sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Lá Pras Bandas do Catimbau

Autor: Willes S Geaquinto

José Miguilin, durante muito tempo foi um mascate deverasmente conhecido lá pras bandas de Pernambuco. Famoso por suas estórias e causos, às vezes sobrenaturais, foi ele quem testemunhou esse acontecido que sucedeu entre suas idas e vindas pelas feiras do sertão pernambucano e adjacências.  Contou o dito cujo que numa noite, lá pelos idos dos anos 1970, enquanto viajava em seu velho fusca 62 indo de Verdejante na direção de Altamira pela BR232, ao chegar bem próximo do povoado chamado Brejo do Catimbau um dos pneus dianteiros do carro estourou. E ele, meio que atordoado com o sobressalto, ainda conseguiu manobrar para que o automóvel não batesse contra um jequitibá rosa à beira da rodovia.
Refeito do acidente e apenas com uma lanterna de pilhas, levantou o capô do carro para apanhar o estepe e trocar o pneu furado. Só que pra seu espanto não havia nem sombra do macaco pra erguer o carro. “Ainda ontem o macaco tava aí...”, pensou.  Olhou para o velho relógio de bolso, herança do avô paterno, e ele marcava pra mais de meia noite. Apontou o facho de luz da lanterna para as redondezas e o que conseguiu ver foram os escombros de um posto de gasolina e de um restaurante que ficavam do outro lado da rodovia. Mais adiante conseguiu ainda avistar outros casebres na mesma situação e até a ruína do que devia ter sido uma capela ou coisa parecida. Ficou impressionado com o lugar. Já tinha feito muitas vezes aquela rota e nunca tinha reparado nele. “Onde vou conseguir um macaco a essa hora da noite? Só se aparecer alguma assombração pra me ajudar”, troçou.
Mal acabara de falar ouviu um arrastar de passos que vinha da direção de onde avistara os restos do posto de gasolina, virou-se e viu chegando um homem de macacão e outro que trazia uma lanterna na mão: “o que aconteceu?” perguntou o homem de macacão. Miguilin refeito do susto inicial respondeu: “pneu furou e estou sem o macaco pra trocar o estepe”. “Isso não é problema, a gente empurra o carro até a borracharia e troca pro senhor”, respondeu o homem da lanterna muito amigável. Miguilin meio desconfiado perguntou: “mas aqui tem borracharia?”. “Tem borracharia e oficina, tá vendo ali perto do posto...”, ele olhou e, pasmado e muito cabreiro, viu o posto de gasolina e uma instalação toda iluminada que deveria ser a tal da oficina.  O homem da lanterna continuou: “se não quiser empurrar a gente engata o fusca no guincho e leva até lá pra trocar o pneu...”. Foi aí que ele viu também o reboque estacionado. “mas como é que eu não tinha visto isso antes?”, murmurou meio que admirado...
Engataram o fusca no guincho e o levaram até a borracharia. Miguilin no curto espaço de tempo que durou o trajeto até o posto, estava amatutado com tamanha metamorfose. Diferente dos escombros que tinha visto pouco tempo atrás, agora tudo ali estava funcionado. Até o restaurante ao lado do posto, que estampava num grande letreiro em neon o nome do lugarejo, estava a todo vapor; era gente pra todo lado.
O homem do macacão, pelo que soube no caminho, chamava-se Carlos e o da lanterna que era bem mais moço que o outro, uns 25 anos de idade, chamava-se Lopes. O primeiro retirou o pneu do estepe, enquanto o segundo tratava de acionar o macaco para erguer o carro. Miguilin parecia não acreditar no que via na oficina. Além do macaco, os outros aparelhos pra balancear pneus e fazer alinhamento ele nunca tinha visto igual. Perguntou pro Carlos: “como conseguiram todas essas ferramentas modernosas?”. Ele respondeu: “por aqui passam muitos vendedores de equipamentos vindo lá dos lados de São Paulo. Numa dessas passagens a gente comprou esses aí baratinho, baratinho”. “Aqui prestamos serviço da melhor qualidade pros motoristas vivos que passam por estas bandas”, completou Lopes.
Depois que trocaram o pneu do fusca, Carlos e Lopes, alargando o pacote de agrados a Miguilin, o convidaram para “forrar o estomago” no restaurante. O que ele aceitou de pronto, já que estava com uma fome daquelas “de fazer a barriga roncar pra mais de metro”, como se diz lá pras bandas de Cabrobó.  O restaurante era um chuá, expressão usada por Miguilin para designar algo que era digno de elogio. Dava até pra ver, através de um biombo de vidro, a cozinha onde tudo era asseado demais da conta. A comida espalhava aquele cheiro de quero-mais, tanto assim que ele não resistiu e foi logo pedindo “um baião de dois daqueles bem porretas pra dá maior sustança”, como lhe recomendara Lopes. Pra quem nunca comeu, esse prato é composto basicamente de arroz, feijão de corda, bacon, paio, coentro e queijo coalho.
Enquanto esperava pela comida, bebeu dum gole só uma dose de uma cachaça de cor amarelada com gosto acanelado de marapuama oferecida por uma garçonete cheirando a leite de rosas e muito da formosa. “Essa bebida é muito revigorante”, disse Carlos, que informou já ter jantado pouco tempo atrás um escondidinho de carne seca “gostoso da peste”, junto com Lopes que sacudiu a cabeça confirmando.
Sem mais conter a curiosidade Miguilin perguntou: “e vocês moram aonde, se só vi ruinas nesse lugar?”. Carlos olhou para Lopes e ambos gargalharam.  “Moramos aqui no Brejo do Catimbau faz muito tempo, eu mais o Lopes que veio depois, e nossas casas ficam além das ruinas que você viu”, respondeu-lhe Carlos. “Então existe vida além dessas ruinas?”, indagou Miguilin. “Isso mesmo, vida além das ruínas”, disse Lopes, piscando furtivamente para o companheiro. A conversa foi interrompida com a chegada da comida, que a estimar pelo cheiro era mesmo da melhor qualidade.
Passado o jantar, Miguilin anunciou que era hora de ir, pois pretendia chegar a tempo em Parnamirim onde ia acontecer uma feira e depois seguir viagem além. Foi então que Carlos sugeriu que ele descansasse na pousada junto ao restaurante. “Depois desse fuzuê todo é bom dormir um pouco antes de pegar a estrada. Ademais segurança é tudo na vida né”.  Lopes se ofereceu para apresenta-lo à dona da pousada: “vamos lá que Dona Celêdian já deve ter aprontado a cama pra você no capricho, ela é muito atenciosa com os viajantes e o café da manhã é de nunca esquecer, ela faz uma tapioca na manteiga que é pra alma nenhuma botar defeito ”.
Sem muito que pensar, Miguilin resolveu aceitar o conselho e tirar uma soneca na pousada, onde encontrou a Dona Celêdian muito satisfeita em acomodá-lo. O quarto, apesar das mobílias antigas, era tudo muito bem ajeitado com um perfume suave de alecrim pairando no ar. E a cama nem se fala, era espaçosa e muito confortável. Foi fazendo essas observações que Miguilin tirou as botinas e enfurnou-se pra debaixo dos alvos lençóis, dormindo de pronto...
Ao sentir os pingos d’água no rosto José Miguilin sacudiu a cabeça e acordou, pensou que fosse alguma brincadeira dos novos amigos, mas, assim que abriu os olhos, percebeu o engano. Era de manhã e ele estava deitado debaixo do jequitibá rosa que desviara quando estoura o pneu do fusca. Levantou-se de um pulo e lá estava o fusca azul intacto e reluzente, apenas com a porta do lado motorista aberta e nenhum pneu furado.  Olhou ao redor e nada viu que lembrasse o lugar que estivera na noite passada, mirou do outro lado da rodovia e lá estavam as ruinas do lugarejo. Apenas umas cabras pastavam por ali, além dum cachorro que latia e corria pra lá e pra cá.
Coçou a cabeça e dizendo pra si mesmo: “Se eu contar, ninguém vai acreditar nessa história”. Ainda meio atarantado e cabreiro demais da conta tratou de juntar a lanterna que estava caída no chão e entrar no carro. Deu a partida e o motor respondeu como se tivesse zero bala.  Adentrou a rodovia que naquela hora não tinha trânsito algum.  Aí, quando cismou de dar uma última olhada para trás, viu pelo retrovisor algumas criaturas que lhe acenavam em despedida. Sentiu um acocho no coração e tratou de acelerar depois da curva. “Próxima viagem não passo mais por essas bandas...”, disse isso antes de buzinar prum bode velho que atravessou o asfalto e se escafedeu no mato.

Autor: Willes S Geaquinto - Varginha/MG

Página do autor:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=30362

3 comentários:

Maria Mineira disse...

Esse autor ou autora foi muito criativo(a)!!! Gostei de ver os amigos, Carlos Lopes e a Celêdian, como personagens da história. Agora não sei se eles gostaram de virar almas doutro mundo...rsrsrs. Parabéns!

Anônimo disse...

Hahahaha... Genial! Quem dá conta de parar lendo um conto bacana desse? Adorei. Marina Alves.

Helena Frenzel disse...

Olhe, uma leitura muito agradável que me fez rir bastante. Gostei da leveza, 'mandou' muito bem! :-)