sábado, 11 de maio de 2013

A raposa do rabo de pom-pom

Autora: Vô Dila


Era uma vez uma raposa, muito bonita muito garbosa. Aparecia sempre no campo, bem arrumada, com o pelo lustroso, os dentes muito brancos, bem afiados, as orelhas em pé, uma gracinha.

Muito paquerada pelos raposos, vivia uma vida folgada na floresta, com a família Raposina. Todas as raposas têm na floresta os alimentos que necessitam para viver.  Por isso, é difícil vê-las perambulando.  Porém, nem tudo o que parece, é como parece.  E a raposa Rabo de Pompom, apesar de tão bonita, tinha um grande defeito, que ela escondia das outras raposas: é que ela fugia à noite, para furtar galinhas!  Furtava em todos os galinheiros que havia nos sítios perto da floresta.  Estava tão gordinha e lustrosa, mas era de tanto furtar e comer galinhas gordas.

Numa noite, como de costume, ela saiu para furtar, mais uma vez.  Havia dado uma vontade muito grande de comer galinha gorda. Andou, andou, foi no primeiro galinheiro, porém o galo estava acordado tomando conta das suas fêmeas, e deu o alarme:

- Cocorocó, có co, co cooó.

Os donos da casa acenderam as luzes do quintal.  Com essa reação inesperada, não havendo como praticar o furto, a Rabo de Pompom desistiu desse galinheiro e foi em procura de outro.

Entrou por uma estradinha, andou, andou, até que encontrou outro galinheiro, que também ela estava habituada a furtar. Nesse galinheiro nada encontrou, pois o dono, cansado de tanto ser furtado, vendeu as galinhas que restaram, e desistiu de criar as aves.

A Rabo de Pompom não desanimou.  Agora nem só estava com vontade de comer galinha gorda, como também estava com muita fome, porque havia caminhado bastante.

Lembrou-se de outro galinheiro que ficava num sítio, não muito longe dali, e para lá seguiu.  Chegando ao local, nada!

Os donos haviam fechado o galinheiro com um grande cadeado, e ela não sabia como abrir.  Já estava quase desistindo, quando se lembrou de que a velha, dona Tutonha, criava duas galinhas e um galo.  Sabia também que uma das galinhas, a carijó das pernas curtas havia chocado e estava criando os pintinhos.

A outra não!  Essa - a vermelhona das pernas calçudas, estava bem gorda e botando ovos todos os dias.

Então Rabo de Pompom disse, na linguagem dos bichos:

- É ela, é ela, a vermelhona calçuda, que vou furtar e comer todinha.

O que a Pompom não sabia, nem desconfiava é que a velha Tutonha havia montado uma armadilha na entrada do galinheiro, para pegar ladrões.

A Velha Tutonha gosta muito das suas galinhas e de todos os animais domésticos que vivem em seu sítio da casa de palha pobrezinha. Pois bem, Rabo de Pompom levou adiante o plano de furtar a vermelhona, e foi: - Pé, ante-pé, na maior treita ela foi indo; quando passou na entrada do galinheiro, a armadilha.

Funcionou, e zaapt!  Cortou o rabo da Pompom. Ela recuou e voltou correndo aos gritos, desesperada, dizendo na linguagem dos bichos:

- Ai, ai, ai, me acudam, tá doendo. Uai, ui, ui, perdi meu rabo, agora estou cotó! ...  Nenhum raposo vai me querer assim... Qual apelido vão me botar? ...  Uai, ui...

Nesse desespero correu de volta, mas não queria se apresentar na matilha sem seu famoso rabo; ainda por cima - como dizem -, uma cotó! E, pensando alto, dizia na linguagem dos bichos:

- Oh!...  Que humilhação, que humilhação, grande humilhação.

Desse modo, se lamentando seguiu estrada afora, sem destino certo, em total desespero. Aí, lembrou-se de uma amiguinha muito esperta, uma baixinha que tem o nome de Fuinha.

Foi procurá-la na toca. Chegando ao local, bateu palmas; Fuinha veio 
atender e convidou-a para que entrasse na toca. Após - muito 
admirada perguntou na linguagem dos bichos:

- O que é que foi isso, amiga Raposa?  Cadê seu bonito rabo de Pompom?

A Raposa, muito triste, contou tudo o que havia acontecido e pediu ajuda. Fuinha ouviu com atenção; após, pensou, pensou, e disse na linguagem dos bichos:

- Tá bem, eu vou te ajudar; sou esperta, entro em qualquer buraco, conheço a velha Tutonha, sei onde é o sítio dela. E te prometo ir até lá procurar. Vou encontrar e trazer teu rabo. Com cuidado vou costurá-lo no lugar. Porém, não tenho linha nem agulha.  Terás que ir à casa do Bicho-da-seda pedir a ele um fio do seu novelo. Depois irá procurar o Porco-barrão, e pedir a ele uma cerda do seu lombo, para eu fazer uma agulha.  Feito isso, e aqui chegando com esses apetrechos, pegarei a cerda do Porco-barrão, e com ela farei uma agulha; na agulha enfiarei o fio do Bicho-da-seda, e remendarei teu rabo.  Agora vai logo, procures chegar antes do sol se por, porque senão o rabo apodrece, e aí não tem mais jeito.

A Raposa sabia onde encontrar o Bicho-da-seda, e foi à sua casa. Lá chegando contou tudo o que aconteceu e fez o pedido.  Bicho-da-seda disse:

- Só dou um fio do meu novelo se você trouxer folhas de amora para eu comer.

A raposa concordou e saiu correndo em busca da iguaria.  Entrou na mata e quando voltou trouxe um galho bem folhudo de amora, entregando-o ao Bicho-da-seda.  Bicho-da-seda puxou das costas um fio bem grande do seu novelo, enrolou e deu para a Raposa.

Rabo-de-pompom guardou o fio, agradeceu e partiu à procura do Porco-barrão.  Nisso, o sol já havia declinado muito; passavam das quinze horas; era grande o perigo de não poder cumprir a tarefa a tempo. O rabo, se apodrecido, não mais poderia ser implantado. Saiu em disparada.  Depois de muito percorrer, perto de um alagadiço, encontrou Porco-barrão fuçando o chão à procura de alimento. Ela chegou até ele, contou tudo e pediu uma cerda do seu lombo.

Porco-barrão parou de fuçar e disse, na linguagem dos bichos:

- Só dou minha cerda se você me trouxer uma jaca bem grande para eu comer.  Há horas que futuco todo esse chão e ainda não encontrei nada para comer.

A Raposa disse:

- Está bem, e partiu à procura de uma jaca. Entrou na floresta, andou, andou bastante, e tendo encontrado um vale muito fértil, nele avistou uma jaqueira. Correu para ela.  Felizmente a fruteira estava bastante carregada. Então ela colheu um jaca, bem grande e madura, colocou sobre o lombo e voltou a toda carreira, para satisfazer a exigência do Porco-barrão. Ele ainda estava a fuçar a terra à procura de alimento quando a Rabo-de-pompom chegou, ofegante, e lhe entregou a jaca.

Pouco faltava para o final da tarde.

O Barrão recebeu o fruto pedido, comeu, comeu até fartar-se. Após deitou, arrepiou-se todo e disse:

- Vamos agora você pode colher tantas das minhas cerdas quantas necessitar!.

A raposa colheu só uma que precisava; agradeceu na linguagem dos bichos, e partiu de volta a toda pressa, pois o dia estava se acabando, e o rabo poderia apodrecer.

Depois de ter corrido muito, enfim alcançou o buraco da casa da Fuinha, que já estava esperando, muito nervosa - soprava o rabo da amiga para esfriar e assim conservá-lo, foi logo perguntando:

 - Trouxe tudo que encomendei?  A resposta foi sim.  Então, disse:

- Deite-se aí no chão, tome estas folhas, vá esfregando no traseiro para desinfetar; olhe para o lado e nada de dar chilique.

A Raposa obedeceu, e a amiga começou o trabalho enfiando o fio do novelo do Bicho-da-seda na cerda do Porco-barrão; depois pegou o rabo da Pompom enfiou no lugar, enquanto ela gemia de dor.

- Cale essa boca - disse a Fuinha. Termino com isso num minuto! 

 Continuou o trabalho, costurando, costurando, com muito cuidado até que terminou a operação.

- Vai agora balança aí esse teu rabo-de-pompom para eu ver se ficou firme.

A paciente sacudiu o rabo, abanou para um lado abanou para o outro, para cima, para baixo e concluiu:

- Meu rabo está novinho em folha; está ótimo!  Deu um beijo de agradecimento na amiga Fuinha, despediu-se e voltou para o raposal. Nunca mais furtou galinha.  Já se casou, tem muitos filhotes raposinhos.

  
Autora: Vô Dila - Ipirá/BA


Publicação autorizada

Nota:
Eu fico criança nos dias de Lua-cheia.
Porém,  não encontrando parceiros para.
Brincar ofereço meus folguedos aos adultos.
A “massa” não se importa se a mula manca!

2 comentários:

Carlos Lopes disse...

Seja vem vindo ao Blog Vô Dila. Um abraços em nome de todos.

Maria Mineira disse...

Fico muito feliz de ver aqui no blog, um conto do Vô Dila. Ele é meu querido amigo e avô de coração.Carlos, obrigada por publicar o texto.