da tarde.

O tal homem, grande algebrista, também era rico, generoso e justo, entretanto, naquela ocasião, não dispunha de nenhum pão d’água no alforje que trazia consigo.

Os dois amigos ficaram constrangidos ante a dificuldade em dividir os 8 pães entre eles.

O Califa algebrista sugere que cada pão seja cortado em 3 pedaços iguais, o que fará 24 pedaços, cabendo portanto 8 pedaços para cada um dos comensais.

E assim se fez.

O Califa, homem justo e generoso, além de rico, deixa sobre a mesa 8 moedas de prata, como retribuição ao convite recebido. Levanta-se e vai tratar de seus afazeres.

Ao retornar, encontra os dois amigos cameleiros, ainda em desacordo sobre a divisão das 8 moedas deixadas, que decidem relatar a estória dos 8 pães d’água sobre a mesa, dos quais 3 vieram do alforje de um e 5 do alforje do outro.

Após ouvi-los atentamente, disse o Califa: ─ aquele que forneceu 3 pães, recebe 1 moeda, e aqueloutro que forneceu 5 pães, recebe 7 moedas.

─ Não é equânime, disse aquele. Pois foram 8 moedas por 8 pães d’água. Eu, que forneci 3 pães, mereço portanto 3 moedas.

O Califa replica: ─ lembre-se de que cada pão foi cortado em 3 pedaços iguais, portanto você forneceu 9 pedaços de pão. E seu amigo aqui forneceu 15 pedaços de pão.

─ Porém dos 9 pedaços de pão por ti fornecidos, tu comeste 8. Eu dos teus, disse o Califa, comi só 1. O teu amigo aqui forneceu 15 pedaços de pão e comeu 8, e consequentemente, eu, dos dele, comi 7. Portanto tu ficas com 1 moeda e teu amigo com 7.

─ E estamos conversados …
Autor: Osiris Duarte de Curityba - Portugal


Publicação autorizada através de e-mail de 15/11/2011

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

De tanto melhorar, o diabo estragou a mãe - Autor: Carlos Lopes

No inicio dos anos setenta a cidade de Sertânia foi exemplo no esporte e na cultura. Durante anos, os seus fabulosos jogadores de handebol foram a alma da seleção estadual. No teatro não foi diferente, todos sabiam da existência do Grupo Disparada. Um dia, à convite de um integrante do grupo, fui assistir a uma das suas memoráveis apresentações. Não lembro o nome da peça. No entanto, sei que fora extraída de um Cordel e, tratava-se de um enredo ligado ao cangaço.
Material retirado para compor livro

Vai passar - Autor: José Cláudio - Cacá

Quando eu era criança ouvia os mais velhos dizerem uma frase que reportavam à bíblia: “a mil chegará, de dois mil não passará.” Era o apocalíptico fim do mundo, segundo a crença de muita gente. Ficava temeroso mas um tanto aliviado. No ano de 1999 ia estar com 37 anos e já teria vivido demais. Para uma criança, alguém de trinta e sete anos é um velho. Medo, no entanto, eu tinha algum. Afinal, qualquer pessoa saudável não quer morrer mesmo estando “velho”. Isso me acompanhou durante muito tempo. Passei a não gostar tanto de revellions. Eles abririam as portas para a epifania do fim dos tempos. Cada ano uma porta. Cada porta um passo para o encurtamento da vida. Eu fui crescendo e passei a fazer a minha própria interpretação bíblica. A bíblia é tão enigmática, tão metafórica, tão cheia de dedos humanos que isso acaba acontecendo: cada qual interpretando de acordo com suas vontades, suas convicções e até mesmo interesses mais inconfidentes.

Já mais familiarizado com a matemática, descobri que o fim do mundo poderia ser no ano de 2999. Ainda estaria dentro da casa dos 2000. Relaxei e tratei de rever planos e despachar as dúvidas. Investi na longevidade em pensamento. Digo em pensamento porque os cuidados com a matéria corporal não recomendam que eu tenha tanta vida útil. Veio o século XXI, a terra continua inamovível, apesar de um tanto mais maltratada pelo homem, mas nada que assuste a ponto de acreditarmos que sua destruição é iminente. Confesso que fui feliz muitas vezes. Tive muitos problemas, nem todos que imaginava e também alguns que imaginei acontecerem comigo. As alegrias, entretanto, foram maiores.  Planejo até ver netos crescerem um pouquinho...

De 1970 para cá eu me lembro muito bem de todas as copas do mundo. E é através delas que vou agora contanto meu tempo por estas bandas. Teremos no próximo ano mais uma e a de 14 será no Brasil. Não vai dar para ir a todos os jogos pois fortuna não fiz e creio não mais fazer até lá. Se bem que não é meu interesse ser mais afortunado do que já me considero com os afetos que construí até hoje.

A última previsão do flagelo final é para 2012. Justo quando eu resolvi que vou completar 50 anos. Será que o ano desse fim chega até setembro?

Desejo a todo mundo vida longa, muita saúde e paz em 2011 e por todos os anos que ainda nos restarem dentro desses quase nove séculos que ainda virão, segundo minha interpretação. Paz e bem.

Autor: José Cláudio - Cacá - Belo Horizonte/MG



Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 09/12/2011

Imaginação de adolescente e a troca de ano - Autor: Carlos Costa

Adolescente, época de namoradas, cinemas, festinhas e outras coisas próprias da época, imaginava a troca do ano velho pelo ano novo como se fossem um velinho carregando às costas, amarrada em um bengala, todas as dores e horrores do mundo em um grande pano em forma de saco e um garoto novo e faceiro chegando e ambos se cruzando nessa passagem e se olhando em silêncio.
Muitas vezes fiquei acordado até meia noite só para ver essa troca do “ano velho”  pelo “ano novo” e nunca consegui presenciá-la, por mais que tentasse, piscando o olho para não dormir. Minha imaginação de adolescente também deveria ser a mesma de todos os garotos da mesma idade, entre 13 a 14 anos. Embalando e aguçando à imaginação, sempre via nos jornais que vendia à época, pelas ruas de Manaus, charges sobre o assunto desenhadas por vários profissionais que as produziam.
Uma dessas charges, em especial, me marcou muito, desenhada em A CRÍTICA, pelo inesquecível chargista “Miranda”,  mostrando um velhinho carregando às costas um saco cheio que, em minha vasta imaginação da época, entendi serem os problemas do mundo, as guerras, as catástrofes, os problemas políticos enfim, sendo levados embora, e um outro garoto novo e todo faceiro, entrando. Nenhum falava com o outro! Daí a imaginação que passei a ter sobre o assunto. Que imaginação fértil eu tinha!
Já “taludo”, com meus 17 anos, nunca consegui ver essa troca do ano velho pelo ano novo pois para mim, tudo se dava através da magia de fogos de artifícios. Mas nunca entendia direito a razão dos fotos. Será que para para comemorar a ida do “velinho” levando as coisas ruins ou comemoravam apenas o garoto que estava chegando, cheio de planos, desejos de paz, luz, felicidade.  Até hoje não entendo ainda a razão dos fogos de artifício!
Depois vinham as práticas de “despachos”, “macumbas”, “urucubadas” e, logo, sempre no início do novo ano, recomeçavam as tragédias naturais, as mortes, as guerras, assaltos, assassinatos, sequetros, drogas e tudo mais. Ou seja, tudo o que o ano velho transportara às costas. Era minha imaginação!
E o novo ano, sofrendo as dores do mundo mais uma vez, envelhecia rápido, a barba e o cabelo cresciam e ao término de mais um trabalho insignificante, com seus 365 dias de vida, o novo se tornava velho e era novamente substituído abruptamente – em minha imaginação - pelo ano novo. E tudo recomeçava exatamente igual!
Autor: Carlos Costa – Manaus/AM
Publicação autorizada através de e-mail de 16/12/2011