sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A flor do caroá

Autora: Maria Mineira

Aposentado da profissão exercida uma vida inteira o tempo é outro. Porém, o médico Augusto Rosa sente o coração explodir com as lembranças teimosas de sua infância. Agoniado, aproveita as férias de Cícero, seu neto e faz o convite:
 
— Quer conhecer as terras do velho Dionísio Rosa?

Chegam à localidade se reencontrando com o passado que doutor Augusto em vão tentou esquecer. Os pés de caroás não passam despercebidos, logo ele se lembra da fábrica e dos trabalhos artesanais de outrora. Se aquela antiga prensa de madeira pudesse falar...

A curiosidade e a alegria do neto acalmam o avô, mas algo ainda lhe oprime o peito, precisa espairecer. Após o menino dormir, Augusto sai para um passeio.
Em meio à escuridão, sem pensar em tempo e espaço, caminha sozinho ruminando lembranças fugidias. O céu constelado e a lua cheia boiam no leito do rio. Distraído, pisa sobre as pedras atravessando a correnteza. Estrelas espalham claridade no caminho. O pretume da noite aos poucos se dissolve.
 
Sente um frio a lhe percorrer a espinha quando vislumbra uma luminância vindo em sua direção. Envolvido por aragem nevoenta se vê cercado por cinco cavaleiros armados, vestidos à moda do cangaço. Dos quais, dois portavam Winchesters  papo amarelo e dispararam tiros para o alto. O que parecia ser o chefe deles usava na cintura uma pistola  Parabellum Lugee, arma famosa no nordeste, pelas histórias de sua potência.  Em seguida apontou-a para Augusto. Seu rosto estava sombrio e sem ao menos dar boa noite, foi logo dizendo:
—Vosmicê é dotô? Viemo te buscar. Se avie qui muié de Corisco tá cum dor.
Sem escolha, Augusto se deixou conduzir por aquele bando que vivia no calor das caatingas, saqueando ou fugindo das volantes. No lombo de um cavalo, em meio a cactos espinhentos, sol escaldante e chão estorricado, enfrentou longa e exaustiva viagem pelo sertão afora. Conduzido por estranhos, sem rumo e certeza de chegar vivo, onde quer que fosse.
Havia homens armados à entrada de uma furna. Corisco ia e vinha inquieto; Maria Bonita se via angustiada sem conseguir acalmar a companheira de rosto sofrido, deitada no chão forrado com esteira e trapos. A mulher do cangaceiro gemia alto chamando o marido que suava em bicas ao seu lado, sem poder ajudar.  Indagava a Maria, o motivo de Lampião e os outros demorarem tanto achar uma parteira. Ali, nenhuma das mulheres se arriscava tocar na padecente que gemia:
Depois de entrarem na caverna tiraram a venda dos olhos de Augusto. Incrédulo, reparou que os homens usavam chapéu de couro na cabeça, limpavam e colocavam munição nas armas de fogo, compostas por carabinas, fuzis e mosquetões Mauser de cinco tiros, modelo  militar brasileiro. Assustado verificou que tinham posse de uma verdadeira miscelânea de armas: fuzis Comblains, pistolas Parabellum, entre outros armamentos. Preparando alguma comida, em volta de trempe improvisada havia várias mulheres com vestimentas estranhas. Todas portando punhais na cintura.
Sem alternativa o refém aproximou-se da mulher estendida no chão. Tinha o ventre intumescido pela gravidez  e gemia sem parar. Havia algo errado... Trêmulo deu a ordem:
—Não quero vivente nenhum me apontando arma aqui. Se ficar esse furdunço essa moça não vai parir é nunca!
Virando-se para uma das mulheres que segurava uma lamparina de luz fraca disse:
—Alumie essa escuridão, menina!
 Augusto ajoelhou-se no chão e com as mãos mediu o ventre da mulher indagando das contrações. Assumiu o comando como se estivesse em Recife, na sala de parto do Hospital Dom Pedro II, onde passou a vida aparando criança. Coisa comum em mais de quarenta anos de profissão.
O doutor Augusto deu ordens para que trouxessem água quente. Já havia feito muitos partos. Alguns fáceis, outros complicados. Perdera a conta de quantos nascimentos testemunhara com a responsabilidade de trazer para a luz, algumas milhares de crianças.
Agora já velho e sem as mãos firmes de antigamente, num local sem o mínimo recurso; começou sentir um pavor tomando conta de todo seu ser. Só podia estar caduco. Era o que pensava enquanto corria os olhos naquele lugar e se via diante do bando de Virgulino Ferreira, armado até os dentes, esperando que fizesse um milagre.
Saiu do devaneio com o gemido da mulher. Eram as contrações aumentando. A noite seria longa e o parto muito difícil.
Trouxeram um caldeirão de barro cheio de água quente, como havia pedido. Então molhou panos e colocou compressas quentes na barriga da mulher do cangaceiro Corisco, para que o ventre se dilatasse, facilitando assim o trabalho de parto.
Reinava um silencio sepulcral, quebrado apenas pelas queixas da parturiente. Um pequeno calango correu sobre as pedras e gravetos procurando a escuridão. Lampião, Maria Bonita e Corisco, olhavam agoniados o sofrimento de Dadá.
Horas se passaram... Contrações cada vez menos espaçadas. A mãe já quase sem forças sussurrava uma oração. Der repente um dos cangaceiros entra assustado avisando da volante que fora divisada vindo naquela direção. Precisavam escapar daquele lugar o mais rápido possível.
Ciente do perigo, em meio a uma forte contração, a mulher fez um último esforço e nesse momento o velho médico murmurou:
—Está nascendo!
Ajoelhado no chão, segurando com mãos hábeis a cabecinha, Augusto trouxe para o mundo uma criança. Mediu com os dedos o cordão umbilical, amarrou e cortou com o próprio canivete. Com delicado tapa no traseiro fez a criança mostrar-se viva, ao desatar o choro.
—É uma bela menina, dona Dadá!
Nessa hora Augusto reparou à sua volta. Haviam apagado o fogo, ajuntado as tralhas. Estavam prontos para partir. Num gesto de gratidão, o cangaceiro Corisco tocou-lhe o ombro sem dizer palavra arrancou do chapéu e colocou em sua mão uma moeda de ouro e uma libra esterlina que serviam de adorno. Enquanto sua mulher com a criança ao peito chorava copiosamente por se ver forçada a afastar-se da filha. Colocou no pescoço da menina uma correntinha com a medalha de Nossa Senhora e do Sagrado Coração de Jesus e sussurrou:
— Sô Dotô, jura por Nossinhô Jesus Cristo que vai cuidá da minha bichinha. Leva ela pra bem longe... Na nossa companhia ela num vai vivê...
Aturdido, ainda sem se dar conta de tudo que havia passado naquela noite, Augusto se viu sozinho num esconderijo no meio da Caatinga, segurando nos braços uma recém-nascida. Lá fora, o tropel seria dos cavalos do bando de Lampião se afastando ou da volante se aproximando?
 Augusto acorda quando Raquel, sua neta adotiva, toca seu ombro num um gesto carinhoso.  Antes de se levantar, aperta no bolso uma moeda de ouro e uma libra esterlina que sempre traz consigo e percebe que o sertão não é ingrato aos que nele habitam.
Os olhos dos bichos e dos sertanejos residentes em Brejo Santo já repararam as nuvens no céu. Entre quipá, coroa-de-frade, imburana e juazeiro, o mandacaru, anunciante das chuvas, mostra os frutos vermelhos dando esperança.  É hora de plantar.
— O tempo mudou. Tá bonito pra chover!— Disse o neto Cícero.
Tempos passaram e hoje naquele lugar, o neto de Augusto e a mulher Raquel, administram a aconchegante pousada Patuá. A antiga prensa de madeira, fragmento da história, tem lugar de destaque no jardim da pousada Em paralelo à pequena fábrica de queijos de cabra que tem como clientes hóspedes da pousada, delicatessens e hotéis da capital.
Raquel traz no peito uma medalha, recordação dos pais biológicos.  É uma mulher empreendedora, com ajuda de Augusto e Cícero, conseguiu a revitalização da cidade. Coordena o trabalho de um grupo de artesãs da região que faz acessórios femininos e utilitários utilizando a fibra de caroá. 
Cícero é presidente da “Cooperativa de Apicultores de Brejo Santo.” Após as chuvas as abelhas visitam as flores do marmeleiro, responsável pela produção de mel com sabor muito apreciado e com alto valor comercial para os criadores de abelhas do nordeste, sendo considerada uma das principais fontes de néctar da caatinga.
Os agricultores estão satisfeitos comercializando os mais diversos produtos orgânicos desde frutas e verduras até caprinos e ovinos. Durante o dia, a feira da pracinha atrai gente de longe. Expostos em pequenos jiraus de bambu, se acha com fartura, laranjas da terra, chuchus, jerimum, macaxeira, pimentas de cheiro, queijos de cabra e doces variados.
Brejo Santo hoje em dia tem muita coisa para conhecer e explorar! Serras, rios, riachos encantam os turistas que vem até ali pelas compras, ou mesmo pelo passeio, em busca de diversão.  Nos finais de semana sempre acontecem shows de forró com artistas da região.
No alto da colina, Augusto, Cícero e Raquel aproveitam a beleza da paisagem que a duras penas fizeram renascer. Um instante de silêncio, um frescor envolve os três num afago, espalhando no ar o perfume das flores brancas dos marmeleiros. Despontam sob a claridade do luar um bando de crianças, alegres e saudáveis, vindo ao encontro dos pais e do bisavô.
Augusto se sente realizado. Segura no galho do mulungu olha a família e diz:
—Não existe lugar mais bonito para se morrer...
E as primeiras chuvas vieram.
O cinza esbranquiçado da caatinga deu lugar ao verde que avança sobre os vestígios de moradias e sonhos de vida. Os animais aproveitam a fartura. O sertão explode exuberante, cheio de vida e cores.
Sonhos e caroás resistiram. É assim que deve ser. 


Aos autores(as)dos textos para o concurso e ao mentor do mesmo, Carlos Lopes

Autora Celêdian Assis

Achei por bem deixar o meu comentário por ocasião do encerramento de envio de textos para o concurso, uma vez que já os li e todos merecem ser parabenizados, pela participação e pela qualidade de seus textos. Encantou-me sobremaneira a capacidade de criação dos autores que abordaram temas diferenciados em torno de um mesmo cenário proposto. Isso certamente é um exercício literário muito proveitoso e um desafio fascinante. Ganha o autor que expande a sua capacidade de criar e ganha principalmente o leitor que se beneficia com a leitura de textos espetaculares. Embora eu faça parte desse maravilhoso grupo que se juntou aqui, me posto apenas como leitora e como tal, quero deixar registrada a minha admiração e parabenizar a cada um pelos seus textos.
Ao mentor do concurso, Carlos Lopes, inicialmente quero agradecer pela valiosa contribuição que vem prestando à nossa literatura nacional, em um contexto no qual vem promovendo de uma forma muito dinâmica, a inserção de novos autores contemporâneos, de novos talentos, de novos estilos, enfim, de um novo jeito de se fazer literatura. Ouso dizer que estamos marcando o nosso tempo, contando histórias de nosso tempo, as que vivenciamos e portanto que nos torna parte da História viva e que legaremos à memória de nosso país, fazendo parte do que chamarão lá no futuro, de um estilo de época. Sim, porquê não? Numa era em que a internet vem nos propiciando meios de aproximação, de interação e facilitando a visibilidade daquilo que talvez foi escrito e nunca sairia da gaveta e ainda mais, daquilo que nunca seria escrito, não houvesse o incentivo, a motivação de outros, para encorajar-nos a expor o que criamos ou gostaríamos de criar. 
Segundo, é preciso enaltecer as grandes ideias e a disposição para executá-las e nesse ponto, especificamente, é preciso enaltecer a iniciativa de Carlos ao criar a oportunidade de participação aberta a todos os convidados e outros que foram apresentados. A estrutura autêntica, simples, original como regulamentou o concurso, de uma forma inédita que permite aos próprios autores se tornarem jurados do mesmo, promovendo assim o que há de melhor em nosso meio - a interação literária, ou seja, cada texto foi lido por todos, mesmo que ainda no anonimato, sem a revelação de quem escreveu o que. Isso é louvável e digno de aplausos, pois sabemos todos que no mundo contemporâneo, as pessoas mesmo que ávidas pela leitura, esbarram em questões como a falta de tempo hábil para ler, ou até pelo excesso de ofertas para a leitura na internet, que acabam por dificultar uma boa interação. 
Por fim, imagino que todos os participantes, com licença da generalização que faço, gostariam de parabenizá-lo por tão expressiva iniciativa, assim como eu o faço agora e agradecê-lo por nos tornar mais próximos e assim podermos trocar nossas vivências em torno do que criamos. Parabéns, meu amigo e obrigada pela sua generosidade.
Um grande e fraterno abraço a todos os colegas e amigos que eu pude estar perto nesta jornada. 

Celêdian Assis - Belo Horizonte/MG

Declarando os vencedores...


Através desta mensagem quero agradecer e parabenizar a cada um de vocês, caros amigos, escritoras e escritores que atenderam tão prontamente o meu convite para participar deste concurso.
É um privilégio ter a companhia de vocês nesse blog. Acredito que todos nós temos momentos brilhantes, e a maioria deles são graças ao estímulo de outras pessoas.
A impressão que tive após ver tantos textos publicados foi a visão panorâmica de um imenso painel pintado por inúmeros artistas. O conjunto traz uma visão trágica e lírica de toda uma comunidade que se esvai aos poucos por misteriosos motivos.
Vocês autores teceram personagens entranhados em tempos históricos  através de textos diversificados.  Os  contos se entrelaçaram uns aos outros fazendo ressurgir das cinzas um lugarejo agonizante.
Foram urdidas histórias   instigantes, criando e sintetizando dramas intensamente humanos, mergulhando no que podemos chamar de psicologia coletiva.
As histórias foram apresentadas  em ritmos diferentes, mostrando vasta diversidade cultural, onde todos os escritores participantes souberam captar com sensibilidade a alma do povo nordestino.  Foram criados personagens inesquecíveis  demonstrando que falar sobre o ser humano pode ser um exercício complicado, que necessita talento e criatividade.
Escrevo esta mensagem como se falasse a cada um de vocês pessoalmente. Creiam, minhas palavras não são abstrações virtuais, porque sei que do outro lado, à frente da tela de um computador tem  seres humanos, que dedicaram o seu precioso tempo e brindaram nosso blog com textos maravilhosos. Se mereci toda essa dedicação, importa-me sim agradecer a cada um de vocês por me privilegiarem como coordenador desse espaço.
Quero assim, finalizar considerando o período de votação como normal; julgando também não haver nenhuma manifestação contra o resultado obtido pelas autoras Ana Bailune e Jussara Burgos, declaro-as, as legítimas vencedoras deste concurso. Agradeço  a todos  amigos, virtuais ou reais. Sem vocês não haveria porque manter este blog, nem porque dedicar boa parte da minha vida a ele. Tenho sorte em tê-los como colaboradores reais ou potenciais. 
Permaneço aberto às críticas, sugestões e contribuições. Sua opinião é muito importante para mim.

Meu sincero muito obrigado.

Carlos A Lopes
Coordenador do Concurso

Autoria deste texto: Carlos A Lopes & Maria Mineira

Brejo Triste

Autor: Geraldinho do Engenho

Fui convidado pelo amigo Carlos Lopes, para visitar um pequeno vilarejo abandonado, situado no sertão Pernambucano. O Amigo me passou as coordenadas da localidade juntamente com algumas imagens virtuais. Em principio eu tentei fugir ao convite, mas como desde meu tempo de criança na escola, sou fascinado pelo nordeste, acabei não resistindo e aceitei viajar, imaginando que se tratava de uma excursão liderada pelo amigo. Enganei-me não se tratava de excursão, era um desafio.
Fui dormir com o pensamento focado nas imagens que o amigo me passou, cujo cenário mexeu com minha imaginação. Adormeci, mergulhei no sono, e sonhei com uma fascinante viagem ao local. Repentemente estava eu, com uma sacola de supermercado na mão contendo nela apenas uma muda de roupa, de pé à margem da BR 232, contemplando a paisagem deserta, de o tal vilarejo abandonado. Escombros, ruínas, e entulhos espalhados por toda parte, eram o que eu via naquela desolação, sem uma vivalma si quer para me orientar. Percebi logo que as imagens repassadas pelo amigo Carlos Lopes batiam exatamente com aquelas, que estavam ali diante dos meus olhos, não me titubeei. Primeiro porque o amigo jamais iria me jogar numa roubada, segundo por que quem está na chuva é para molhar, e quem não arrisca não petisca. Como sou apaixonado por história, era minha oportunidade de conhecer aquela.
Imaginando o que levaria uma população a abandonar um lugar, que me pareceu tão interessante com uma paisagem bela e convidativa, de encher os olhos de quem transita pela BR 232. Por precaução nem cogitei andar no meio daquela desolação, pisando em falso nos entulhos de suas ruínas. Pedaço de tijolos, teia de aranha, malicia, e talvez até algum animal peçonhento, poderiam ocasionar-me um acidente qualquer. Sentei-me a margem da BR. E aguardei, afinal o dia estava apenas começando, era bem dimanhãzinha quando ali eu me senti um hospedeiro.
Não tardou ouvi balidos de cabras seguidos por gritos de uma criança que as tangiam, vindos em minha direção.
-- Bom dia sinhô, vou só encostar as cabras no pasticho e tou vortano, num minutinho de levo donde meu bis te espera!
--Que papo é esse menino, quem é esse seu bis que me espera, acaso fui recomendado por alguém?
-- Num é prosa não sinhô, meu bis avô na hora quele tá bão da idéia ele adivinha as coisa, ele mandô mainha prepara o café cum tapioca de coco, cuiscuis e queijo de leite de cabra, sinhô já provo desse queijo? Diz que é só na tar da Suíça no extrangero qui se fais queijo iguá! Ta tudo arrumado mode isperá o sinhô, meu bis ta sempre dizeno que logo cu sinhô chegá ele vai conta a historia da vila abandonada todinha, e que essa história vai virá livro na capitar. Mandô ieu ponha as cabra no pasto e levá o sinhô até ele.
--Fiquei boquiaberto com a esperteza e cordialidade do garoto, que num minutinho estava de volta. Perguntei seu nome.
-- Meu nome é Loudigério Pascoal, ma pode me chama de Gerinho, é assim que mainha e vô me chamam!
--Então Gerinho quantas pessoas moram nessa vila?
-- Só nois treis memo, mais ninguém não sinhô, os povo foi se indo imbora de uma a um, restou nois treis, mainha, meu bis e ieu, ma nois é filiz aqui, ieu mais mainha cuida dos bichos, tira leite das cabras fais o queijo, busca água no poço qui restô nas marrecas pra beber e pras prantas mais os bichos.
--Quantos anos têm seu bisavô e como se chama?
-- Hííí muito ano, deixe-me vê o bis foi cumpade de Lampião -, Lampião morreu 1938 painho era afiado dele, painho que falo é meu vô, fio do bis, pai de mainha foi ele que me criô quando mainha ficô viúva qui meu pai de verdade morreu, taveno aquele tronco de arve de baraúna lascada-, foi La que caiu o raio que matou ele, tava lavrano pau mode faze um monjolo, inda tinha fartura de água no brejo qui se chamava Brejo Incantado, a dispois da disgracera qui assucedeu aqui, foi qui mudaro o nome pra Brejo Triste! Meu pai era aparentado do coroné rei do caroá. Ma num sei faze conta direito mió memo é perguntá o vô a sua idade sei qui já passô de um século, sinhô sabe quantos ano qui tem esse tar século.
-- São cem anos, mas o nome dele tu não me disse?
--Ah fico falano pu dimais o qui percisa num falo, ele chama Severino Junqueira Anunciação, Junqueira qui vei do pai e Anunciação de vei mãe, isso ieu sei purquê vejo El ripití pra tudu que gente qui pergunta seu nome. 
O garoto desembaraçado e comunicativo ia retirando os ramos que obstruía a trilha e segurando-os para eu passar no trajeto que seguíamos, e dizendo: -- Hoje memo ieu dô jeito de cortar essa caatinga azarenta aqui da beira tria, já percisava de tê cortado ma as cabras num me dão tempo.
- Descemos uma pequena encosta pouco acentuada que vertia em direção ao brejo.  La estava sentado à porta de sua casinha, num velho pilão aquele patrimônio humano, uma verdadeira lenda viva, fumando seu cachimbo. Cada baforada de fumaça exalava um cheiro agradável, pareceu-me uma mistura aromatizada de balsamo com imburana ou coisa parecida. Calça dobrada até ao meio da canela chapéu de cambaúba do tipo casco de tatu. Sua cabana de pau a pique, caprichosamente rebocada de argila branca, coberta de palha de coqueiro transada na parte interior, uma obra de arte. O terreiro muito liso, de uma brancura sem par, demonstrava o capricho de sua moradora. Roseiras, manacás, manjericão, e dama da noite, floridos e exalando um perfume delicioso.
--Bom dia seu Severino!
--Bom dia seu Francisco seja bem vindo a Brejo Triste-, tava memo isperano pu sinhô!
-- Como assim esperando por mim, e como sabe meu nome?
--Oia seu moço, as dispois cu veio passô de cem anos o veio dorme pouco e sonha muito -, in sonho toma tento do qui vai assucedê nos dia qui vai dibuiano pu mêis afora, num pricisa ninguém avisá, fás tempo qui venho sabeno da sua visita.
--Quer dizer que aqui é o Brejo Encantado-, eu posso até imaginar que o encantado se deve a sua moradia!
-- Qui nada, já foi incantado as dispois da tragédia acunticida, inté a chuva foi simbora, virô Brejo Triste, tudo aqui é coisa sem furmusuza, é tudo naturá!
--Não há nada mais belo que o natural seu Severino, é obra de Deus, que o homem pode imitar, mas nenhum é capaz de criar, e a sua moradia parece uma pedra preciosa ilustrando essa paisagem. Conte-me que tragédia é essa? Gerinho já fez referencia a ela em nossa conversa!
-- Ma antes de nois cumeça no causo qui tu vei sabê, vamo intra na minha cafua, ísabé preparô café cum tapioca mode nois quebrá o jejum, as dispois nois sobe pra vila mode tu cunhecê as ruína e nois apalavriá nesse proseio qui tu veio busca!
Entramos na cabana tudo ali era extraído da natureza moveis e utensílios, tudo artesanais verdadeiras obras de arte. Ai eu compreendi o porquê da família não recuperar uma das casas da vila pra se morar, ali alem de estar perto da pouca água que restava, passava uma paz e uma tranqüilidade imensurável o ar parecia adocicado de tão puro.
-Isabel adiantou-me alguns detalhes, a respeito de sua família, mas por respeito ao seu avô deixou a ele a narrativa principal da história.
--Após o nosso delicioso desjejum, subimos à vila abandonada, a trilha estava limpa, Gerinho havia executado o serviço conforme dissera antes.
--O garoto é tão novinho e responsável assim-, como trabalha bem seu Severino?
- Confeito meu bisneto parece gente grande, ma percisa memo é istudá quem sabe inté se formá num dotô-, ma isso vai tardiá muito, iquanto o véi aqui num fô levado pu Deus, Gerinho mais Isabé num tará liberto. Zelano da forma cus dois zela dieu, minha validade vai demora um mucado mode vencê, ma um dia vence. Ai eze pode se mandá igua todos qui daqui se foro, oia qui é mais de cem almas qui já partiro restô nois treis.
--Talento não lhe falta, e a vocação é a bussola da vida, é uma coisa individual, cada um tem a sua, e cedo ou tarde o sucesso vem através dela. Talvez se o senhor mudasse pra uma cidade daria a oportunidade a ele já pensou nisso?
--Tenho uma casinha no Recife, ma quem diz dele ma a mãe querer mora La, mode istudá, numa larga ieu de jeito maneira.
-Entramos na vila seu Severino caminhava melhor que eu, desviando dos obstáculos.
 -- Bão intonse cumo tu ta veno aqui é o qui restô do posto de gasulina donde inté atomve chegou se vendê, nos tempo dos garimpero qui a Ca passava e muito. La era a posada, da fábrica ficô o buero.
--Na minha terra isso se chama chaminé seu Severino!
-- Coroné inricô ganhô muito dinheiro fico cunhicido cumo o rei do caroá as dispois veio o sisal ele invistiu nele tumem ganho mai dinhero ainda.
--Mas daí a abandonar a vila, a causa deve ser uma história muito triste, uma paixão qualquer ou coisa parecida não?
- Tudo isso e muito mais seu moço, foi exatamente a paixão. Ma foi mulé não! O coroné era dono de grande parte da região do Moxotó pernambucano. Sua riqueza tava ispaida inté pas banda da serra taiada adonde ele mais Vigulino e ieu vaquejava junto no tempo de nois novo, inhantes de Dionísio inricá e virá coroné, e de Virgulino cê capitão e dispois virá o cangacero Lampião--, coroné Dionísio mandava e desmandava nesse sertão, ma as briga constante qui aperriava era pudimais, a famia do home acobô, vitimada do cangaço. Coroné era muito amigo e cumpade de Virgulino, o Lampião. Dava cubertura de suprimento pu seu bando e acabô pagano o pato. Vingaro dele, mode atingir o Lampião. Restô um único fio e um neto, o minino tava cua idade de Gerinho doze anos, coroné quiria cu muleque istudasse mode fazê Del seu substituto.
--Ma uma tarde nas bera do riberão das marrecas, o minino brincava cus culega, coroné tava campiano, quando iscutaro o tropel do cavalo maginaro sê um cangacero qui tava ino, correro mode iscundê, infiaro numa loca de tatu canastra, o neto do coroné tava cum chapéu iguar esse qui tô usano, casco de tatu.
Coronè quando apercebeu a búia, maginô cê um bando de tatu atirô na cabeça do neto pensano qui atirava num tatu.
Foi à coisa mais triste qui já se viu in todo esse sertão.  A vida do home acabô a dispois dessa tragédia, inté o lampião cu seu bando, qui na época tinha facilidade de iscapá da perseguição da puliça, ponhô luto. Pur causa desse aconticido mudaro o nome e ponharo o nome aqui de Brejo Triste.
Coroné abandono tudo e sumiu pra capitar nunca mais vortô in Brejo Triste. O fio do coroné qui tumém era afiado do lampião, disgostoso num acumpanhô o pai, ma num quis mais sabê de nada, intrô pru bando do Lampião, e morreu imboscado junto cu seu padrinho in Angicos pra banda de Sergipe.
Até uns trinta anos atrais a vila paricia qui ia sigui infrente, a fábrica acabou, ma passava muita gente puraqui atrais da sorte no rumo do garimpo, inda tinha iscola celebração de missa, minino correno e brincano na frente das casas chegaro inté vendê atomove purai. Teve fera vendeno de tudo qui se consome. Ma dirrepente foro se indo imbora de um a um. A missa qui se celebrava foi se iscassiano, iscola num tinha mais a seca foi aperriano cada veis mais. Das mais cem almas restô ieu mai isabé e Gerinho. E as ruína na igreja os resto de santo quebrado, no hoter donde lampião chegô a posa cu seu bando, só hospeda curuja e murcego.  Tu veje o qui restô do posto de gasulina, e diga cum quê ta paricido?
-- Parece uma cadeira gigante seu Severino!
-- Tu acertô é isso memo seu moço... Ficô cunhicida cumu cadera do rei do caroá, homenage ao coroné! In noite de lua cheia quando cai na sexta feira, Lampião vem sentá nela pra mode contemprá o sertão donde ele foi vaquero antes de cai na garra do diabo e virá o cangacero fora da lei!
Como assim seu Severino, se fosse o coronel, o qual o senhor diz ter sido o dono de tudo isso, mas Lampião?
--Lampião sim sinhô, ieu já vi muita vez ele de tamanho gigante sentado La cum seu rifle alumiano cu reflexo do luar!Tu quereno comprová, percura uma sexta feira qui tivé lua cheia, e vem mode nois dois cunversá cuele!
-- Muito obrigado ao senhor pela hospitalidade e pela Historia fantástica que me contou, mas conversar com quem já morreu, ainda mais com centenas de mortes nas costas, deixaremos para meu amigo Carlos Lopes, que me recomendou a procurá-lo para este papo tão agradável, ele sim, que é especialista em dominar assombração, poderá acompanhar o senhor nessa aventura sobrenatural!
Em seguida eu acordei mais suado que tampa de marmita no canto do fogão de lenha em pleno verão!


Geraldinho do Engenho - Bom Despacho/MG


Publicação autorizada pelo autor

A Saga da família Mendes

Autora: Maith

Quando Celestino Mendes, pela primeira vez comentou com a esposa que a Estrada de Ferro havia concluído mais um trecho, estava entrando sertão adentro levando o progresso para uma região até então pouco populosa e quase desconhecida, ela não esperava que ele estivesse pensando em aventurar-se para além da Serra levando todo o dinheiro que tinham para investir em hipotéticos negócios fantásticos.
Mas foi exatamente o que ele fez. Dias depois comunicou que estava decidido a partir e que já convidara algumas pessoas para trabalhar com ele.
Celestino era um cinquentão. Tinha do primeiro casamento, um filho casado e uma filha mocinha. Carmela sua segunda esposa era pouco mais velha que a enteada e esperava o primeiro filho.
Ficou apavorada:
— Como é que eu posso ir para um lugar desses, neste estado... Eu tenho medo...
— Você fica com sua mãe até o bebê nascer. Enquanto isso eu ajeito tudo por lá. Vai ser uma maravilha! Você vai ver. Será por pouco tempo. Ganharemos muito dinheiro e voltaremos ricos de fazer inveja, você vai ver.
— E quem você vai levar para trabalhar com você?
— O Carlos (filho), o Moacir (pretendente da filha) e o Dráuzio, um amigo.
— E eles vão levar as famílias?
— Claro que sim.
Carmela sabia que não adiantava teimar com o Celestino. Só esperava que ele se decepcionasse logo e, quem sabe ela nem chegaria a ir para lá.
Mas o Celestino encantou-se com a região. Era deveras promissora. Terras muito boas e baratas, muita madeira de lei, coisa para ficar rico em pouco tempo.
E Carmela pela primeira vez em sua vida, saiu de sua cidade para uma longa viagem de trem com a filhinha recém-nascida o marido sonhador e uma grande apreensão. Que iria encontrar naquele fim de mundo?
Tudo era muito diferente do que ela conhecia. A cidadezinha estava se formando, as primeiras casas sendo construídas. Casas de madeira, muito simples, o mínimo necessário para abrigar-se. Ninguém queria gastar em conforto, pois o que desejavam era comprar terras, investir em negócios que pareciam promissores, ganhar muito dinheiro e voltar para a civilização, muito ricos.
Carmela procurou fazer amizades e amenizar o descontentamento. A esperança de um dia voltar para sua cidade como Celestino prometera ajudava a superar as dificuldades e tudo que mais desejava era dar à família o máximo de bem estar possível. 
Célia a filha mocinha estava feliz, pois o pai trouxera com eles o Moacir que por enquanto era seu empregado, mas que em breve seria da família, pois os dois se casariam e seriam muito felizes. Pelo menos era isso que Célia esperava.
Carlos acreditava que o pai fosse o mais esperto empresário do Mundo e o acompanhava em todos seus empreendimentos, mas sua vida familiar estava abalada, pois Ruth, a esposa, não queria morar naquele fim de mundo e os dois brigavam muito.
A esposa de Dráuzio também estava descontente. Tinham três filhos pequenos e a falta de conforto na cidade a preocupava muito.
Mas a cidade aumentava a olhos vistos. Dia a dia novas empresas se abriam, grandes indústrias se instalavam oferecendo trabalho a muita gente que não parava de chegar.
A Igreja Matriz foi levantada em uma bela praça onde a noite as pessoas se reuniam para conversar, ouvir música enquanto as crianças brincavam por ali.
E havia ainda o Clube onde todos os fins de semana havia reuniões dançantes, e assim, pouco a pouco a vida tornou-se mais amena e divertida.
Foram duas décadas de progresso, mas depois veio a guerra, a economia do país estava abalada e a cidade começou a sentir as consequências.
A cada dia mais estabelecimentos comerciais fechavam suas portas, indústrias faliam e fortunas se dissolviam no nada.
Quando a Estrada de Ferro, já então deficitária desativou o trecho que servia a região, o acesso pelas más estradas tornou-se difícil e até impossível nas épocas de mau tempo.
Com isso, os últimos moradores foram abandonando a cidade, mas Celestino, teimoso, insistia em continuar ali dizendo acreditar que os dias gloriosos voltariam. Aproveitando da situação, foi adquirindo por preços irrisórios as propriedades, uma a uma até que chegou o dia em que ele era o único dono de todo aquele enorme e inútil filão de terra.
Carlos e Dráuzio voltaram para a Capital com suas famílias assim que a crise começou.
Moacir que durante todos aqueles anos enrolou a Célia com promessas de um casamento que nunca se realizava também foi tentar a vida em outro lugar prometendo que em breve voltaria para casar, mas nunca mais voltou.
A outra garota teve mais sorte. Um jovem médico que viera clinicar na cidade, ainda nos áureos tempos, apaixonou-se por ela. Casaram e pouco depois foram morar em outra cidade.
Célia esperou em vão que o namorado cumprisse a promessa feita. Perdera com ele a virgindade e naquele tempo isso era empecilho para que outro homem a aceitasse em casamento. Acabar a vida só era sua sina, por mais que não desejasse isso.
E ficaram os três na velha casa de madeira, cada vez mais decadente, vivendo pobremente com o muito pouco que conseguiam ganhar, tentando em vão alimentar o sonho de que um dia tudo poderia melhorar.
Carmela ainda achava que deviam voltar para a cidade, arranjar um emprego, viver como pudessem, mas Celestino era orgulhoso e nunca voltaria pobre e fracassado para encontrar os parentes e amigos que deixara com tanta esperança de progresso.
Até que um dia aquilo aconteceu.
Um temporal nunca visto na região desabou, a encosta do morro desabou e praticamente toda a cidade ficou soterrada. Perderam o pouco que lhes restava e foram recolhidos pela Assistência Social e encaminhados para um asilo, pois já não tinham condição de manter-se. E assim terminaram seus dias, o orgulhoso Celestino, sua amorável mulher e sua desventurada filha.



Autora: Maith - Sorocaba/SP


Publicação autorizada pela autora

Lá Pras Bandas do Catimbau

Autor: Willes S Geaquinto

José Miguilin, durante muito tempo foi um mascate deverasmente conhecido lá pras bandas de Pernambuco. Famoso por suas estórias e causos, às vezes sobrenaturais, foi ele quem testemunhou esse acontecido que sucedeu entre suas idas e vindas pelas feiras do sertão pernambucano e adjacências.  Contou o dito cujo que numa noite, lá pelos idos dos anos 1970, enquanto viajava em seu velho fusca 62 indo de Verdejante na direção de Altamira pela BR232, ao chegar bem próximo do povoado chamado Brejo do Catimbau um dos pneus dianteiros do carro estourou. E ele, meio que atordoado com o sobressalto, ainda conseguiu manobrar para que o automóvel não batesse contra um jequitibá rosa à beira da rodovia.
Refeito do acidente e apenas com uma lanterna de pilhas, levantou o capô do carro para apanhar o estepe e trocar o pneu furado. Só que pra seu espanto não havia nem sombra do macaco pra erguer o carro. “Ainda ontem o macaco tava aí...”, pensou.  Olhou para o velho relógio de bolso, herança do avô paterno, e ele marcava pra mais de meia noite. Apontou o facho de luz da lanterna para as redondezas e o que conseguiu ver foram os escombros de um posto de gasolina e de um restaurante que ficavam do outro lado da rodovia. Mais adiante conseguiu ainda avistar outros casebres na mesma situação e até a ruína do que devia ter sido uma capela ou coisa parecida. Ficou impressionado com o lugar. Já tinha feito muitas vezes aquela rota e nunca tinha reparado nele. “Onde vou conseguir um macaco a essa hora da noite? Só se aparecer alguma assombração pra me ajudar”, troçou.
Mal acabara de falar ouviu um arrastar de passos que vinha da direção de onde avistara os restos do posto de gasolina, virou-se e viu chegando um homem de macacão e outro que trazia uma lanterna na mão: “o que aconteceu?” perguntou o homem de macacão. Miguilin refeito do susto inicial respondeu: “pneu furou e estou sem o macaco pra trocar o estepe”. “Isso não é problema, a gente empurra o carro até a borracharia e troca pro senhor”, respondeu o homem da lanterna muito amigável. Miguilin meio desconfiado perguntou: “mas aqui tem borracharia?”. “Tem borracharia e oficina, tá vendo ali perto do posto...”, ele olhou e, pasmado e muito cabreiro, viu o posto de gasolina e uma instalação toda iluminada que deveria ser a tal da oficina.  O homem da lanterna continuou: “se não quiser empurrar a gente engata o fusca no guincho e leva até lá pra trocar o pneu...”. Foi aí que ele viu também o reboque estacionado. “mas como é que eu não tinha visto isso antes?”, murmurou meio que admirado...
Engataram o fusca no guincho e o levaram até a borracharia. Miguilin no curto espaço de tempo que durou o trajeto até o posto, estava amatutado com tamanha metamorfose. Diferente dos escombros que tinha visto pouco tempo atrás, agora tudo ali estava funcionado. Até o restaurante ao lado do posto, que estampava num grande letreiro em neon o nome do lugarejo, estava a todo vapor; era gente pra todo lado.
O homem do macacão, pelo que soube no caminho, chamava-se Carlos e o da lanterna que era bem mais moço que o outro, uns 25 anos de idade, chamava-se Lopes. O primeiro retirou o pneu do estepe, enquanto o segundo tratava de acionar o macaco para erguer o carro. Miguilin parecia não acreditar no que via na oficina. Além do macaco, os outros aparelhos pra balancear pneus e fazer alinhamento ele nunca tinha visto igual. Perguntou pro Carlos: “como conseguiram todas essas ferramentas modernosas?”. Ele respondeu: “por aqui passam muitos vendedores de equipamentos vindo lá dos lados de São Paulo. Numa dessas passagens a gente comprou esses aí baratinho, baratinho”. “Aqui prestamos serviço da melhor qualidade pros motoristas vivos que passam por estas bandas”, completou Lopes.
Depois que trocaram o pneu do fusca, Carlos e Lopes, alargando o pacote de agrados a Miguilin, o convidaram para “forrar o estomago” no restaurante. O que ele aceitou de pronto, já que estava com uma fome daquelas “de fazer a barriga roncar pra mais de metro”, como se diz lá pras bandas de Cabrobó.  O restaurante era um chuá, expressão usada por Miguilin para designar algo que era digno de elogio. Dava até pra ver, através de um biombo de vidro, a cozinha onde tudo era asseado demais da conta. A comida espalhava aquele cheiro de quero-mais, tanto assim que ele não resistiu e foi logo pedindo “um baião de dois daqueles bem porretas pra dá maior sustança”, como lhe recomendara Lopes. Pra quem nunca comeu, esse prato é composto basicamente de arroz, feijão de corda, bacon, paio, coentro e queijo coalho.
Enquanto esperava pela comida, bebeu dum gole só uma dose de uma cachaça de cor amarelada com gosto acanelado de marapuama oferecida por uma garçonete cheirando a leite de rosas e muito da formosa. “Essa bebida é muito revigorante”, disse Carlos, que informou já ter jantado pouco tempo atrás um escondidinho de carne seca “gostoso da peste”, junto com Lopes que sacudiu a cabeça confirmando.
Sem mais conter a curiosidade Miguilin perguntou: “e vocês moram aonde, se só vi ruinas nesse lugar?”. Carlos olhou para Lopes e ambos gargalharam.  “Moramos aqui no Brejo do Catimbau faz muito tempo, eu mais o Lopes que veio depois, e nossas casas ficam além das ruinas que você viu”, respondeu-lhe Carlos. “Então existe vida além dessas ruinas?”, indagou Miguilin. “Isso mesmo, vida além das ruínas”, disse Lopes, piscando furtivamente para o companheiro. A conversa foi interrompida com a chegada da comida, que a estimar pelo cheiro era mesmo da melhor qualidade.
Passado o jantar, Miguilin anunciou que era hora de ir, pois pretendia chegar a tempo em Parnamirim onde ia acontecer uma feira e depois seguir viagem além. Foi então que Carlos sugeriu que ele descansasse na pousada junto ao restaurante. “Depois desse fuzuê todo é bom dormir um pouco antes de pegar a estrada. Ademais segurança é tudo na vida né”.  Lopes se ofereceu para apresenta-lo à dona da pousada: “vamos lá que Dona Celêdian já deve ter aprontado a cama pra você no capricho, ela é muito atenciosa com os viajantes e o café da manhã é de nunca esquecer, ela faz uma tapioca na manteiga que é pra alma nenhuma botar defeito ”.
Sem muito que pensar, Miguilin resolveu aceitar o conselho e tirar uma soneca na pousada, onde encontrou a Dona Celêdian muito satisfeita em acomodá-lo. O quarto, apesar das mobílias antigas, era tudo muito bem ajeitado com um perfume suave de alecrim pairando no ar. E a cama nem se fala, era espaçosa e muito confortável. Foi fazendo essas observações que Miguilin tirou as botinas e enfurnou-se pra debaixo dos alvos lençóis, dormindo de pronto...
Ao sentir os pingos d’água no rosto José Miguilin sacudiu a cabeça e acordou, pensou que fosse alguma brincadeira dos novos amigos, mas, assim que abriu os olhos, percebeu o engano. Era de manhã e ele estava deitado debaixo do jequitibá rosa que desviara quando estoura o pneu do fusca. Levantou-se de um pulo e lá estava o fusca azul intacto e reluzente, apenas com a porta do lado motorista aberta e nenhum pneu furado.  Olhou ao redor e nada viu que lembrasse o lugar que estivera na noite passada, mirou do outro lado da rodovia e lá estavam as ruinas do lugarejo. Apenas umas cabras pastavam por ali, além dum cachorro que latia e corria pra lá e pra cá.
Coçou a cabeça e dizendo pra si mesmo: “Se eu contar, ninguém vai acreditar nessa história”. Ainda meio atarantado e cabreiro demais da conta tratou de juntar a lanterna que estava caída no chão e entrar no carro. Deu a partida e o motor respondeu como se tivesse zero bala.  Adentrou a rodovia que naquela hora não tinha trânsito algum.  Aí, quando cismou de dar uma última olhada para trás, viu pelo retrovisor algumas criaturas que lhe acenavam em despedida. Sentiu um acocho no coração e tratou de acelerar depois da curva. “Próxima viagem não passo mais por essas bandas...”, disse isso antes de buzinar prum bode velho que atravessou o asfalto e se escafedeu no mato.

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

Página do autor:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=30362

Monte Alegre

Autor: JCarneiro

Entre as cidades de Esperança e Santa Cruz, no começo do sertão de Pernambuco, à margem esquerda da BR 232, ficava Monte Alegre. Um lugarejo pouco habitado e carente de meios sociais, mas de agradável beleza. Coberto de árvores e de clima saudável. Tinha pastagem natural e criação de gado, especialmente o caprino, além do cultivo de algodão, mamona e milho. Havia caroá em abundância, espécie de cacto, planta nativa do nordeste brasileiro, cujas folhas produzem uma fibra de boa resistência e durabilidade, utilizada na confecção de cordas, barbantes, redes, linhas de pesca e até tecido. Um ambiente com perspectiva de desenvolvimento e progresso.
Arnaldo Fontino Borges, seu Fontino como era tratado, residente em Recife e proprietário de uma revendedora autorizada de veículos,era um homem alto, magro e moreno. Embora bem sucedido comercialmente e gozando de grande prestígio no seio da sociedade, era de uma simplicidade fora do comum e de uma generosidade a toda prova. Sabia fazer amigos e conservar as amizades. Com grande visão para negócios, estava à frente do seu tempo. Casado com Dona Margarida, mulher calma e bondosa, havendo do matrimônio cinco filhos, três homens e duas mulheres. Vivia para o lar e considerava a família a base da sociedade. Vangloriava-se de sua fidelidade conjugal, mais por amor e respeito à esposa do que por dever e obrigação. Dizi a-se cada dia mais apaixonado por ela, arrematando que os filhos eram o centro de sua vida. Sincero e respeitoso,de uma autonomia incomum,fazia parte de uma estirpe de homens que começam a rarear e tendem a desaparecer.Um exemplo de cidadão.
Seu Fontino, como todo homem de negócio, estava sempre ampliando o patrimônio. Assim é que, diante da aceitação e crescimento da indústria do caroá, veio-lhe a ideia de entrar no ramo. Daí para a concretização do pensamento foi um salto, vendo em Monte Alegre o lugar certo para a realização do plano. Sem perda de tempo, adquiriu ali uma propriedade para a implantação do parque industrial idealizado. Saiu-se feliz na escolha. Aquele era bem o lugar.
Corria o ano de 1946, quando foram concluídos os trabalhos e inaugurado o empreendimento. Faz esses anos todos, mas ainda me lembro de muita coisa, pois assisti ao desenrolar da obra. A empresa recebeu o nome de USINA DE CAROÁ SANTA LUZIA, em homenagem à santa protetora dos olhos e da devoção de seu Fontino, que, por intercessão dela, alcançou a graça da cura de grave enfermidade em um dos olhos, dada como incurável por especialistas na matéria. Um verdadeiro milagre.
A usina só começou a operar quando tudo estava pronto e acabado, passando logo a ser considerada uma empresa de ponta e “no melhor dos mundos”, como diria Pangloss.
Um primor a usina. Era o orgulho de seu Fontino, a vaidade da gente do lugar e a admiração dos que a conheciam, porquanto arquitetada com argúcia e executada com conhecimento de causa e rigoroso planejamento, fatores indispensáveis ao êxito de qualquer negócio.
A usina, com uma equipe de trabalho bem preparada, contava com um corpo operacional de sessenta pessoas, entre operários e administradores. Uma empresa moderna, bem instalada e de uma organização exemplar. Entre as peças que compunham o organismo, destaco: um arruado com cerca de cinquenta casas, em fila única, construídas dentro dos padrões habitacionais modernos, com energia elétrica e água encanada; uma capela para o povo em geral; um posto de saúde apto ao atendimento dos primeiros socorros; uma escola para todos; um galpão para o funcionamento das vinte máquinas desfibradoras; uma caixa d’água e um poço artesiano; um forno e um bueiro para queima dos resíduos das folhas desfibradas do caroá, que não foram aproveitadas na ração para animai s; a casa da prensa, de onde as fibras do caroá em fardos prensados eram transportadas para comercialização; um barracão para venda dos mantimentos à população; a casa de máquinas, com gerador de energia elétrica para as desfibradoras, arruado e casas dos operários; um campo apropriado para estender as fibras para secagem; e, por fim, a casa grande, um prédio elegante e suntuoso, alpendrado e com vários quartos com banheiro para a família dos proprietários e convidados. Do outro lado da rodovia, um posto de gasolina e um hotel edificados e mantidos pela empresa. Santa Luzia era o oásis da região.
A casa grande era o ponto central daquela bela aldeia. A alegria e a felicidade de Fontino, familiares e amigos. Sempre cheia de gente nas principais festas do ano, notadamente Natal e São João. Fontino não se cansava de dizer que os melhores dias de sua vida eram os que passava em Santa Luzia, na doce companhia dos seus, das pessoas queridas e dos operários, a quem os chamava de companheiros de jornada. Teve que abandonar os estudos para cuidar dos negócios do pai que falecera prematuramente, deixando uma numerosa prole. Lamentava não ter se formado em veterinária ou agronomia, ou nas duas. Mas era um homem de leitura. Sentia-se querido, admirado e amado por todos. Era tido como o Delmiro Gouveia do Moxotó. Preferia o campo à cidade, por isso passava mai s tempo em Santa Luzia, gozando do doce encanto da vida campestre, em contacto direto com a natureza. Na safra do imbu, não dispensava uma imbuzada na ceia, salientando que achava a comida mais deliciosa do mundo. Apreciava as iguarias de milho, em especial pamonha e xerém com leite, sem esquecer a macaxeira com carne de sol e manteiga de garrafa. Como sobremesa, não podia faltar a rapadura com queijo de coalho, exaltando seu sabor e sustança. Achava o sertão maravilhoso.
A escrita da usina e seu gerenciamento eram da responsabilidade do competente contador Antônio Salustiano, Salu, amigo íntimo e parente de seu Fontino. Solteirão, vaidoso e mulherengo, possuía uma barata e os fins de semana sempre passava em Esperança, onde matinha uma casa destinada a encontros amorosos. Matinha as contas em dia, com a contabilidade da firma em completa ordem. Era quem respondia pelo expediente da usina na ausência do dono e a representava em todas as atividades públicas e particulares. Calmo e sensato, com bom traquejo social, desincumbia-se bem de todas as tarefas que lhe eram confiadas. Tinha a usina como parte integrante de sua vida, contribuindo muito para o seu bem-estar e desenvolvimento. Era o homem da confiança de seu Fontino.
O barracão era administrado por Henrique Celestino, também da confiança de seu Fontino. Henrique era uma pessoa modesta, mas inteligente e engenhosa, desempenhando o cargo com dedicação e firmeza. Casado, do consórcio houve dois filhos, Josué e Helena, tão irmãos quanto amigos. Lena, como a chamavam, era uma moça alourada, de olhos verdes, meiga e gentil, de uma beleza encantadora e muito querida na comunidade. Dividia o tempo entre a escola, como professora, e a capela, como catequista e zeladora. Era quem promovia as festas religiosas tão do agrado de todos. A população tinha por ela o maior respeito e admiração, e o pai lhe dedicava grande amor e afeição. Era a alma da comunidade. Henrique, natural de São José do Egito, poeta, primo e conterr âneo dos irmãos Dimas e Lourival Batista, afamados violeiros repentistas do Pajeú, ao lado dos não menos famosos Antônio Marinho e Rogaciano Leite, contava com a simpatia do pessoal. Seu Fontino, que apreciava os violeiros repentistas e não perdia uma cantoria, encantava-se com as modalidades de repentes, em especial com “GALOPE À BEIRA MAR”, gostava de conversar com Henrique e de ouvir suas poesias. Oferecia-lhe motes que ele glosava de improviso. Certa vez deu-lhe o consagrado mote: “COMO É GRANDE O PODER DA NATUREZA”, que ele assim glosou:
                      Uma semente que se lança ao chão
                      Por sua própria força nasce e cresce
                      Se multiplica em galhos e floresce
                      E frutifica após a floração
                      Sua ramagem em ondulação
                      Dança e farfalha com graça e leveza
                      Resiste o tempo, vence a correnteza
                      E suporta o furor da tempestade
                      Mostrando pelo dom da Divindade
                      Como é grande o poder da natureza.        
A capela de Santa Luzia, um lugar sagrado para seu Fontino que, embora não sendo um católico praticante, era um homem de fé e crente em Deus. Tinha-a como a coisa mais preciosa da usina, sempre realizando nela atos religiosos, inclusive celebração de Missa, para ele o ato mais sublime  da liturgia católica. Ao lado da capela havia um espaçoso salão onde se realizavam encontros comunitários e festas. Era o ponto mais alegre e divertido da usina.
O posto de gasolina, cujo prédio despertava a atenção de todos pela beleza e elegância de suas linhas arquitetônicas, sobretudo suas colunas e formato, lembrando uma grande cadeira, era o ponto certo de parada obrigatória dos muitos caminhoneiros das estradas poeirentas desse sertão bravio e encantador. E, por fim, o hotel, que era um complemento do posto. Um ajudava o outro. Estava sempre cheio, não só pelo ambiente aconchegante, mas pelo excepcional tratamento que dava aos fregueses, além de servir a comida mais apetitosa do mundo, especialmente buchada de bode, carne de sol e galinha à cabidela.
A USINA DE CAROÁ SANTA LUZIA por muitos anos esteve na crista das notícias econômicas da região, como um empreendimento lucrativo e alcance social. Além do tratamento dispensado aos operários e da forma de vida que lhes era proporcionado, todos eles, nos fins de ano, tinham uma participação nos lucros. Era a antecipação do 13º salário atualmente vigente.  
Porém, como não há bem que sempre dure nem mal que não acabe, o tempo de Santa Luzia chegou ao fim. Pois que, Eduardo, o filho caçula de seu Fontino, estudante de direito, rapaz simpático e elegante, dado a conquistas amorosas, enfeitiçou-se pela beleza de Lena e tanto fez, com promessas e juras de amor, que conseguiu iludi-la e ganhar sua confiança, terminando por desvirginá-la e engravidá-la. Henrique, pai de Lena, pelo respeito e gratidão que tinha a seu Fontino não teve coragem de tratar do assunto com ele nem com o filho, inclusive proibindo Josué de fazê-lo, dando o caso por encerrado. Josué, no entanto, não suportando a dor e sofrimento da irmã, mesmo contrariando a vontade do pai, resolveu entender-se com Eduardo, que o recebeu mal e zombou de sua proposta de casamento. Não há no mundo coisa que revolte mais do que a injustiça e a humilhação. Como na época casos como este só se resolviam com casamento ou derramamento de sangue, para lavar a honra ultrajada e vilipendiada, Josué, indignado, por conta própria, sem ouvir ninguém, assassinou Eduardo a golpes de faca peixeira. Foi um dia de juízo. Estava decretado o fim de Santa Luzia.      
Seu Fontino muito desgostoso com a morte do filho, sem comentar o ocorrido, abandonou Santa Luzia e dela não quis mais saber de nada. Interveio apenas para ordenar aos filhos que nada fizessem contra o rapaz homicida e seus familiares. Sua atitude diante do acontecido define bem o homem que era. Comentava-se que se ele tivesse tido conhecimento do fato, pelo que era e pelo poder que exercia, a história teria sido outra bem diferente. Infelizmente foi assim.
Hoje, de Santa Luzia, só restam apenas lembranças de um passado e escombros de um lugarejo que teve os seus dias de glória.
Quem passa por lá vê um bueiro sem fumaça, um posto de gasolina sem vida e um hotel sem alma. Tudo é silêncio!...

Autor: JCarneiro - Recife/PE