segunda-feira, 9 de junho de 2014

Texto: 19 (do concurso) - O Guapeca

Eu tinha cinco anos de idade, quando morreu o cachorro de estimação da família que atendia pelo curioso nome de Peca. Aliás, muito tempo depois é que fui saber que o nome dele era uma simplificação de “guapeca”, termo muito usado no sul do Brasil para nomear o cachorro doméstico.
 Peca era um cão de uma raça muito popular, conhecida desde a Roma antiga por “canis viralactum”, ou seja, um simples vira-latas. Porém, os seus pelos aveludados da cor marrom, sua agilidade e graça, além de alguns  traços diferenciados, o colocava muito próximo da realeza dos Golden Retriever, originários da Grã-Bretanha. 
No convívio da família ele transmitia muita alegria, era o tempo todo: “Peca pra lá, Peca pra cá”. “Eita bichinho espoleta”, meu pai dizia. Às vezes, quando ele colocava o focinho entre as ripas do portão que dava para a rua, minha mãe ralhava:
– Não vai pra rua, Peca!
Ele não ia, e muito menos eu. Porque ela sempre nos mantinha, eu e o cachorro, do portão para dentro. Brincar na rua, nem pensar! “Isso não é coisa de guri educado”, ela dizia. E só saíamos, eu e o Peca, juntos com a família. Quando íamos à casa da vó Davilina ou de algum outro parente.
Curitiba não era como é hoje, eram os anos 1950, e agente ia a pé à casa da vó; desde a Vila Leão que ficava no bairro do Portão, até o bairro Novo Mundo. Nos dias de domingo Peca ia sempre faceiro pela rua, penso que ele, assim como eu, aguardava ansiosamente por aquele passeio.
Naquele tempo era um costume muito arraigado as visitas em família nos dias de domingo. Ninguém ficava em casa como hoje, vendo TV até o domingo acabar. Eu adorava ir à casa da vó, lá era o nosso ponto de encontro; tios, tias, primos e primas, compadres e comadres. Minha avó gostava muito de mim, embora eu fosse adotado, era tratado como da família desde sempre. Aliás, nessa época eu nem sabia que era adotado. Ela e os meus tios viviam me elogiando, diziam sempre que eu era muito educado, inteligente, criativo, coisas assim; coisas de guri bem comportado. 
Além do clima harmonioso, existiam também as brincadeiras com os primos que eram da minha idade. E muito mais: o café gostoso moído na hora, pão feito em casa, bolo, paçoca de amendoim, cocada, compotas e outras quitandas. De vez em quando, algum tio me agradava com algumas balas de ovos muito gostosas; eram as minhas preferidas.  Eu tinha uma predileção bem acentuada por doces, minha mãe dizia que era por causa das lombrigas, e ficava por isso. Para mim o importante era que todo domingo era dia de festa na casa da vó, e para o Peca também. Nunca vi um cachorro tão contente como naqueles dias de domingo, até parecia criança também. Logo de manhã os olhos dele brilhavam mais que tudo, parece até que adivinhava o dia; até o pelo dele que era marrom ficava mais sedoso depois que minha mãe dava-lhe um bom banho.
E assim, eu e o Peca fomos convivendo na vida; brincando e correndo pelo quintal que era dividido com algumas galinhas e um gato do vizinho que de vez em quando aparecia por lá. Minha mãe e a tia Ondina eram bordadeiras de mão cheia, como se dizia.  Então de vez em quando uma ia bordar na casa da outra. Quando íamos à casa da tia Ondina, que morava na mesma vila, era uma festa também e o Peca ia junto feliz da vida. Lá também era bom de passear. Do portão até a varanda da casa tinha uma espécie de portal adornado com parreiras de uvas pretas e uvas verdes, a gente caminhava por debaixo das parreiras.  Quando chegava o tempo das uvas maduras até o Peca comia e se lambuzava. Tia Ondina e minha mãe achavam graça de ver o cachorro comendo uva e abanando o rabo de contente.
Naquele tempo também era comum ter o médico da família, e o nosso se chamava Dr. José. Ele era um pouco mais velho e muito atencioso. Meus pais me levavam lá muitas vezes, já que eu era muito doente nessa fase da infância. Eu era muito magricela e frágil, então volta e meia tinha que ir ao médico. Lembro que além dos remédios que ele receitava, sempre havia a recomendação de que eu tinha que tomar muito fortificante. E minha mãe seguia à risca as instruções do Dr. José. Daí que eu tomava óleo de fígado de bacalhau, Biotonico Fontoura e Sadol que era para abrir o apetite. Algumas vezes por dia minha mãe me chamava:
– Venha cá guri, tá na hora de tomar o fortificante!
Quando eu ia o Peca ia junto, só que ele não precisava de fortificante. Se tivesse que dar alguma coisa pra ele tomar devia ser calmante, pois o serelepe corria pra lá e pra cá o dia inteiro. Meu pai dizia que se eu tivesse a energia que o Peca tinha, minha mãe ia ter um trabalho redobrado comigo.
Às vezes, os adultos não acreditam muito nas impressões das crianças, mas, naquela tarde fria de julho, uma quinta-feira, quando minha mãe começou a me aprontar para ir ao Dr. José, eu senti que o dia, além de nublado, estava meio estranho; algo estava meio fora de ordem, só que eu não sabia o quê.  Até mesmo o Peca estava um pouco distante, não estava tão alegre como das outras vezes que ia conosco. Mesmo assim, lá fomos nós para o médico. Eu, minha mãe e o Peca, que de vez em quando me dava uma lambida na mão. Chegamos ao consultório do Dr. Jose e antes de subirmos uma escada que levava até ao atendimento, minha mãe recomendou ao Peca:
 – Você fica aí esperando quietinho, não vá sair pra rua, hein!
Peca deu um resmungo como se tivesse entendido e, como sempre fazia naquelas ocasiões, se acomodou no tapete que ficava próximo à porta. Acabamos de subir a escada e fomos aguardar lá na sala de espera até que fôssemos chamados. Pode até parecer estranho, mas eu gostava de ir ao médico, porque na sala de espera tinha muitas revistas e, como eu já sabia ler um pouco, ficava ali entretido folhando as revistas da época enquanto o tempo passava. Enquanto isso, minha mãe conversava com as outras mulheres que esperavam também. Às vezes eu dava um tempo nas revistas e ficava ouvindo minha mãe falar dos seus bordados e de outras coisas da vida. Quando perguntavam a meu respeito, ela dizia que eu era muito fraquinho, mas, que o Dr. José estava cuidando disso e eu vinha melhorando.
Fomos a chamados e o Dr. José foi logo perguntando se eu estava tomado os fortificantes. Então minha mãe narrava tudo com detalhes sobre a minha saúde. Nesse dia, depois de me examinar ele disse que eu estava bem melhor, que estava ficando corado e que era só obedecer e tomar direito os remédios que eu ia ficar com uma saúde de ferro. Minha mãe ficou muito contente com as palavras dele, falou que assim ficava mais aliviada. Eu também fiquei alegre em saber que o tratamento estava indo bem, principalmente por que não precisava tomar injeção. Eu tinha um medo assombroso de injeção, só de ouvir falar já me dava arrepio. Outra coisa que eu gostava muito mesmo quando ia ao Dr. José, é que ele na saída me dava uns pirulitos com sabor de framboesa, que me deixavam com a língua vermelha e um cheirinho bom.
E foi assim, animados com as boas notícias do médico sobre a minha saúde, que nos deparamos com uma incomoda surpresa no fim da escada, o Peca não estava nos esperando no tapete onde o tínhamos deixado. No primeiro instante Minha mãe ficou sacudindo a cabeça transtornada sem saber o que fazer:
– Onde será que esse cachorro se meteu?
Pergunta daqui e dali e ninguém sabia do cachorro. Então ela me deixou sentado na escada e saiu para a rua a perguntar nas lojas que existiam ali por perto. Até que o dono de um armazém que conhecia minha mãe, disse que tinha visto o cachorro e que ele tinha sido atropelado e morto por um caminhão...
Creio que para me preservar da cena, ela nem me levou para ver o corpo dele. Apenas me pegou pela mão, e enquanto voltávamos para casa contou que o Peca tinha morrido num acidente. Eu sem entender muito bem o ocorrido, voltei chorando e triste pelo caminho.  Em vão ela tentava me consolar, dizendo que a vida era assim mesmo, que cachorro vivia pouco e que, diferente das pessoas, não tinham noção de perigo. Foram momentos de uma tristeza que parecia não ter fim. Em casa até chá de camomila adoçado com mel, minha mãe me deu e nada do desgosto passar.
Quando à noitinha meu pai chegou do trabalho foi outra angústia. Meu pai ainda tentava entender o sucedido:
– Mas como é que isso foi acontecer? Ele já estava acostumado a ficar esperando lá na entrada do consultório. Será que alguém abriu a porta e espantou ele de lá? Sozinho ele não ia sair, ele era muito obediente...
 Dúvidas e mais dúvidas, até que minha mãe pôs um fim na conversa. Disse que não adiantava ficar remoendo o assunto porque isso não ia trazer o Peca de volta. Era melhor a gente ir se consolando e guardar as boas lembranças dos anos que ele tinha alegrado a vida da gente com suas estripulias. Com ares de sabedoria ela falou:
– Foi Deus que quis assim, vai ver que ele já tinha cumprido o tempo dele aqui na terra.
Eu na minha santa ingenuidade ainda perguntei para ela:
 – Mãe, será que o Peca foi pro céu?
– É claro que foi. Ele não fazia mal a ninguém.  E lá deve ter um lugarzinho para os cachorros bonzinhos também, afinal todos são criaturas de Deus, né!
Depois dessa conversa, apesar do aperto no coração, da saudade entranhada no pensamento, fiquei mais consolado, como dissera minha mãe. Afinal o Peca tinha ido para o céu e já devia estar dando seus pulos por lá. Fiquei até imaginando que deveria ser bom para ele, pois no céu não devia ter portão para impedi-lo de ir pra rua, então ele podia ir aonde quisesse...
De vez em quando eu ainda via o Peca correndo pelo quintal, mas, minha mãe dizia que era imaginação de criança. Como podia ser imaginação, se eu o via correndo atrás das galinhas no quintal? Se até o gato rosnava para ele? Coisa difícil de entender.
Às vezes, quando ouvia algum cão latindo na rua eu corria até o portão pra ver se era o Peca, mas, não era... Assim mesmo eu ficava lá, até que a minha mãe ralhava, como nos tempos do Peca:
– Não vai pra rua não, guri!
Quando isso acontecia, eu apenas sorria. Depois corria para os seus braços, ela me abraçava e me entendia só pelo olhar.

domingo, 8 de junho de 2014

Texto: 36 (do concurso) - Uma amizade improvável

Há poucos dias assistia a um desenho animado na tv, com a minha netinha. Eu não prestava muita atenção no filme. Divagava sobre qual animal eu poderia escrever um conto. Quando desisti, devido à completa falta de inspiração, quis saber dela do que se tratava o filme. Era sobre um ratinho que sonhava ser um fino cozinheiro. Pobre ratinho! Sofreu horrores com o preconceito dos humanos e da sua própria família. Cada um no seu quadrado, era a lição que lhe impunham a todo momento. Imagine um restaurante requintado, tendo como o seu melhor cozinheiro, um rato! Porém, como em todo filme infantil que se preze, os mocinhos venceram no final e os preconceituosos sucumbiram. O filme me lembrou uma canção sobre um ratinho, o Ben, composta por Michael Jackson, lá pelos anos 70, e a procurei na internet para mostrá-la à minha neta, que  não a conhecia. Ela, então, me disse: “Vó, por que você não inventa uma estória sobre um ratinho? Acho que ficaria legal, bem diferente, que tal?”  De repente, eu me lembrei de um rato, sim, e não precisaria inventar uma estória. Ela aconteceu de verdade e foi muito significativa para mim:
Há muitos anos, quando a minha filha, hoje mãe desta neta, era ainda adolescente, apareceu com duas ratinhas brancas, destas chamadas cobaias, e as enfiou dentro de casa. Pensei morrer de nojo e medo. - É o fim do mundo, é o cúmulo da rebeldia, é o modo mais rápido de matar uma mãe, suma com isso daqui, ai-que-nojo... As ratas ficaram. A primeira providência que elas tomaram como novas donas da casa foi a de destruírem as capas dos meus melhores discos de vinil. – Bom, ratos vivem, no máximo, dois ou três meses, então, tudo o que eu tenho a fazer é esperar que esse tempo passe rápido... Fiz uma prateleira, com uma tábua, na parede da despensa e coloquei comida e água, na esperança, não muita, que elas permanecessem só ali. E, para minha surpresa, elas se comportaram exemplarmente. Faziam menos sujeira quando comiam, que a minha própria filha. A outra sujeira, a da saída, não era assim um sacrifício tão grande (para a filha) limpar, Passamos a conviver pacificamente mas, sem intimidades, por favor.
Um dia, quando cheguei do trabalho, exausta e aborrecida, me sentei no sofá, perto da minha filha, sem perceber que ela estava com as duas ratinhas no colo. – Ai! Tira isso de perto de mim! – Calma, mãe, olha, passa a mão nelas, sente a maciez dos pelos... Vai, mãe, coragem... Não passei, mas não resisti quando a minha mão foi levada até uma delas. – Tá, passei, agora tira daqui.
Num outro dia, a minha filha: - olha, mãe, que legal! – batia com um dedo no chão e as ratinhas vinham correndo até ela. – Tenta, vamos ver se elas vão até você. Tentei. Elas vieram. Passei a mão nelas e senti-lhes a maciez dos pelos.
Ah! Vamos resumir essa história: todos os dias, quando eu chegava do trabalho, lá da porta mesmo, eu já tamborilava os dedos no chão e, de onde estivessem, vinham correndo em minha direção, e todos os dias era uma festa. Eu me sentava no sofá e elas passeavam pelos meus ombros, pescoço, cabeça, emaranhavam meus cabelos e ganhavam muito, muito carinho. Aprendi, por elas, a andar com passos lentos dentro de casa, a não fazer movimentos bruscos para não assustá-las, a fazer e a me permitir afagos, a não ter mais preconceitos de espécie alguma. Hoje, não há criança ou bicho, sejam de quais tamanhos forem, que eu não saiba como dosar a minha força e os meus gestos, para deixá-los seguros diante de mim.
Lamentei profundamente a vida tão curta de ratinhas brancas, cobaias de laboratório e gente. Uma delas morreu de causa não identificada, simplesmente a encontramos morta. A outra foi atacada por um gato, que não sei de onde surgiu, e morreu acariciada, na palma da minha mão. Pena esta história não ser infantil. Gostaria que fosse. Nas histórias infantis não se conta a morte dos mocinhos. Só contei porque achei importante dizer quem desembruteceu a palma da minha mão.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Texto: 52 (do concurso) - A gata que era um gato


Penso que o lugar mais inadequado para ter  animais é em apartamento. Por essa razão nunca fiz questão de ter cachorros ou gatos. Mesmo assim, um belo dia meu filho mais  moço apareceu com   um  felino  SRD, totalmente preto e semi desmamado. Fiquei furiosa e disse que não ia cuidar do animal. Meu   filho deu o nome de Mulata para a gatinha, assim pensava ele. Todos os dias  punha Mulata na mochila e a levava para o trabalho. Nos finais de semana deixava  Mulata comigo e se mandava para a praia ou para qualquer outro passeio. Claro, eu não podia deixar a gatinha passar fome e frio. Ela miava muito e de repente  me  vi com Mulata no  colo tentando acalmá-la. E assim o amor foi crescendo por ela. E já que  ia ficar conosco,  resolvemos levá-la  ao veterinário o qual  fez as perguntas de praxe inclusive  como era o nome. Respondemos que ela chamava-se Mulata. O veterinário  riu e    disse: mas ela não é gata, é um gato! Depois disso tivemos que escolher um novo nome. Passamos a chamá-lo de  Bellekc que está com cinco anos e é o nosso  encanto aqui em casa.Ele é muito carinhoso mas muito independente. A casa é dele. Dorme o dia todo em qualquer lugar que lhe apraz. Faz alongamento toda manhã e toma banho de sol.  A  noite sai para  exercitar seu instinto felino. O veterinário nos aconselhou a não deixá-lo sair, mas quando chega a noite ele fica de pé na porta,  toca na chave, chora até que  abrimos a porta. Não  sei como reeducá-lo para que fique em casa.Se alguém sabe de uma receita, me avise.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Texto: 18 (do concurso) - O bode Calibu

A velha  senhora, Dona Leonete, agora vivendo na cidade grande, no outono de sua vida, tinha como alegria permanente,contar histórias de seu tempo de menina para os netos. Uma das historias foi a do seu amor pelo bode Calibu, um belo exemplar caprino, que lhe dera muitos prazeres inocentes. Com os olhos semi cerrados, ela voltava ao passado e se via menina sapeca fazendo artes naquele findão de mundo que era o seu mundo. Assim ela começou, diante de olhos e ouvidos atentos dos netos.
“Até meus nove anos de idade, meus pais e minhas irmãs morávamos em um sítio enorme, no povoado chamado Igarapé-Açu-de Cima, próximo a Vila de Irituia, hoje uma bonita cidadezinha no norte do Pará. No sitio tínhamos árvores frutíferas, patos, galinhas, porco, perus e  pombos. Minha mãe cuidava da casa e das criações e meu pai tinha um pequeno armazém de secos e molhados, único no povoado.Nunca nos faltou alimento, as criações garantiam galinha à cabidela, torresmo, pombos assados, ovos de perua e outras delicias. Tínhamos também um  belo igarapé onde tomávamos banho, lavávamos roupas, louças  e de onde utilizávamos água para beber. Entre as criações havia alguns caprinos, entre os quais o chefe do grupo, o bode Calibu. A companheira de Calibu, garantia o leite diário para a família. Com esse leite meu pai fazia um saboroso mingau de farinha dágua com ovos quebrados dentro. Uma delicia, além de substancioso. Calibu era nosso companheiro de travessuras e quando embrenhávamos pelo mato, ele nos acompanhava, como se fosse nosso guardião.  Nòs tínhamos um amor muito grande por ele e pela família, mas ele era o nosso xodó. Em nossa casa, havia uma espécie de mezanino caboclo onde meu   pai guardava mercadorias e cujo acesso era por uma escada rústica. O nosso amigo Calibu era manso e por casa dessa mansidão, principalmente eu, adorava puxar sua longa barbicha, faze-lo de montaria e segurar-me nos seus chifres enormes.  Durante algum tempo ele suportava os puxões, mas passado o tempo da paciência, ficava furioso, me derrubava  no chão e tentava me atingir com os chifres. O que eu fazia? Subia  para o mezanino caboclo para minha proteção. Calibu ficava no pé da escada espumando  de  raiva, esperando que eu  descesse. E quem disse que eu descia? Só quando ele cansava e ia embora.Pois bem uma  bela manhã, eu estava brincando com minhas bruxas de pano, quando minha irmã mais velha veio  correndo e gritando:
-Mana, vem ver! O Calibu morreu!
-Morreu? Como? Eu não acredito. Morreu de quê?
- Vem ver! Ele tá na beira do igarapé, inchado que nem um balão!
Corremos para lá e vimos o nosso amigo mortinho da silva.     
Ficamos sabendo por nossa mãe, que  Calibu comera mandioca braba deixada por um dos trabalhadores do sitio, por descuido. E mandioca braba é veneno.
Foi choro de não mais acabar. Não podíamos acreditar que nosso amigo morrera. Pedimos ao nosso pai  que fizesse o enterro de Calibu, como se fosse gente. Meu pai atendeu e depois disso, todos os dias íamos na sepultura dele  levar flores e galhos de plantas para deixá-la  enfeitada.
Meu pai ficou muito penalizado não só  por nós, como pela dificuldade de conseguir  outro bode para fazer a cobertura da  viúva caprina, garantir filhotes e o leite para o alimento da família. Tanto procurou que conseguiu outro  animal vindo do nordeste,  para a nossa felicidade em tempos de meninice.  E a historia recomeçou com as nossas atanazações com o nosso novo companheiro que passou a chamar-se de Capitão."
As crianças  ficaram admiradas das traquinices da avó e perguntaram se havia outras parecidas.
-Sim, respondeu a avó. Ma isso fica para  outra noite. Abençoou os netos e foi dormir.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Texto: 17 (do concurso) - O gato de Donana

Helena era uma garotinha de olhos verdes e cabelos loiros encaracolados. Seus pais a deixavam sob os cuidados de uma tia-avó. Essa tia morava em um sítio próximo a um povoado onde o pai de Helena era comerciante e a mãe, funcionária pública.
No sítio, viviam a viúva Donana, suas duas filhas e o arisco gato Mimi. A filha mais velha trabalhava no povoado. A filha caçula, uma moça extrovertida e bonita, foi passar férias na Bahia, conseguiu um pretendente, casou-se e mudou para aquele estado. 
Donana criava galinhas, vendia as frutas do sítio ou as aproveitava para fazer doces, vendia algodão e mamona para as beneficiadoras da capital. Na época das chuvas, também plantava feijão e milho.
Mimi era o único macho da casa, se achava um rei. Não demonstrava a menor afetividade por ninguém. Sua pelagem era rajada e seu tamanho era exageradamente grande em comparação com os gatos da vizinhança. Além de bonito, era exímio caçador, vivia no encalço de calangos, passarinhos e ratos. Era comum vê-lo no terreiro da casa devorando suas caças. Ele tinha uma cadeira sempre forrada com um pano e ali nenhum humano podia se sentar. Se algum desavisado sentasse no trono do rei, logo ele miava e roçava as pernas da pessoa como quem diz: “esse lugar é meu”.  Às vezes, ele dormia na sala de jantar em cima de um móvel em que a louça era guardada. Mimi gostava de dormir, ouvindo sua dona cantar. Com uma voz afinada, Donana cantava valsinhas enquanto se ocupava dos afazeres domésticos.
Quando Helena completou sete anos, foi com uma tia conhecer a capital. Era sua primeira vez em uma cidade grande e diante do mar. Porém, a saudade do sítio falou mais alto, ela sentiu falta da adorada Dona Ana, de suas deliciosas comidas e do Mimi. Era tanta saudade que a menina sonhava com o gato e com o cenário de suas brincadeiras. Quando finalmente retornou, entrou em casa correndo. Pediu a bênção para sua mãe e foi ao encontro de Mimi, que dormia sobre o móvel da sala de jantar. Na hora que Helena o abraçou, ele ficou irritado e deu nela uma patada, ferindo o braço da menina. Ela ficou perplexa, sem entender aquela reação. Ela só queria lhe dizer que sentiu sua falta e lhe dar um afetuoso abraço.
Passado o susto, a vida transcorreu mansamente. Às vezes, apareciam no sítio os netos e o afilhado de Donana, o menino Miguel. Eles moravam no povoado e gostavam de ir lá pegar frutas ou ganhar alguma guloseima. Também tentavam, sem sucesso, aproximar-se do arredio Mimi.
Até que um dia Mimi apareceu morto. Helena ficou sentida com a morte do bichano com que ela convivera desde filhote. Resolveu que ele teria um sepultamento digno. Reuniu seu irmão, seus primos e Miguel. Eles fizeram uma cova enquanto a menina construía uma cruz de gravetos e colhia flores silvestres. Quando tudo estava pronto, os adultos pararam suas atividades e ficaram observando a meninada da porta dos fundos. O cortejo fúnebre seguiu. Helena chorava e os meninos riam, o que a deixou muito brava. Donana interveio pedindo para os meninos se aquietarem. E, assim, Mimi foi sepultado, com a cruz e as flores silvestres.

domingo, 1 de junho de 2014

Jardim das Almas

Autor: Carlos A Lopes

         Olá, meu nome é Bill, mas podem me chamar de Tutinha ou até mesmo de Ziu, se quiserem.  Só não observem umas mechas claras entre minhas orelhas. É o meu primeiro sinal da velhice! No mais, permaneço ágil, viril, porém pouco compassivo com os humanos.
Hoje vi o meu pai falecer. Fiquei ao seu lado enquanto o meu coração aguentou. Depois, de longe permaneci quieto sem emitir nenhum som e de orelhas empinadas.
Ao chegar à idade limite, a nossa existência não faz nenhum sentido. Um dia, simplesmente vamos deixando de nos alimentar e a fraqueza nos conduz à morte, já que é próprio da nossa espécie, não lutar contra doenças.
Vim morar nesta casa ainda bem mocinho. Em um belo dia, apareceu no caviário do bairro da Madalena, a sobrinha do meu dono, com o intuito de comprar ração e ela acabou por me levar dali em troca de um pedaço de papel.
No caminho já se iniciou uma sessão de carícias e dengos no meu cangote. Detestei! Coisa mais sem graça! Sou um ser ressabiado e fechei os olhos durante todo o percurso. Até podia ter mostrado os dentes para eles... Sou assim mesmo, consinto tais galanteios, mas fico arredio e apoquentado.
Lá na minha nova casa já havia três outros da minha espécie e cada um deles quis adotar-me como filho. Por alguma razão fui separado dos demais e passei a ser orientado por Otávio, quem acabou tornando-se meu pai. Ele, um sujeito mais velho, relaxado, espírito aventureiro, um verdadeiro líder. Era o único que conseguia adormecer deitado de lado e nutria antipatia pelo Júlio César, o mais vistoso da casa. Já esse, muito charmoso, tinha focinho arredondado, olhos simétricos e pêlos escuros sem marcação, no entanto, um sujeito pachola e estressado.
Nos primeiros dias eu ouvia sempre o meu dono falando sobre o tal de Marco Antônio, o primeiro que chegou para morar em sua casa. Ele era novinho, marrom e quase nada se sabia dele, a não ser que veio como presente e que morreu uns dois meses após a sua chegada. Cá para nós, tem quem diga que na morte dele, houve o dedo de Júlio César. Meu dono diz que liderança entre porquinhos da Índia é coisa de “berço” e Marco Antônio pode ter pagado o preço de ter nascido sem tal graça divina.
De todos os novos irmãos o mais feio deles era Zezinho, o único que se prestava às vadiagens próprias de crianças, tais como, correr e brincar; os demais só pensavam em encavalitar, buscando demarcação de domínios. Entretanto, Otávio era daqueles que pagava para evitar uma briga, porém se fosse provocado não abandonava a peleja.  Ele era sempre provocado pelo Júlio César, o mais invejoso e era logo separado dos demais. Nem por isso se ajeitou, estava sempre desejoso pelas carícias do nosso dono, inclusive fingia chorar, só pra cair nos seus braços.
Depois de Marco Antônio, Júlio César foi o primeiro a falecer. Eu estava por perto. Havia chegado um pessoal de São Paulo e meu dono nos colocou num quartinho, lá onde se lava roupas sujas. Ele morreu de uma forma rápida e estranha. Ainda tentaram medicá-lo, nada adiantou. Seus últimos suspiros foram na cama da enteada do meu dono. Ninguém entendeu ¨nadica¨ de nada do sucedido. Houve derramamento de lágrimas e seu corpo rígido foi contemplado de mãos em mãos. Perguntado, meu dono explicou que nossos músculos enrijecem com a morte. Não sei nada disso! Só sei que nem um pouco se parecia mais com aquele “pretão¨ garboso que atraía a atenção de quem chegasse. E para não tornar esse assunto mais triste, só sei que meu dono o levou dali e fez seu sepultamento no jardim, junto ao Marco Antônio.
Pouco tempo se passou após a morte de Júlio César e Zezinho lambeu do gosto da morte, indo parar, também, no jardim do edifício. Na ocasião, olhando pra mim, ouvi meu dono dizer que ia manter a colher de pedreiro na mala do carro. Ele sofreu muito com a morte de Zezinho. Era o nordestino da casa com seu aspecto de famigerado da seca. Zezinho era renegado pelos outros e por isso não entrava em todas as tocas. Pense num sofrimento! Até injeção na veia tomou. De nada adiantou. Meu amigo faleceu de forma lenta. Com ele se foi o vandalismo e os costumeiros pinotes de alegria. A sua ausência acabou estabelecendo uma convivência mais adulta na casa. Eu me transformei num ser sedentário, enquanto o pessoal só tinha olhos para cochilar na frente da televisão. 
Otávio, meu pai adotivo, reinou absoluto por mais ou menos três anos. E durante esse tempo nunca vi tanta “risadagem” naquela casa, pelo pouco ou quase nada que pude observar. Encantava com seu jeito de ser, nada forçado. Não brincava, não “pinotava”, não roía fios, mas sabia deitar-se de maneira engraçada. E por ser o único que se esparramava de corpo enrijecido em qualquer lugar, sobretudo quando ronronava feito um gato. Todos riam dele. Vai ver que foi por isso que o meu dono até escreveu uma história sobre ele. Sobre a abordagem incompreensível do texto? Nada sei dizer a respeito, só conheço mesmo a linguagem da nossa espécie.
Passei toda tarde avistando de longe o meu pai esticado e morto. Ele penou muito até descansar de vez, apesar dos esforços para mantê-lo em nosso convívio. De nada adiantou, era sua hora! Vivemos em geral, um tempo curto, em relação aos outros animais e aos humanos e as coisas acontecem rápido. E mais uma vez meu dono foi ao jardim do prédio, desta vez para enterrá-lo; voltou algum tempo depois entristecido. Pensativo, meu dono se dirigiu ao computador. Ele escreveu, escreveu; quando aconteceu aquele patatí-patatá com a sobrinha, que se derramou toda em lágrimas ao ler o que ele escreveu, enquanto eu permaneci encolhidinho no sofá, o que de nada adiantou, pois eles voltaram à atenção para mim; ouvi-lhes dizendo que não iam comprar outro irmãozinho, pois receavam que eu o matasse, por ciúme. Que imagem eles fazem de mim? Só porque nos últimos meses assumi a condição de mandar no “pedaço”? Está no meu DNA. Alguém há de ter pulso forte por aqui.
Os humanos são mesmo estranhos! Vivem a conversar com a gente, no entanto, em algumas situações desprezam a nossa capacidade de entendimento; de modo que quero externar uma reclamação: Quem botou na cabeça deles que Porquinhos da India apreciam televisão? Não vejo graça alguma nessas “empreguetes” da novela das sete. Gosto mesmo é de barulho de plástico e do som da porta da geladeira! E tem mais. Aqui, acolá, ficam a me acariciar... Odeio! Muito menos andar pra lá e pra cá nos braços de alguém. Nessas horas dá vontade de falar o linguajar deles e dizer: Ponha-me no meu canto, ou poderá ficar molhado! E o pior é que estão dizendo que a cada dia devo dormir junto a um deles, para sentir-me seguro. Só faltava essa! Quero lá isso? Deixa como está. Vou sentir a falta do meu pai, é verdade, mas amanhã é outro dia. E pensar que somente eu e Marco Antonio nunca fomos agraciados nos escritos de nosso dono? Sinceramente, não sei se estou gostando disso!
Entendo que viver num cercadinho, é solitário, podendo até ocasionar alguma inflamação pulmonar ou até ser golpeado por algum inimigo enciumado; no entanto, dormir num lugar alto, às vistas do dono, dificulta a mobilidade, ao contrário do que pensam, é mais perigoso, pois bastaria um simples descuido e eu posso despencar de lá, propiciando fraturas ou um punhado de males maiores, tais como: convulsão, deslocamento do cérebro, enfim, um histórico longo de probabilidades. Os humanos são desatentos, eles não priorizam nossas reais necessidades, não sabem o que é normal para nós. Daí, mesmo contra a vontade, aqui acolá eu distribuo cabeçadas, até que entendam que minha vontade é voltar ao alojamento. Não me sinto na obrigação de ser alisado, enquanto perpetram longas leituras de livros, ou participam de improdutivas conversas com vizinhos.
Para minha surpresa, meu dono jamais comprou outro da minha espécie. Às vezes até tocava no assunto, mais acabava adiando a conversa, sobretudo, considerando fatos envolvendo a sua família, lá do interior. Aliás, taí outra coisa que nunca tive o direito da escolha. Nada nesse mundo de meu Deus me incomoda tanto quanto viajar pro Sertão, a cada dois meses! Além da sensação de estômago embrulhado pelos tantos solavancos da estrada, ainda tem aquele povo que não sabe diferenciar uma coisa da outra; para eles todo bicho de quatro patas, com rabo ou não, são ratos de esgoto. Pode?  Eles ignoram que sou herbívoro, um primo da capivara, o maior roedor do planeta. Quem me conhece sabe, odeio comparações. Sou recifense de procedência e lá cada criatura se alimenta de acordo com sua categoria de vida. Jamais me forçaram a comer alimentos repugnantes, tais como: pamonha, canjica, arroz de leite e beiju. E por essas e aquelas, quando a morte tenta se achegar, o meu dono me salva, à custa de soros e medicamentos, jamais com chá ou crendices.
A alimentação peletizada, regada à fruta, vitamina C, e soro fisiológico, me fizeram extrapolar o meu tempo de vida. Não que eu ligue, fiz pelos meus donos, não queria magoá-los e também carecia de um momento oportuno para descansar em paz. Quando vi a sobrinha do meu dono arrumar as malas, para sua viagem de trabalho na Bahia, percebi que ele ficaria só, então pensei: Nem morrer agora eu posso, fica pra outro momento! A essa altura meus pêlos estavam desbotados e minha mobilidade comprometida, nem de espaço físico carecia mais. Passava o dia trepado numa cama, sob um edredom e com uma caixa de papelão e comidas frescas à disposição. Tinha toda liberdade do mundo e nada parecia me motivar, só queria dormir... Dormir... Dormir até que meu dono voltasse do trabalho, ocasião em que ele trocava os meus panos e repunha o comedouro. Enfim, um vidão, digno de um legítimo raça Inglês, de pelos liso e curtos, nada podia ser melhor. A essa altura, nem sei se sentia a ausência de colegas para as andanças e vagabundagens; a velhice me trouxe calmaria e a inteligência de observar sem interferir.
Esse ano as coisas lá em casa não começaram bem. Há algum tempo que os pais do meu dono estão vivendo conosco por conta de doença na família. O pai dele parece ter sido acometido de uma doença bastante séria, pelo menos é o que dá a entender. As coisas andam se arrastando, tanto que meu dono resolveu se afastar do trabalho para ficar mais tempo no hospital. A tristeza tomou conta da casa e constantemente amigos e familiares aparecem para conversar. Já não suporto mais tanto barulho de telefones e campainha da porta tocando. E como se eu esperasse o momento oportuno para me despedir, adoeci. Faz alguns dias que ando com um guinchar agudo e sem vontade de comer. Meu dono logo percebeu minha perda de peso e passou a medicar-me com soro, vitaminas e gotas de algum remédio, para que eu não sentisse nenhuma dor. E, em meio a tudo isso, imaginei que seria o momento para me despedir da vida. Não sei o grau de apreensão do meu dono quanto a minha doença, pois ele vive muito no hospital, onde o pai agoniza no leito de uma unidade intensiva, por conta de um choque séptico, pelo menos foi o que disseram. Depois da anorexia ou falta de apetite, não devo amanhecer o dia de amanhã respirando. Senti isso no seu olhar, quando me agasalhou com dois lençóis e se deitou ao meu lado triste e calado, só atento a minha respiração forçada e ofegante.
Se eu soubesse escrever como o meu dono, eu deixaria um recado a ele, assim: “Não fique triste com a minha partida, estou indo feliz, pois sei do quanto um humano é capaz de fazer pelos seres de outra espécie, quando ele os ama de verdade, eu pude sentir a força desse amor.”
Na certa, amanhã logo cedinho, devo ser conduzido pelas suas mãos, ao canteiro do edifício, onde serei sepultado junto aos meus irmãos, lugar batizado por ele, como jardim das almas.


Olá, sou o Ziu, o menorzinho, e também o protagonista deste conto. Ao meu lado o meu pai de criação, Otávio.

Autor: Carlos A Lopes - Olinda - PE

sábado, 31 de maio de 2014

Texto: 30 (do concurso) - As aventuras de ¨A Fábrica¨

Quando eu era pequena, tínhamos muitos cães em casa, e não consigo lembrar-me de alguma fase de minha vida em que eles não estivessem presentes - a não ser, assim que eu me casei, pois moramos em apartamento por sete anos. Mesmo assim, tinham os cães de minha irmã, com quem eu brincava quando a visitava.
Houve um tempo em que uma das cadelas era apelidada de "A Fábrica", que era o título de uma novela que passava na falecida Rede Tupi (pronto! acabo de revelar a minha idade!). Bem, demos este nome a ela porque A Fábrica sempre tinha muitos filhotes de uma só vez, que nós doávamos para os vizinhos.
Ela era uma enome vira-latas preta, e tinha uma peculiaridade, ou seja, duas: a primeira, é que ela sabia sorrir. Logo que nos via, arreganhava os dentes, abanando a cauda. Era só a gente pedir: "Fábrica! Ri!" E lá vinha ela, dentes de fora, toda faceira.
A segunda peculiaridade (acreditem ou não) é que ela... voava! Não, não é lorota, não! Ela voava mesmo, por cima da plantação de bananeiras e depois, ainda passava pelos galhos mais altos de um bambuzal, que lhe amparavam a queda. Bastava que ela visse uma galinha. Era campeã de Caça às Galinhas da Dona Teresa!
Também... a Dona Teresa era uma folgada, que mesmo sabendo que todos os vizinhos tinham cachorros em casa, deixava suas galinhas soltas pelo terreiro, e elas sempre acabavam indo parar no meio da rua ou no terreno de outros vizinhos. Era sempre a mesma história: a Fábrica escutava um cacarejar no morrinho (lugar onde brincávamos quando crianças, logo acima de nossa casa e da plantação de bananeiras e bambus de meu pai) e corria atrás. Não tínhamos como segurá-la, pois ela parecia totalmente possuída por alguma força atávica incontrolável.
A galinha, na tentativa de salvar-se, voava desajeitadamente por sobre as bananeiras, e A Fábrica, que jamais desistia, voava atrás dela, lá de cima do morrinho.
Daí, escutávamos um agoniado "Cóóóó..." e lá vinha A Fábrica, com a pobre coitada na boca.
Na manhã seguinte, lá vinha a Dona Teresa perguntar: "Ruth (minha mãe), não viu uma galinha carijó por aí não?" E minha mãe, com ar distraído: "Não... por que, sumiu?"
Mas acho que a Dona Teresa acabou descobrindo sobre o paradeiro de suas galinhas, pois um dia, A Fábrica amanheceu morta: envenenada...

Texto: 35 (do concurso) - Eu e os bichos

Tenho uma empatia muito grande com  quase todo tipo de bicho . 
Nesta época do ano, alguns pássaros vem fazer seus ninhos nas árvores do meu jardim. São rolinhas, sabiás, cambaxirras. Quando eu os vejo entrando e saindo das casinhas de passarinho, ou carregando galhinhos secos e restinhos de algodão de paineira nos bicos, eu já sei: vai começar tudo de novo!
Estas sabiás da foto foram minhas hóspedes há algum tempo. Assisti quando seus pais começaram a construir o ninho, e até achei estranho, já que o fizeram em um local realmente baixo, tão baixo, que pude fotografar o ninhovárias vezes sem precisar sequer esticar o pescoço. Eu ajudava a tomar conta delas, quando os pais estavam fora, pois às vezes, elas caíam do ninho. Acompanhei todos os seus estágios, desde quando eram apenas ovinhos, e ao nascer, coisinhas cor-de-rosa muito feinhas, até o ponto que chegaram nesta foto. 
Um dia, acordei e encontrei o ninho vazio: elas se foram. Ainda as vi algumas vezes aqui pelo jardim, ensaiando vôos, e confesso que ao ver o ninho vazio, senti uma certa melancolia...
As mais difíceis de lidar, são as rolinhas. Elas sempre acabam expulsando algum filhote do ninho. Isso já aconteceu várias vezes. Uma vez, consegui colocar o filhote de volta, mas a mãe o expulsou novamente, e após ele cair no gramado, ela foi atrás dele, bicando-o. Peguei-o novamente. Como já era bem grandinho, achei que conseguiria criá-lo. Todos os dias pela manhã, eu o soltava no gramado, e ele ficava piando pela mãe, mas quando ela o avistava, caía de bicadas em cima dele. Acabou morrendo, acho que de tristeza.
As cambaxirras são as mais engraçadas: elas começam a encher todas as casinhas do jardim com gravetos e tudo o mais que encontram por aqui; depois, escolhem apenas uma delas e fazem seus ninhos. Elas não tem medo de nós, e também escolhem, geralmente, um local muito baixo aqui na varanda. Uma vez, um filhote fugiu do ninho, e quando tentei pegá-lo para devolvê-lo ao seu lugar, ele entrou pela porta da sala - imaginem, aquela coisinha mínima se escondendo dentro de casa! Vi quando ele entrou no meio das toras de madeira da lareira, e tive que retirar uma a uma cuidadosamente, até conseguir pegá-lo. Foi uma dificuldade...
Este ano, vi que as sabiás fizeram seu ninho no pé de tangerina. Desta vez, não será tão fácil fotografá-las. Mas terei que ficar de olho, já que o ninho está dentro do local do canil, e se um dos filhotes cair, a Latifa não vai perdoar...
Esta época é muito bonita, mas também um pouco triste, pois sempre encontramos alguns filhotinhos de pássaros mortos pelo jardim. Eles caem - ou são expulsos de seus ninhos durante a madrugada, e não temos tempo de chegar até eles antes das formigas. Mas a gente vai fazendo o que pode.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Texto: 29 (do concurso) - O bêbado e o seu cavalo equilibrista


Era a terceira vez este ano que estava indo à Paulo Afonso/BA, sempre aos sábados pela manhã e, praticamente no mesmo horário, ao chegar no local conhecido como TREVO DE MARIA BODE, encontrava aquele homem com visíveis sinais de embriagues sobre seu cavalo. Diante daquele espetáculo de equilíbrio e insensatez resolvi parar, inclusive porque precisava descansar um pouco e aproveitaria para abastecer o carro. Puxei conversa com o frentista sobre o homem do cavalo.

É Zé de Mamãe...
Ele nunca caiu do cavalo?
Não, parece que o bicho é ensinado, já teve até gente que botou preço...

Fico sabendo pelo frentista que o homem em questão é aposentado e já foi bom vaqueiro, mas hoje se dedica a tarefa de não fazer nada durante a semana e ingerir toda a cachaça do mundo, aos sábados. E que seu cavalo espera paciente para levá-lo de volta à sua casa, inclusive tendo todo o cuidado para atravessar a rodovia.

Como é o nome do cavalo?
Não tem nome não, doutor. Ele chama “cavalo” e o bicho atende.
E se outra pessoa chamar?
Não adianta, ele só atende a Zé de Mamãe.
Porque o nome dele é “Zé de Mamãe”?
É ele mesmo quem diz, quando começa a ficar “queimado”. Ele fica contando valentia e diz: “Se mexer com Zé de Mamãe, não come milho verde este ano”.
E já mexeram com ele? Não...

Olho para a estrada reta e lá vão o cavalo e Zé de Mamãe num compasso de extrema habilidade. Quando o bêbado tomba para o lado esquerdo, o cavalo corrige o passo e recoloca o corpo etilizado no centro de gravidade. Deve ser uma luta muito grande, ou melhor, deve ser muita ciência desse cavalo em calcular direitinho como para que Zé de Mamãe não vá beijar o asfalto.

Ele vai direto para casa, ou ainda tem alguma parada obrigatória?
Não, toda vez Zé de Mamãe leva duas latinhas para tomar em casa.
Prevenido, esse Zé de Mamãe. E a mulher dele?
Não tem mais mulher não.
Não?
Ela foi embora com um primo dele?
Para onde?
Entraram na lata do mundo e até hoje ninguém sabe deles.

Já está na hora de ir embora, já matei minha sede, abasteci o carro, joguei conversa fora e fiquei sabendo da vida de Zé de Mamãe. Quando retomo a estrada, fico pensando naquela criatura e até tenho certa piedade. Pobre Zé de Mamãe. Ainda bem que ele tem o cavalo. Interessante é ele não ter um cachorro. Digo que ele não tem, pois nunca o vi acompanhado de nenhum canino. Ele não tem cachorro mesmo, e se tivesse, estaria formado um trio de criaturas para arriscar suas vidas às margens da rodovia, todos os sábados. Aliás, no caso de Zé de Mamãe, acho que lhe faz muito mais falta um cachorro vira-lata que uma mulher zangada e cansada em casa. Sabedoria teve foi a mulher de Zé, que foi embora ainda quando podia. Mas be que um cachorro daqueles descritos por Graciliano Ramos seria de muita serventia àquela dupla, até mesmo para afastar algum menino maldoso ou  algum outro cão menos amistoso que é o que não falta nestas estradas do Nordeste brasileiro.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Texto: 34 (do concurso) - Xerife e a princesa Nana

Nasci. Não consigo abrir os olhos, nem andar, mas percebo a presença de um ser da minha espécie cem vezes maior que eu.  É minha mãe, ela gostou de mim, com sua língua quente me fez carinho, me limpou, também cortou o cordão umbilical (nem doeu) e me colocou juntinho dela. Posso sentir seu calor. Ops! Tem outros cachorrinhos do meu lado, somos irmãos. Chegou mais um... Mais outro, mais outro. Tudo isso estava dentro da barriga de mamis? Ouvi alguém dizer que somos doze.
Cachorro é diferente de ser humano, para esses basta chorar e a mãe corre para dar o peito. Tenho que disputar uma teta com meus irmãos famintos. Os maiores levam vantagem, é claro. Eles são mais fortes, sugam com força. Sou pequeno e não sei se vou sobreviver. Uma mão humana de vez enquanto vem aqui e me põe para mamar numa teta, ou então me dá uma teta esquisita de plástico, com leite de vaca. Estou crescendo, consigo abrir meus olhos e ensaio os passinhos com pernas trêmulas. Minha mãe é linda, ela é da raça Fila Brasileiro, seu nome é Luma. E assim fomos crescendo até minha mãe não querer mais nos amamentar, acho que é porque temos dentinhos e a machucamos. Ouvi dizer que vão nos vender e assim meus irmãozinhos foram indo embora um a um. Sinto saudades deles. Eram tão legais nossas brincadeiras e o que eu mais gostava era dormir pertinho deles e de mamãe, ficávamos quentinhos.
Agora, somos apenas eu e minha mãe, ninguém me quis, minha cabeça é descomunal para meu corpo, sou esmirrado e desengonçado. Deve ser por isso que me chamam de Feioso, mas não fico com raiva, porque eles me tratam com muito carinho, principalmente uma menina linda de olhos azuis e cabelos longos, parecida com uma princesa dos contos de fadas. Ela brinca comigo, faz carinho e me deixa adormecer em seu colo. Aqui no sitio, a minha amiga vive com os pais, o sargento Otto, dona Helena e seu irmão Samuel. Todos trabalham e minha jovem amiga só estuda, tendo assim mais tempo para ficar comigo, me dar banho e até escovar meus dentes. Minha mãe Luma me disse que todo cachorro que se preza, escolhe um dono. Já decidi: minha dona será a amiga Nana. Por isso quando ela chega  faço a maior festa, balançando o rabo  e choro de alegria.
Fui crescendo e minha feiúra foi diminuindo, fiquei tão bonito que apareceu comprador, mas meus donos resolveram ficar comigo. O sargento Otto me levou para tomar vacinas e ganhei o nome de Xerife. Acho que ele quer que eu seja valente e tome conta do sítio na sua ausência. Estou feliz porque vou ficar. Eles me tratam com carinho. Quando todos saem fico com minha mãe. Ela brinca comigo e me ensina caçar saruê e também as galinhas da vizinha que teimam em vir aqui.
Um dia um sujeito pulou o muro e foi andando em direção da casa, ele com certeza não era amigo da família, pois os amigos quando chegam batem à porta e meus donos abrem. Então minha mãe Luma e eu resolvemos mostrar que ele não era bem vindo. Quando ele nos viu, saiu correndo para pular o muro, mas minha mãe o alcançou, abocanhou o seu short e puxou. Risos. Ele foi embora só de cueca.  O sargento, quando encontrou o short perto do muro, entendeu o que tinha acontecido. Ficou agradecido, nos fez afagos e disse: - Muito bem! Em outra ocasião um garoto também entrou no quintal, corremos atrás dele e ele deixou cair a sacola. Acho que ele queria pegar frutas.
 Um dia a família tinha saído. Minha mãe achou uma comida que jogaram lá de fora, por cima do muro, ela comeu e começou a passar mal, a uivar e se contorcer de dor, até ficar paralisada. Pensei que ela estava dormindo. O tempo foi passando ela não acordou. Quando dona Helena chegou fui avisá-la que acontecera algo muito triste. Ela estranhou o fato de eu estar muito agitado e sozinho, então foi procurar minha mãe.  Quando a encontrou inerte, foi aquele chororô. Depois puseram minha mãe Luma dentro do carro e nunca mais a vi. Senti saudades dela.
E assim fiquei sozinho aqui no sitio. Um dia, fiquei entediado, muito mal humorado mesmo. Deitei no canil e não estava querendo ver ninguém. Quando alguém chegava perto, eu rosnava e mostrava meus dentes. Minha dona foi me ver, também não quis saber dela. Sem entender minha reação, ela chorava e dizia: - Xerife sou eu, você não está me reconhecendo?  O sargento ficou preocupado com meu comportamento e foi conversar com o veterinário, Dr. Marcus, que o aconselhou a me sacrificar para não por ninguém em risco. Contrariado o sargento reuniu a família e deu a noticia. Nana não aceitou de bom grado aquela resolução e esbravejou: - De jeito nenhum eu vou deixar que matem meu cachorro. Ele deve está com alguma carga negativa! Pegou resina de uma árvore chamada Breuzim, fez um defumador e entrou no canil.  Foi aquela fumaceira. Eu não conseguia respirar direito e meus olhos ardiam. Mas uma coisa é certa: sai dali de dentro, bonzinho.
O meu piti passou e a vida continuou até o sargento adoecer e ficar muitos dias hospitalizado. Três bandidos, armados de facão e de porretes, resolveram entrar no sítio. Não poderia deixar isso acontecer, sou um cão de guarda. Fui para cima deles. Eles me atraíram para o rio, começaram a me bater muito e me furaram com o facão.  
Agora sem poder me mexer aqui dentro rio, sangrando e sentindo dores. Vou lembrar da meiguice da princesa Nana, da nossa amizade e que fomos muito felizes. Sei que ela irá chorar muito e sentirá minha falta. O sargento ficará orgulhoso, não o decepcionei. Ele dirá que sou um herói, porque cumpri meu dever. Estou ficando cada vez mais fraco. A correnteza do rio está levando meu sangue e minha energia.  Estou desfalecendo.
 Agora vou dormir igual a minha mãe Luma.