segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A mulher do vestido estampado - Autor: Carlos Lopes

E sou mesmo! Desde os tempos de menino em Caiçara dos Órfãos, no meu Sertão do Moxotó, que nas rodas de marmanjos na calçada da igreja, avistava um bêbado cambaleando e apostava na certeza que ele viria até a mim.

Mas não é de bêbados que quero falar.
No início dos anos setenta, ao me mudar de mala e cuia para o Recife, não imaginei que entre roupas e livros, coubesse no meu matulão, aqueles ¨espíritos¨ que retornam ao mundo para se redimir ou amedrontar as pessoas.
 
As ¨almas penadas¨, para mim, estão em todo lugar! E por assim pensar, a cidade do Recife, seria em tese, o último lugar onde eu deveria morar. Porém estando lá, fiquei ciente de lendas populares, tais como: ¨A Casa da esquina do Beco do Marisco¨, ¨O Sobrado da Rua de São José¨, ¨A Casa da Rua Imperial¨, ¨O Sobrado do Pátio do Terço¨, ¨O Sobrado da Estrela¨ e ¨O Sobrado Mal-assombrado da Rua de Santa Rita Velha¨.

E por eu ser, entre os residentes da Casa de Estudante do meu Município, o de pior ¨mesada¨, tratei de arranjar um emprego. Um amigo do meu pai de nome Alfredo, residente na Vila São Miguel, em Afogados, mexeu os ¨pauzinhos¨ e fui contratado na função de guarda noturno do Teatro Santa Isabel. Era tudo que eu precisava naquele momento! Além de dispor do dia para estudar, sentia gosto em trabalhar naquela construção centenária, localizada na Praça da República. E não nego não, sentei na maior parte das cadeiras do teatro, só para me igualar aos ilustres personagens da história, assíduos frequentadores do teatro em tempos passados. 
Segundo funcionários, lá os fantasmas perambulam pelo palco quando o teatro está às escuras.  Fiquei impressionado com as tantas história envolvendo uma bailarina e  também de um ator da casa que, segundo me contaram,  habita o teatro há anos, como se aquele templo fosse a própria casa deles. E não se passaram muitos dias para eu ter a certeza que falaram a verdade. Uma noite, eu vi no espelho, que dá para ver o palco, uma bailarina toda de branco. Quando eu me virei, ela ainda estava lá. Então, eu arrodiei o teatro para dizer que o ensaio ainda não havia começado. Mas quando cheguei lá, ela havia sumido. Nunca mais entrei no salão principal sozinho. Por conta do acontecido comigo e outras estranhezas que também presenciei, imagino ser aquele teatro o mais mal-assombrado do Brasil, sobretudo depois da morte de um maestro, quando as pessoas começaram a ouvir o som do piano tocar à noite sozinho.
 
Pedi demissão!

A Casa do Estudante funcionou em um casarão com frente para a Praça Chora Menino, no Bairro da Boa Vista. Contam que a antiga dona da casa, uma mulher que se casou com um viúvo e com ele teve dois filhos, começou a aparecer com marcas inexplicáveis no corpo. O marido chegou a colocar portões de ferro e cadeados para que nenhum estranho entrasse na casa, já que se acreditava que tudo era obra de algum bandido, embora que nada fosse roubado. Mesmo com a única cópia da chave nas mãos do dono, os portões amanheciam abertos. Naquela época também foi realizado exame no sangue que escorria da imagem de uma santa para verificar se era humano. O resultado apontou que o sangue pertencia à própria dona da casa. A família, abalada com os estranhos acontecimentos se mudou do local e as assombrações finalmente desapareceram. Dalí em diante o casarão foi abandonado e marginais tomaram conta da área e a transformaram em ponto de consumo e tráfico de drogas. Somente décadas depois, herdeiros resolvem alugar o imóvel, construído exatamente onde em 1831 houve um grande massacre, provocado por uma tropa que tinha como obrigação proteger o lugar. Por causa disso, muitos moradores, inclusive crianças, foram mortos. Depois disso, algumas pessoas que passavam pela praça diziam ouvir o choro de um menino. Daí surgir o nome do lugar.
 
E  na falta de primor, alugamos o tal casarão.

O Casarão não era apenas uma construção antiga, igual a tantas outras do bairro onde nasceu o poeta Manoel Bandeira; no entanto era habitável se comparada à situação semidestruída que se encontra hoje, quando fui fotografar para ilustrar esse artigo. E considerando o tamanho das baratas e dos ratos que infestavam os ambientes, imagino que há décadas ninguém ocupou os inúmeros cômodos que compunham a casa, que fazia limite de fundos com o tradicional Colégio Salesiano. Os tais bichos eram de tamanhos descomunal e desprovido de senso do perigo humano. Por inúmeras vezes levantei os pés a centímetros do chão, como que quisesse esmagá-las e sequer as baratas se movia. A mesma indiferença humana era sentida nos enormes gabirus que invadiam os quartos, ocasião em que permaneciam inertes a fitarem os estudantes, ocupantes dos quartos localizados no quintal da casa. Enfim, tudo metia medo na estudantada e quase ninguém se arriscava a dormir sozinho em qualquer ambiente da casa. No entanto, não lembro de alguém, além de mim, que presenciou alguma situação caracterizada como ¨assombração¨.
 
E o pior aconteceu!
 
Noite adentrada, quase madrugada! Havia falta de energia, principiando o adormecer dos moradores do bairro, ao som da triste melodia das cigarras nas castanholas da Praça Chora Menino. Eu estava na primeira sala do casarão, local onde se assistia televisão. O cansaço me fizera permanecer naquela escuridão e com os pés esticados sobre a cadeira da frente não imaginava lugar melhor para dormir. Entre um cochilo e outro, algo me despertou. Não vi nada, só tive a sensação que algo se movimentou em torno de mim. Ainda pensei se tratar de alguma brincadeira de colega da casa. Nem sei se cheguei a fechar novamente os olhos, algo embranqueceu a parede a uns dois metros a minha direita. De imediato, percebi que aquele clarão se mexia e rapidamente foi se transformando numa  imagem humana. A visagem se estabeleceu e como se somente esperasse que eu a contemplasse, despregou-se da parede e caminhou lentamente a minha frente, indiferente a eu estar ali. Dei um grito que acordou a casa inteira.  Foi tão grande o meu espanto que minha voz se fez se ouvir até na casa da vizinha do lado. Tudo aconteceu muito rápido, logo perdi as forças e também a voz. Só sei que inerte, ali sentado, vi um homem vestindo calça e paletó na cor branca caminhando na minha frente e desaparecendo entrando na parede oposta da sala. Logo ouvi vozes as minhas costas, eram os estudantes querendo me acudir. Pediam por explicações, enquanto eu não arredava a visão do local da parede esperando aquele ser retornar. Tavares, um dos meus companheiros de quarto se plantou em minha frente tentando entender o acontecido enquanto eu murmurava sons incompreensíveis. Aos poucos, fiz-lhes ciente que havia sido acometido de um estranho pesadelo e só por isso gritei apavorado. No dia seguinte, ao ser questionado pela vizinha, Dona Carmosa, acabei soltando a língua e lhe contei do acontecido. Depois de ouvir-me, quieta feito uma mula empacada, sumiu no terraço da sua casa e logo retornou com um enorme embrulho nas mãos.  Esticou as mãos e me entregou para que desfizesse o empacotamento e logo tinha em mãos um surrado álbum de fotografias. E ali, no meio da calçada, espiava velhas fotos em preto e branco que não me diziam absolutamente nada.  Eu já estava ficando sem jeito por não entender a intenção da bondosa senhora quando uma fotografia despertou a minha atenção. Olhei para minha amiga, voltei à vista para o retrato e marquei com o dedo, dizendo-lhe ser aquele o homem que vi atravessar a sala na noite anterior. Ela, Dona Carmosa, dando a entender falta de surpresa, apenas sorriu. Ali mesmo fiquei sabendo se tratar de um Senhor de nome Ernesto, o primeiro habitante do imóvel, também o esposo da mulher atormentada, cujo sangue escorria na imagem da santa da casa.

Abandonei o Casarão da Praça Chora Menino!

No período de um ano habitei a maior parte das pensões do bairro da Boa Vista. Porém nos lugares onde residi, só me sentia a vontade até o momento em que algo de anormal acontecia. Na Rua Visconde de Goiana, sempre que ia ao banheiro à noite, do terraço do primeiro andar quase sempre avistava uma pessoa, trajando roupas escuras e usando chapéu, plantado exatamente na esquina com a Rua José de Alencar.  Outra vez, e num dia de chuva, na Rua Imperial, abaixei para apanhar um livro e de repente um enorme pé se antecipou e afundou o volume numa poça de água, que me fez buscar abrigo na Igreja São Francisco. Noutra situação, cruzei com uma mulher muito bonita e trajava uma capa preta com vermelho por dentro. Algo me fez sentir tratar-se de visagem do outro mundo. Virei-me e a segui, calçada afora. Ela na frente, eu atrás, sem perder a passada. Se ela andava rápido, eu andava muito mais. Aquela altura da noite a Rua da Imperatriz estava deserta. Logo fui perdendo fôlego enquanto ela parecia andar normal. Ao dobrar a esquina com a Rua da Aurora, a mulher havia desaparecido. Fiquei apavorado e sem forças para voltar para casa. E assim, amigos, o tempo foi passando e os fatos encurtando cada vez mais meu espaço na cidade do Recife. E num gesto de desespero abdiquei de vez de morar em construções antigas. Aluguei um apartamento no segundo andar de um edifício na Rua Velha. E naquele endereço, muitas vezes, por noites consecutivas, ouvia o barulho da porta do elevador se abrindo, no entanto não havia ninguém no andar. Passei a sofrer de insônia e tive o rendimento no estudo comprometido. A partir de certo tempo já não sabia se presenciava visagens ou se até poderia sofrer pesadelos, o fato é que constantemente uma mão cabeluda parecia querer me sufocar, mesmo quando me escondia em algum lugar tentando dormir. Era chegada a hora de abandonar, definitivamente, a Veneza brasileira.
 
Transferi o meu curso para uma Universidade da Paraíba.
Lembro como se fosse hoje! Era uma sexta-feira do ano de 1976 e chovia quase sem parar no Recife. O velho Opala estava de bunda baixa com tantos pertences na mala, não faltando lembranças da cidade e lá também estava Bill, meu porquinho da Índia de estimação.  O relógio marcava 23:13 horas, quando em meio a uma chuva fina iniciei minha saída da cidade do meu coração, porém me curvando aos obstáculos, pois temia risco de sanidade mental.  Eu estava sozinho e descansado para enfrentar uma jornada de cinco horas até a minha cidade, de onde no domingo próximo, deveria seguir para o Estado da Paraíba, minha nova morada. Enquanto percorria a Avenida Engenheiro Abdias de Carvalho pensava o quanto era tranqüilizante deixar os meus pesadelos para trás. O que não imaginava é que minha via crúcis ainda teria um capítulo final. Eu estava subindo o viaduto que me conduziria a BR quando fui surpreendido por uma mulher sentada no banco traseiro do meu carro. Eu a vi pelo retrovisor interno. Um calafrio intenso se apossou do meu corpo de cima para baixo e os meus olhos lagrimejavam sem contenção, enquanto a mulher se mantinha imóvel, visível para mim no lado oposto do acento traseiro do veículo. Ela devia ter, aproximadamente, uns quarenta anos, cabelos compridos e vestia branco com estampas coloridas, sendo visível parte do rosto e vestes banhados de sangue. Não me ocorreu outra situação senão rezar em voz alta, seguindo a orientação costumeira que dizia que alma penada volta ao mundo pela precisão de oração ou de missa. Logo adiante a direita da saída do Recife, há um quartel do Exército,  não me furtei em estacionar o carro. O sentinela do dia veio ao meu encontro e disse-lhe, apenas da necessidade de organizar uns pertences espalhados pelo assoalho. No entanto, aquela altura a mulher já havia desaparecido. Não havendo nada a fazer ali, agradeci o militar e mais tranquilo segui viagem, naquela noite escura pelas chuvas que caíram até pouco tempo atrás. Não devo ter percorrido dois quilômetros, lá estava a mulher de volta, no mesmo lugar e de forma idêntica a primeira vez que apareceu para mim. Fiquei apavorado, porém não desesperado e voltei a rezar. Ainda me veio a mente ¨requecer à alma¨, porém não me sentia seguro para ouvir a voz daquela assombração, não naquele  momento. Logo surgiu a minha direita a placa anunciando a proximidade do Posto Rodoviário Federal de Moreno, onde estacionei metros adiante alegando a necessidade de estirar as pernas. Nem preciso dizer que a visagem novamente havia desaparecido. Uns cinco ou dez minutos depois, era chegada a hora de voltar a estrada. E confesso, a mulher do vestido estampado não mais apareceu para mim nos quilômetros que se seguiram e, para meu alívio,  avistei as luzes de Vitória de Santo Antão, cidade da Zona da Mata do Estado. Logo nas primeiras lombadas do perímetro urbano, avistei mais adiante, no lado oposto da pista, uma aglomeração de pessoas. De imediato percebi do que se tratava e estacionei o veículo. Não foi surpresa nenhuma reconhecer o corpo da mulher que viajara comigo até pouco tempo atrás, estendida no asfalto, exatamente como se apresentou a mim. E ali, no meio de pessoas que nem conhecia, onde quase ninguém falava, apenas observavam consternado aquele corpo estirado no chão, eu não senti medo daquele ser, identificado apenas como uma mulher que há cerca de trinta minutos havia sido atropelada ao tentar atravessar a pista. Pra falar a verdade, eu me senti, naquele momento, muito íntimo daquela mulher que entre tantos escolheu a mim para pedir ajuda.
Segui minha viagem, sem medo do que vi ou receio pelo que podia ainda me acontecer, porém pensando: ¨Entre espíritos e humanos, quem é a ¨assombração¨?

De fato mesmo, nunca mais voltei ao Recife.

Autor: Carlos Lopes
Olinda - Pernambuco

7 comentários:

Carlos Lopes disse...

Fico feliz que tenha gostado do livro GANDAVOS - OS CONTADORES DE HISTÓRIAS, Adriane Morais. Como disse, o próximo será melhor que este. Também gostei muito deo livro.

Carlos Costa - Manaus/AM disse...

Credo, amigo. Tenho muito medo dos vivos porque aos mortos serei companhia em breve. No Amazonas, temos várias dessas lendas urbanas: da mulher que entra toda de branco e some na porta do cemitério, de mulheres loiras, bonitas e elegantes que pedem carona as estradas e desaparecem e outras tantas outras lendas urbanas iguais ou parecidas com as que o amigo narrou de forma brilhante! Se eu ainda possuir saúde e for visitar-lhe, quero ir em vida e não aparecer para você depois de morto. kkkkkk Um abraço,

Carlos Lopes disse...

Amigo Carlos Costa, terei parzer em recebê-lo no Recife ... porém vivinho da Silva.

Maria Oliveira disse...

Maria Mineira,

Credo em cruz! Que experiências incríveis! Eu gostei muito de sua narrativa. Parecia que eu estava junto, assitindo a tudo. Você acredita que eu até dei uma espiada aqui atrás da cadeira onde estou? Um abraço e parabéns!

Celêdian Assis disse...

Primoroso texto, muito bem arquitetado no quesito de dar veracidade às lendas, mitos e até aos medos que tanto afligem as pessoas. A narrativa transcorreu leve e envolvente, propiciando uma leitura muito agradável. Já conheço bastante sobre como as histórias desse gênero lhe assombram, em nossas trocas de ideias e acho louvável que lhes dê vida em trabalhos literários. São realmente bons motes para excelentes contos e que você sabe aproveitar muito bem, com o dom nato que você tem de contar histórias. Parabéns, meu amigo, pelo ótimo trabalho que vem desenvolvendo.
Um grande abraço,
Celêdian

Carlos Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Lopes disse...

Agradeço a Celêdian Assis e a Maria Mineira pelas palavras amáveis atiradas ao meu conto A MULHER DO VESTIDO ESTAMPADO. Também gostei desse conto, amigas. Tanto que nem pedi por revisão junto a minha amiga Celêdian Assis, arrisquei publicá-lo com erros e tudo. Esse texto tem mais virtudes que defeitos. Como sei que ainda devo mexer pra valer no texto, depois peço a minha revisora e incentivadora Celêdian Assis para observá-lo de perto. Acreditem, deve ficar melhor ainda. E a você, minha querida Maria Mineira, muito obrigado. Aliás, só tenho que agraqdecer ao povo mineiro ... ô povinho mode ter a literatura na ponta da língua, viu?