quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Tabira da minha infância - Texto de Carlos Lopes

(...A Tabira que conheci na minha infância ainda aflorava no seu entusiasmo da juventude e como seria natural tinha também suas carências. Morar por aqueles lados do Alto do Pajeú significava viver isolado e renegado dos privilégios destinados às cidades mais próximas da capital).

Texto retirado para compor livro

Carlos Lopes







Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE

Fraldas de pano, um lindo balé ao sol! - Autor: Carlos Costa


Um lindo e perfeito balé de fraldas de pano dançando ao sol e conversando com o vento!
Era assim que eu via as fraldas brancas de algodão, lavadas com sabão Cutia, e lançadas ao sol para secar em varais, com pregadores de roupa que pareciam cabeças de pessoas presas às cordas!
Como não é possível atribuir a uma só pessoa o invento da fralda descartável, pois foi resultado de um somatório de pequenas melhorias e, como isso também não é relevante na crônica, deixarei de informar que nos anos 40 nos Estados Unidos ocorreu uma escassez de algodão devido à guerra.
Também nada escreverei que foi na Suécia que surgiu a primeira fralda descartável no mundo, e que também na mesma década e semana, nos Estados Unidos, Marion Donovan inventou uma capa impermeável para proteger a fralda da saída de líquidos, resultado de urina e fezes feitas pelas crianças, porque isso também não relevante.
Como também nada direi que as primeiras fraldas foram produzidas com restos de cortinas de banho e, que em seu interior, eram colocados panos convencionais de algodão que, se tornavam lindas e colocadas para “quarar” ao sol, produziam efeito de bandeirolas brancas com um efeito de paz, balançando ao sol! Achava lindo aquele balé frenético de panos dançando ao sol e ao vento.
Via aquilo com olhos arregalados de menino que tinha pressa em crescer para frequentar filmes impróprios para menores de 12, 14, 16 e de 18 anos, e quando passei a frequentá-los, eram apenas filmes de violência e não tinham nada demais! Os impróprios para menores de 18 anos, também não tinham nada demais!
Havia os chamados “ladrões de roupas” ou de “galinhas”, que entravam nos quintais das casas sem muro e levavam tudo o que podiam roubar. Mas para quê os ladrões levavam as fraldas de pano, que mais pareciam bandeiras brancas, em minha imaginação de adolescente sonhador? Será que os ladrões as levavam para colocá-las em suas crianças? Nunca haverei de saber! Ah!
Ah, mas como era lindo ver um balé de fraldas brancas balançando ao vento, pedindo paz para não morrerem tão rapidamente com o advento das fraudas descartáveis, que tiraram toda essa beleza e romantismo no balé que existia nas fraldas de pano!
Ah, isso era lindo demais!

Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Publicação autorizada através de e-mail de 07/04/2012

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Meu filho no cinema pela primeira vez! - Autor: Carlos Costa

- Está muito “curo” aqui. Pai liga a luz!
Era e meu filho adolescente, na época com seis anos apenas, quando o levei pela primeira vez em um cinema, dentro de um shopping.
Largou de minha mão em que eu conduzia e correu para dentro da sala de cinema. Depois, olhando que era escuro, retrocedeu e me disse: “Pai, tá muito “curo”. Liga a luz! Onde fica o botão?”
Depois de explicar-lhe que não poderia ligar quaisquer lâmpadas, meu filho tascou de novo:
- Pai, me empresta o“controlho” que quero ligar essa televisãozona, referindo-se à tela de projeção e pedindo-me o controle remoto para o que, na cabeça de meu filho, era uma televisão gigante.
Depois de novamente explicar-lhe que aquilo era um cinema e que dentro em breve assistiríamos a um filme, meu filho me encheu de novo, não antes de falar para ele que havia uma sala, um projetor etc.,
- Pai, onde fica o projetor e por que não se pode ligar luz aqui dentro. Tá muito “curo”.
- Porque não pode e o projetor fica lá atrás, respondi, só para ver se ele parava.
Ufa! Começou a projeção e novamente meu filho me pergunta:
- Pai porque os homens se movimentam!
- Quieto, meu filho, já está começando a projeção do filme e não podemos ficar conversando se não vamos perturbar os outros e olhei para o lados...Estava quase cheio.
- É mesmo...pai, não podemos perturbar os outros, por quê?
Já estava perdendo minha paciência com meu filho quando ele finalmente parou de me fazer perguntas e assistimos ao filme em paz e em silêncio como deve ser.

Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Publicação autorizada através de e-mail de 13/02/2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dedé Calango - Autor: Roberto Rêgo

Waldemar Pereira, vulgo “Dedé Calango”,  morador no “Arraial do Carrapicho”, distrito de São José do Brejo Seco, interior mineiro, era um sujeito que vivia de biscates por falta de profissão e um emprego decente. Seu maior sonho era empregar-se com carteira assinada e tudo. Casado com Dona Gertrudes, tinha uma filha de seus dezessete anos, a Risoleta, chamada pelos pais de “Santinha”, virgem bela e de muita formosura. Os três formavam uma família feliz e eram  bastante queridos naquela comunidade.

“Dedé Calango” ficou todo ouriçado quando soube que a Prefeitura abriu três vagas para contratar garis, mediante uma provinha simples e exames médicos. Preocupado ao extremo, procurou ajuda de alguns conhecidos, fez promessa ao santo padroeiro, rezou muito e acabou passando no teste, juntamente com dois outros conterrâneos seus, o Mundico e o Sinfrônio. Eufórico com o resultado, voltou a se preocupar  agora com os exames médicos, lembrando que quando criança teve muitos vermes e seu organismo ficou debilitado pela esquistossomose. Pensou muito e resolveu falar com Dona Gertrudes:-

“- Olha aqui, Gê, tou pensando nesses exames que vou ter de fazer pro emprego na Prefeitura, sabe? Exames de fezes e de urina. É bem capaz de num dar certo! E se a gente pedisse pra “Santinha” fazer xixi e cocô no meu lugar? Ela é nova, tem muita saúde e com certeza vai passar nos exames.”

Sua mulher estranhou a idéia, mas terminou concordando com o plano do marido. Falou com bastante jeito pra “Santinha”, explicou que seu pai dependia daquele emprego e ela acabou aceitando fornecer o material, que foi colhido e entregue, no nome do pai, ao laboratório municipal para as análises de praxe.

No dia marcado para a entrega dos resultados, os três candidatos compareceram ao Posto de Saúde do “Carrapicho”. O Mundico e o Sinfrônio tiveram resultados positivos e foram liberados para providenciar documentos para contratação. Quanto ao “Dedé Calango”, foi chamado em particular pelo médico à sua sala. Ele entrou meio cabisbaixo, amarelo que nem cera, sempre pensando no pior. E o doutor, raspando a garganta:-

“- Seu Waldemar, o exame de fezes tá legal mas quanto ao de urina ... Eu não sei como dizer isso, mas o fato é que ... o senhor está grávido! Gravidíssimo, Seu Waldemar! ...”

O pobre do “Dedé Calango” ergueu-se, levou a mão à testa fria e soltou um grunhido:-

“- Deus do céu, e agora, minha “Santinha” ???  – e caiu desmaiado!


Autor: Roberto Rêgo - Belo Horizonte/MG

Publicação autorizada através do e-mail de 20/01/2012

Eu também fui à lua - Autor: Augusto N. Sampaio Angelim

Já era perto da meia-noite e, embora fosse julho, mais precisamente o dia 20, do ano de 1969, fazia calor. Desde cedo que eu me preparava para o grande acontecimento. Nem sabia direito do que se tratava, mas tinha escutado meu pai falar na hora do almoço e fiquei numa grande inquietação e, finalmente, ia acontecer.

Um ventilador enorme, todo de metal, como já não se faz mais, rodava sua hélices de forma rápida, cortando o ar pesado. Mas a minha atenção estava voltada para outro objeto. Um rádio. Isso mesmo. Um rádio. Eu fui à lua através das ondas do rádio. Devia ser a Rádio Globo. O fato era que, à falta de televisão, lá estávamos um bocado de gente, na sala grande da casa de meus pais, no sertão pernambucano, ouvidos atentos ao que se dizia numa transmissão que não era muito boa. Eu já tinha iniciado minha viagem junto com a Apollo XI já fazia alguns dias. Minha imaginação voava, mas voava muito mesmo. Eu ficava a pensar até como seria o ar na lua, se era denso, se tinha cheiro, se fazia frio, como seria a luminosidade do terreno e o solo propriamente dito. E tinha sérias preocupações com o sucesso da missão e a vida dos intrépidos heróis espaciais. Finalmente o homem do rádio, numa euforia parecida com a narração de uma partida de futebol, anuncia, quase perto da meia-noite, que NEIL ARMSTRONG pisava na lua. Era o primeiro homem a fazer, depois da minha singularíssima pessoa (como diria Augusto dos Anjos) e dos meus pensamentos. Pois bem, homem tinha chegado lá e minha ansiedade e nervosismo tinham diminuído, pois tinha medo que alguma coisa desse errado. Os nomes dos astronautas ficaram na minha memória EDWIN ALDRIN, que tinha o engraçado apelido de BUZZ (zumbido) e MICHAEL COLLINS. O mundo inteiro era companheiro dessa viagem. Calcula-se que mais de 1 bilhão de pessoas assistiram, via satélite, esse feito.

Lembro das conversas dos mais velhos a respeito. A maioria gente simples, analfabeta ou semi-analfabeta, a discutir fervorosamente se era verdade, ou não, que o homem tinha ido à lua. E a distância, quando se falava em 380 mil quilômetros, aqueles homens e mulheres acostumados a medir caminhos em léguas (seis léguas correspondem a um quilometro) não acreditavam que isso tivesse ocorrido. “Seu Damião Balbino”, amigo de meu pai, homem correto, de opiniões incisivas, duvidava plenamente disto, explicando que não seria possível. Ele dizia: “Primo! Isso não pode ser verdade”. (Seu Damião chamava a todos de “primo”) Mas eu sabia que sim. Eu tinha certeza! Outros, mais incrédulos ainda, foram lá fora olhar o céu e voltaram com ares de vitória, dizendo que não tinham visto nada diferente lá na lua que estava no céu. São Jorge continuava lá, não havia novidades. Contra esses, lancei meu olhar de reprovação. Eita gente ignorante! Mas meu pai sabia, assim como eu, que o homem tinha chegado à lua e que tudo que o homem do rádio dizia era verdade. Eu tinha 08 anos. “Este é um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade”, foi dito e nascia em mim uma espécie de certeza cega na ciência, na tecnologia, que foi uma palavra que escutei meu pai falar várias vezes naquela memorável noite. Ainda me lembro dos ruídos do rádio, do som produzido pelo ventilador. Assim, também, posso dizer que fui à lua. E fui mesmo.

Autor: Augusto N Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE

Página do autor: http://recantodasletras.com.br/autor.php?id=29657
Publicação autorizada através de e-mail de 13/11/2011

O que aprendi na vida ... - Autor: Carlos Costa

...que a vida não vale nada. Depois de morto,  iremos todos para o mesmo lugar, da mesma forma, dentro de um caixão! Que os “amigos” somem e que outros amigos aparecem de onde não esperamos que pudessem estar.
...que não levamos riquezas, vaidades, cultura, educação, conhecimentos, nada. Essas coisas são importantes, mas só para nos ajudarmos a viver! A cultura nos causa destaque; os conhecimentos nos ajudam a expressar nossas idéias.
...”que é mais fácil perdoar do que ser perdoado”, como já afirmara São Francisco de Assis. Em casal, casamentos, há brigas, discussões,  mas também paz muito amor depois dessas discussões que os ajudam a melhorar as relações...
...que os filhos nascem, crescem se casam e nos deixam sós; alguns voltam para nos visitar. Outros nem isso fazem. Uns nos amam verdadeiramente e expressam, outros não expressam, mas talvez nos amem também. Mas tudo isso faz parte da vida! Eu quase não visito minha mãe mais é meu modo, jeito de ser e ninguém poderá mudar isso em mim, mas a amo muito e verdadeiramente e só expresso minhas emoções através da escrita!
...também, que é mais fácil amar incondicionalmente do que ser amado. Ama-se a mãe, a primeira namorada, a primeira paixão e depois a esposa. Aprendi com a vida que se [ode amar muitas vezes e se apaixonar várias vezes também...mas pela mesma pessoa! Outras paixões ocorrem, mas são prejudiciais às relações harmoniosas!
...depois que morremos ficamos todos imóveis, sujeitos a cortes, necropsias, laudos; então para quê tanta arrogância, tantas loucuras, tanta agressividade? Isso não serve para nada! Servem só para mostrar nossas indignações porque só aos vivos é dado esse direito!
Temos que viver intensamente, enquanto somos capazes de respirar e sejamos humildes, vivamos do que nos dá prazer...É o prazer que sentimos pela vida, o principal motivos para continuarmos vivos! Depois que se perde o prazer pela vida, podemos morrer e não faremos qualquer falta.
Para quê matar, usar drogas se a vida é melhor se vivendo em paz e lúcido? A droga é perturbadora para a alma e o espírito. Então, para que viver drogado, sem sentir o prazer dessa vida que é bela? Por que viver sob efeito exagerado do álcool? Dentro dos limites de tolerância, o álcool pode até ser aceito e tolerado...mas alguns parecem que querem fugir do mundo e bebem desesperadamente como se fossem morrer no dia seguinte!
Há sete anos sobrevivo tomando oito remédios diários que me causam efeitos colaterais terríveis, mas não me queixo. Estou apenas tentando prolongar os últimos dias de minha vida e, quando chegar minha hora, sei que não enganarei a morte, mas não sinto que estarei preparado para ela porque amo viver!
Isso tudo foi o que aprendi da vida e com a vida que levo, com minhas dores, sofrimentos, dificuldades, remédios, cirurgias, enfim...Mas continuo vivo! Isso é o que importa!
Autor: Carlos Costa – Manaus/AM
  Publicação autorizada através de e-mail de 07/02/2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Casa própria - Ricardo Garopaba Blauth


entrar na própria casa
sentir seu próprio teto
saber que o esforço valeu
que energias aqui embutidas
que o calor das “coisas” da gente
estarão sempre ali
todos os dias
esperando por nós
basta abrir a porta
agora nossa porta
e deixar lá fora
o que não merece entrar
pois aqui o sabor
do saber do caminho
até aqui trilhado
é unicamente nosso

Autor: Ricardo Garopaba Blauth - Garopaba/Santa Catarina

http://cronicasetextosrblauth.blogspot.com/
http://atelierecontatorblauth.blogspot.com/
ricardo@blauth.com.br
Publicação autorizada através de e-mail de 24/02/2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Cada doido com sua sabedoria - Autor: Eurico de Andrade

Padre Anacleto ia pra Perdição. Estradinha a fora, cheia de buracos e de poeira, dirigindo seu fusquinha velho. Curva em cima de curva. Matão danado em volta. Se Tabuí já é sertão, imagine só o que era o sertão de Tabuí. Fusquinha ora engasgava, ora tremia, ora dava umas rateadas, mas ia indo. Subida então, era um desarranjo. Carrinho aprontava berreiro danado, soltava fumaça por tudo quanto é buraco, mas ia rodando. Seu vigário um tanto quanto pesado.

Aí chegam os dois, Padre Anacleto e o fusquinha, no matão mais fechado. Aquele onde todo mundo falava que tinha umas onças... Bichanas nem podiam sentir cheiro de carne humana que tavam em cima da carniça. De tão fechado o mato, parecia até que tinha escurecido. E, para arrematar, povão dizia que assombração ali também era mato. Sô vigário não acreditava muito nessas coisas não, mas por via das dúvidas, era bom ficar prevenido. Foi lá que aconteceu a desgraça: pneuzinho careca do fusquinha furou. Rodar com pneu furado prejuízo na certa. Paróquia pobre. Padre pobre. Sair do carro risco grande demais. Coragem pouca. Padre Anacleto craneia, craneia e não acha solução. Nenhum vivente à vista. Ninguém para uma demãozinha. Viu que tava mesmo cagado de arara. Casamento lá na Perdição tinha hora marcada. Noivinha já devia estar chegando à igrejinha na charrete toda enfeitada. Agoniada esperando a grande hora.

Com um friozinho na barriga coitado do padre resolve sair do carro e trocar o pneu. Rezando o Creindeuspadre. Atento a qualquer barulho. Suando frio dentro da batina larga e puída. Olhando de rabeira pra tudo quanto é sombra. Pronto para refugar frente a qualquer sinal suspeito. Trabalhão danado pra tirar pneu furado. Mãos acostumadas a rezar missa, sem traquejo com chaves, macaco e parafusos. E a tralha velha não colaborava: macaco sem óleo, chave da boca maior que as cabeças dos parafusos... Tirou o bicho mais no muque, com uns palavrões seguidos de Padrenossos, do que com a ajuda do macaco e da chave de rodas. Pegou a calota, virou-a de boca pra cima e nela colocou cuidadosamente os quatro parafusos pra não perder nenhum e nem pegarem poeira. Como o carrinho estava meio mole, freio de mão avariado, resolve procurar uma pedra para calçar o danado. Bem no barranco, assim perto duma moitinha, vê uma pedrona boa. Borrando de medo, mas com muita fé em Deus, sai de perto do carro e vai pegá-la. Um pé na frente e o outro atrás, pronto para a refugada. Quando tá com a bruta nas mãos, fazendo força, ouve um barulhão dentro da moita. Sente aquela friagem na espinha, pernas amolecem, coração acelera e os poucos cabelos arrepiam. Mas instinto de sobrevivência fala mais alto e o pobre do Padre Anacleto sai numa desabalada corrida carregando a pedra. Reto no rumo do fusquinha. Chega perto do carro, solta a dita cuja de qualquer jeito e tafuia dentro dele esperando pelo pior.

Fica no quieto tempão danado, a ponto de rezar quase todo o rosário, e... nada. Bicho nenhum aparece. Nem assombração. Negócio era criar coragem novamente e voltar ao que tinha começado. Melhor pensar que o barulho era de algum lagarto ou de um gato do mato assustado. Assim que o padre sai do carro é que vê a burrada que fez. A pedra caíra na borda da calota e, com a queda, jogou os parafusos pra longe, no meio do mato. Achá-los, impossível. Procurar, nunca. Desespero toma conta do coitado. Xinga umas palavras em italiano, mas rapidinho se arrepende e pede perdão a Deus. Já sujo, molhado de suor, rezando baixinho, com fome, senta lá dentro do carro esperando solução. Noite chegando. Medo agoniado e inconfesso espremendo o peito.

Depois de muito rezar, vê um vulto aparecer lá no alto do morro. Põe óculos, tira óculos... E o vulto descendo. Devagarinho. Pára, anda, pára de novo. E o Padre Anacleto tremendo e butucando de olho arregalado:

- Ai Dio mio, agora é sombração mesmo!... O que que eu fiz de errado, meu Deus? Virgem!...

O santo homem sente vergonha de si mesmo, do medo que estava sentindo e se lembra até dos sermões que fazia na missa do domingo contra essas crendices pagãs. Na prática teoria era outra. Novamente põe óculos, tira óculos e o vulto vindo. Sem pressa, naquele mato escurecente. Quando o vulto chegou bem perto foi que o Padre Anacleto entendeu que era gente. Gente de verdade. E não é que ele conhecia o dito? Era o Dejalma. O doido lá de Tabuí.

Aí Padre Anacleto se encheu de coragem e saiu do carro. Foi com santo alívio que cumprimentou o recém-chegado:

- Boa tarde, Dejalma! O que que anda fazendo por estas bandas, figlio mio?

- Tarde!

- Tá passeando, Dejalma?

- Pensano!...

- Pensando em que, Dejalma?

- Cê leva ieu?

O padre pensou consigo mesmo: "que adianta eu querer conversar com este maluco? O maledetto não diz coisa com coisa mesmo!". Mas, como não queria perder a companhia, mesmo sendo de um lelé da cuca, continuou o papo como se fosse tudo dentro da maior normalidade.

- Levar, levo, figlio! Negócio é que o pneu tá furado...

- Por que ocê num troca?

- Era o que eu ia fazer, Dejalma, mas perdi todos os parafusos desta roda e não tenho outros para colocar no lugar...

Dejalma parece que esquece do que estavam falando. Fica olhando pro mundo. Resolve dar uma volta em torno do carro como se o examinasse com olhos de comprador. Olha daqui, olha dali... Desenha uma careta no vidro empoeirado... Dá uma risada... Abre porta, fecha porta... Pára. Olha pra moita na beira do barranco onde vê um pé de murcha-mulata carregadinho de flor. Vai lá, pega um galhinho e vem cheirando. Sô vigário só de butuca. Quando ia perguntar se podia contar com aquela companhia maluca noite a fora, naquele ermo, Dejalma dá uma aspirada na murcha-mulata e olhando para um ponto fixo no espaço, diz:

- Por que ocê num tira um parafuso de cada rodeira e põe nessa?

Foi tudo muito rapidinho. Padre Anacleto e o Dejalma chegaram à Perdição quando a noiva, triste e chorosa, estava dentro da charrete pronta pra ir pra casa e o povão já indignado com o que seria uma grande desfeita do seu vigário. Ninguém entendeu foi porque o Padre Anacleto estava andando na companhia daquele maluco. Também ninguém perguntou. Povo da Perdição é assim: não é especula, só sabe o que é pra ser sabido.


Autor: Eurico de Andrade - Brasília/DF

Publicação autorizada através de e-mail de 05/02/2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vai sarar ... (Texto cedido pelo blog Casal 20)

          Quando eu era criança, me escondia sempre que alguma coisa ruim estava acontecendo. Uma discussão entre meus pais, uma confusão, enfim, me escondia.

          Não necessariamente num esconderijo. Muitas vezes, me escondi atrás de uma “sutra”, de uma oração que eu não sabia ao certo para quem direcionar (na época), me escondia atrás de uma conversa em voz alta com a minha bisavó... Me escondia e, se não fosse demais, tapava meus ouvidos.

          Certa vez, apartei a briga de duas colegas na escola, entrando no meio delas e levei uma unhada no rosto que me deixou uma marca gigantesca!

         Cheguei em casa, relatei o fato para minha mãe, esperando um afago, uma solução e, ao contrário, levei uma bronca e ouvi: “Espere só quando seu pai chegar”.

          Aquilo me deu um pavor tão grande!

          Meu pai chegou e eu, ingênua, achei que de alguma forma, ele não veria o machucado (que começava bem abaixo do olho e descia até a boca). Comecei a tremer. Pensei em alguma maneira de fugir, mas fiz o que sabia fazer: me escondi.

          Quando ele me viu, nem fez tanto alarde assim. Falou da minha irresponsabilidade ao entrar no meio de uma briga, enfim, tudo o que um pai deveria dizer nesse momento.

           Hoje sou mãe.

           Me aterroriza a idéia de que algum de meus filhos seja machucado na escola por qualquer motivo! Mais do que isso, me aterroriza a idéia de ver meus filhos se escondendo de qualquer coisa, seja ela uma briga ou um sentimento.

           Hoje estava aqui, pensando sobre isso e me veio uma imagem na cabeça: uma menina sentada, escondida, tapando os ouvidos para não ouvir os berros do pai saindo de casa com sua mala e, em seguida, chega sua mãe, a abraça longamente, tira um band aid do bolso, coloca sobre o coração da menina e diz: “Vai sarar”.

           Pequenos gestos que não pensamos em fazer na hora certa. Eles provavelmente não resolvem o problema, mas confortam e dão esperanças.

           Espero que todos tenhamos alguém nas horas de angústia, de perda e de sofrimento para, mesmo que com apenas um gesto, nos dar a certeza de que, não importa o quê, vai sarar.

Texto cedido pelo blog: Casal20 - Araguaia/MT

Texto de propriedade do blog: ¨Palavras¨da ligian

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Minha vida em um espelho - Autor: Carlos Costa

Decidi entrar em um túnel do tempo para rever o que fiz nesses quase 52 anos de minha vida, que completarei no dia 13 de fevereiro, sem festas. Voltando ao passado...

...eu me vi correndo em companhia de João Couto da Silva e outros garotos de minha idade, empurrando carrinhos construídos com latas vazias de leite, cheios de areia, com um arame passado ao meio pela Rua São Benedito, no Morro da Liberdade, imaginando-os serem tratores em que meu padrinho dirigia no Der-Am, ou compactadores que ele nunca dirigiu, ou empurrando aros de bicicletas com um arame para dar-lhe equilíbrio; ou pneus de carros, que também usávamos com o mesmo propósito, transportando um corpo que não pesava mais do que uns vinte e poucos quilos.

Depois, me vi comprando uma caixa de isopor e diariamente, no horário da tarde, enchendo-a de picolé, gritando pelas ruas do bairro “olha o picolé”; ou batendo em um triângulo para anunciar que o “cascalheiro” estava chegando. Com o Roque Almeida Lima e outros colegas de grupo escolar Adalberto Vale, lembro que ganhei meu primeiro prêmio “importante”: uma “vitrolinha” amarela, com braços e agulha para se ouvir os compactos e LPs da época, os antigos “bolachões” como eram carinhosamente chamados esses discos pretos da época. O Eduardo Silva, outro grande amigo, estudou comigo.

Lá, no Grupo Escolar tive minhas paixões de adolescente, por colegas de sala...A Maria foi uma delas. Caminhei do Morro ao Educandos com minhas mãos coladas às dela sem dar uma única palavra. Suadas as nossas mãos começaram a apanhar por não sabermos marchar direito. E tome régua na mão, com prego na ponta!

A troca de anéis que usávamos para provar que estávamos namorando sério era uma das práticas comuns.

Professoras Rosa Eduarci, falecida e Francisca, a “Chiquinha”,Aidée outras tantas que marcaram minha adolescência e foram importantes em minha vida, onde andam?

Depois, me vi vendendo jornais pelas ruas de Manaus na saída do Cais do Porto, na porta dos Correios, na esquina da Rua Marechal Deodoro.

Tantas e tantas vezes tivera que “prestar contas” ao X-9, no “Tabuleiro da Baiana” ou ao “Buraco”, que me entregava os jornais na porta de A Crítica, do dinheiro arrecadado com as vendas!

Também me vi com o peito ralado quando pulei de um ônibus Ana Cássia e contei em casa que tinha escorregado de um carrinho de rolimã, descendo na ladeira da Avenida Adalberto Valle. Depois me vi com minha primeira namorada; ou quando escorreguei de uma moto pequena em frente ao Jardim Brasil, na Avenida Silves, que estava cheia de areia, quando quase não se via carros nas ruas.

...minhas primeiras namoradas da adolescência. Maria Luiza, foi uma delas. “Umas, amei; outras apenas certo tempo fiquei”, mas tive “amores de um tipo assanhado, de um tipo atrevidas”.

...me vi em companhia de outros colegas, em outra Escola, a Dorval Porto, ao lado de Luiz Eron, Maria Farias de Souza! As professoras Júlia da Silva Cunha e Alice Fabrício da Silva, que as deixei pelo caminho! Onde andam vocês? Estou com saudades!!

Também vi comprando minha primeira bicicleta velha, quase sem freios e pedalando quase três quilômetros só para namorar.

No túnel do tempo em que estou agora, me vi vendendo velas, acompanhada de fósforo ou flores de plásticos para enfeitar sepulturas de defuntos, na calçada da Indústria Amapole, no Morro da Liberdade, em frente à mercearia de “Seu” Panta, que tantas vezes me transportou em seu barco pelas águas barrentas do Rio Solimões, quando ainda estudava na casa de minha tia Terezinha da Costa Amaral, no “Varre Vento”, onde morei, mas não nasci.

Depois, revi as famílias COSTA, onde fui adotado e BEZERRA, que adotei, ambas para trabalhar, em momentos distintos, mas sempre tratado-me como um filho. Onde andam os irmãos adotivos, Luiz Augusto, “Nadinho”, “Cacau”, Eliane, Thelma? E Francisco Bezerra Jr., o João Bezerra, Carmem Iza? Ah, que saudades!

Cinemas? Frequentei a todos! Mas não entendo porque o dono da maioria dos cinemas em Manaus, Adriano Bernardino, não tenha sequer uma homenagem! Se tantas pessoas com menos importância já foram homenageadas!!!

Depois, quanto entrei em uma redação de jornal pela primeira vez foi como estivesse promovendo uma festa ao meu coração que bateu acelerado. Quando abandonei a redação dos jornais, no auge para decidi mudar de profissão, me recordo da “saudável briga” com a hoje colega assistente social Telma Amaral, no quinto período do novo curso. Lembro-me com saudade das colegas Tina, Ana Claudia e tantas outras. Onde andam vocês?

Continuando em meu túnel do tempo particular, recordo que em sala de aula, já como professor do curso de Serviço Social, perdi totalmente a audição e meus alunos nem notaram que eu próprio nem estava me ouvindo.

Dr. Hélio Ferreira da Silva, médico e amigo, pedindo para não operar. Mas fiquei surdo para ele também e fiz a cirurgia. Queria ouvir de novo a voz de meus amigos, de meus alunos. Isso nunca mais aconteceu porque fui infectado por duas bactérias hospitalares incuráveis!

Depois da cirurgia, vi um anjo de luz na forma do Dr. Dante Luis Garcia Rivera, que aceitou continuar o tratamento. Lembro também do diagnóstico de câncer em metástase que recebi do médico, Dr. Carlos Backer, de São Paulo.

Os médicos Antônio Almeida e Valéria Moio, em SP. Ah, que agradáveis lembranças por eu ainda estar vivo! Lembro-me de ter tido um AVC e retornado em cadeira de rodas para Manaus. De amigos verdadeiros que nunca me abandonaram!

Só não lembro mesmo como as duas bactérias infectaram meu cérebro, aos 46 anos de idade, produzindo pus seguidamente e me fazendo baixar hospital para novas drenagens. Livros publicados, prêmios recebidos, biblioteca com meu nome, são lembranças boas mas sei que nada restituirá à vida com ela fora um dia. Lembro também dos amigos que ficaram ao meu lado, não muitos; mas sinceros.

Revendo minha vida toda, nada guardo de rancor contra ninguém. Tenho muito a agradecer e nada a pedir: agradeço a Deus por ter me permitido chegar aos meus 52 anos de vida não com boa saúde, mas da forma que ele programou para alcançar essa maravilhosa dádiva que ainda é estar entre os amigos que tanto amo. Meu pedido aos amigos? Ah, quase esquecia: só saúde e longos anos de vida para todos!
Autor: Carlos Costa – Manaus/AM
Publicação autorizada através de e-mail de 31/01/2012