sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O abandono

Autora: Michele Calliari Marchese

Lenise sentou-se na cadeira de palha da varanda de sua pobre casa. Era tardinha e os filhos estavam brincando. Três ao todo e o quarto na barriga. Entregou-se àquele entardecer como se fosse o último. Fechou os olhos e acariciou o ventre com amor. Sentiu o vento no rosto a enxugar o suor da lida e do abandono.
Sentia-se fatigada de tanto pensar, com o peito em dor doou-se por inteira ao destino que se lhe abria de uma hora para outra, exatamente no momento em que o marido fora internado em algum hospital da capital pela perda do juízo. Bebia muito aquele homem e se por um lado sentia-se aliviada com a internação, por outro lado sentia-se só com todas as responsabilidades do porvir.
Sabia que não tinha condições de fazer o trabalho do marido naquele fim de mundo e a gravidez em estado avançado não lhe permitia pensar no que aconteceria com os outros filhos. A dor foi tomando conta de todo o seu corpo, como uma vertigem lenta, antecipando todos os sofrimentos que teria de passar. Já tinha avisado os parentes, dela e dele. Por certo haveriam de ajudá-la de alguma maneira, visto a situação chegar aonde chegou.
Escutou os gritos dos filhos a reclamar de fome e levantou-se num ímpeto. Esquentou o que sobrara do almoço e alimentou um a um sem pensar em si e o que restou – parcas migalhas - foi o que comeu, em prioridade daquele que viria, porém a sua única vontade era de mudar tudo e todas as coisas, ou simplesmente não comer nunca mais.
Agarrou-se ao sentimento mais profundo da vida e seguiu adiante; limpou a cozinha e tratou dos outros afazeres que exigiam urgência. “Todos tão pequenos” ela pensou, e as lágrimas lhe escorreram pelo rosto cansado da juventude. Tentaria fazer o melhor que pudesse, até a chegada do neném.
“Quatro filhos!” Disse em voz baixa num desespero de agonia. Ainda bem que o marido estava internado sem previsão de voltar, porque se ali estivesse, lhe meteria o quinto filho barriga adentro. Não aguentava mais tanta miséria.
“Todos descalços!” E recomeçando o choro dolorido e incontrolável foi até a janela para respirar o ar que lhe faltava. Ela passou a mão no rosto para afugentar tanta fraqueza e em seu íntimo sabia que mesmo que a família chegasse seu sofrimento não terminaria ali. Não tinha condições de manter os filhos por muito mais tempo e não saberia como teria aquele que iria nascer. Era o marido que trazia a parteira, era o marido que lidava com quase tudo o que existia fora de seu mundo, não sabia como fazer para alimentar as crianças com outras coisas que não tinham em casa.
Era difícil imaginar uma caminhada a pé com todas aquelas crianças e todas descalças, inclusive ela própria, até a cidade para pedir ajuda. Era difícil a sua vida de mãe.
Foi quando ela sentiu as dores do parto e as crianças choravam que apareceram seus familiares, dois irmãos e um cunhado. Sem muitas explicações, ajudaram-na durante o parto, deram de comer aos pequenos e trataram de cuidar o que jazia abandonado.
Vieram com um taxi da cidade, colocaram todos dentro, quase nenhum pertence fora levado e o bebê estava enrolado num lençol surrado e muito velho.
Naquela noite, na casa de uma irmã de Lenise, tudo estava bem e morno como um aconchego. Os filhos dormiam com os primos, tinham tomado banho e comido muito bem e então chegou a hora da verdade. Ficaria ali para sempre se pudesse, porém não podia. A irmã disse que conseguiria criar um dos filhos da Lenise sem problemas, inclusive dando-lhe educação, e ela arregalou os olhos diante daquela proposta impensável.
Era muita dor em seu coração quando o cunhado disse que levaria dois para o Paraná - onde morava – e o outro ficaria com o outro irmão de Lenise até que a situação melhorasse para que pudesse então juntar seus filhos. Não poderia vender aquele pedaço de chão sem a assinatura do marido. Teria que trabalhar em algum lugar até que ele voltasse da internação, se é que voltaria algum dia.
Segurou o bebê junto de seu coração, acordou os outros filhos e despediu-se deles sem chorar, sem lamentar e sem se desculpar. Precisava mostrar que a mãe deles era forte o suficiente para aguentar tantas provações e eles precisavam saber disso e tinham que esperá-la.
Foi-se embora no meio da noite, porque sabia que se ficasse não teria coragem de deixar os filhos com os outros. Escutou os gritos e os choros e pôde sentir as lágrimas deles dilacerando a sua alma. Não conseguiu olhar para trás.
Precisava fazer aquilo para poder ajudá-los e para que pudesse continuar vivendo. Foi dormir na casa de uma mulher sua conhecida da infância e no dia seguinte, com os peitos vazando leite, porque não tinha mais como dar de mamar, porque seu bebê havia ficado, porque ele não conseguiria resistir à dura empreitada consigo, porque ela os amava demais para deixa-los morrer a míngua e foi pedir emprego de casa em casa, de comércio em comércio e no fim de uma semana conseguiu. Dormiria no emprego, porque não tinha lugar para dormir e olhou admirada aquela alma auxiliadora trazendo um par de chinelos para calçar.
O marido nunca mais voltou e um Juiz concedeu-lhe, quinze anos depois, o direito de vender as terras que tinham, e foi o que ela fez. Tentou a todo custo que seus filhos voltassem para junto dela, mas o que conseguiu foi uma casa vazia. Completamente vazia.
Nenhum dos filhos quis voltar. Os dois menores não a reconheciam como mãe mesmo sabendo que ela era a mãe deles e os dois maiores não entenderam nunca a atitude dela naquela noite de abandonos.
E então Lenise sentou-se em sua cadeira nova de palha na varanda. Respirou pela última vez o entardecer. Fechou os olhos e acariciou o ventre daqueles quatro filhos que nunca esqueceria em sua vida. Sentiu o vento em seu rosto, mas ele não foi capaz de enxugar as lágrimas do seu coração.

Michele Calliari Marchese é catarinense de Xanxerê. Formada em ciências contábeis, é contista semanal do Jornal Diário Folha Regional de Xanxerê - SC, mantém uma escrivaninha no site Recanto das Letras e no blog Sem Vergonha de Contar. Participou com contos nos livros UFOs - Contos não identificados e Espectra, ambos pela Editora Literata de SP,  do Livro dos Prazeres editado pelo SESC de Santa Catarina e no E-book Quinze Contos Mais pela editora Helena Frenzel.

domingo, 15 de setembro de 2013

Para você, Santim... onde estiver...


Autora Maria Mineira

Ainda tenho você em mim, no coração e nos sonhos. 
Na memória ficou o nosso último encontro. Eu chorei naquele dia. Nunca quis me despedir de você, sempre te quis por perto. Eu não desejei crescer, não queria ficar sem a sua companhia por toda a minha vida.
Centenas de cartas escrevi e joguei ao vento, na esperança de que chegassem ao seu mundo te chamando de volta. Sei que, já não sou aquela menina solitária que quando te precisava por perto subia na nossa árvore e gritava seu nome... Acreditava que vinha do céu, pois, vovô me dizia que os santos moravam lá, por isso batizei-o "Meu Santim".
Já não brinco mais de boneca, já não roubo os bolinhos de chuva de minha avó para te presentear, mas ainda sinto sua presença quando bate aquela minha insegurança. Lembra como eu temia cair do galho mais alto da árvore? Era seu lugar preferido e eu queria estar lá em cima do seu lado. Você me encorajava, segurava minha mão, me levava para junto de você e acreditava em mim mais do que eu mesma.

Sabe, meu Santim... De certa forma minha vida não mudou muito. Apenas troquei meus medos de criança por problemas que sozinha não consigo resolver. Até posso ouvir os teus risinhos meio irônicos, dizendo que agora sou adulta e não posso mais esperar Santinhos do céu para atender meus pedidos, como você fazia a tantos anos que se foram.
Hoje, acredito que você me diria que o sonho foi real, porém, seu mundo é um lugar inacessível para mim, mas eu te daria milhares de razões para perceber a diferença entre o que é real e o que não seja. Eu, melhor do que ninguém para entender, para experimentar, para sentir.
Confesso meu querido... Apesar de ser uma mulher, me sinto mais menina do que nunca, porque as crianças se sentem perdidas em mundos feitos para os adultos, e eu ando muito mais que perdida em um mundo que foi moldado para mim. Além disso, estou confusa, precisando de você.
Separados, sei que em algum lugar neste universo, você também pensa em mim. Se acaso decidir aparecer, me encontrará no mesmo lugar de sempre..., No galho mais alto da Copaíba, aquele com vista para a Serra. Lá estou quando preciso sentir o vento desalinhar meus cabelos e acariciar o meu rosto.
Um beijo carinhoso de sua amiga, daqui deste lugarzinho que chamamos de Planeta Terra.Autora: 


                                   Maria Mineira - São Roque de Minas/MG

Ilustração: Edmar Sales - Custódia/PE


          Publicação autorizada pelos  autores


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Bairro da Boa Vista, no Recife, uma viagem às memórias do meu coração

Autor: Augusto Sampaio Angelim

Ruas, avenidas, logradouros, hotéis, praças, igrejas, prédios públicos, bares, restaurantes, escolas, padarias, um sem número de lembranças do bairro da Boa Vista vão chegando à memória. Vindo eu de um sertão cuja se distância para o Recife era medida por uma noite toda dentro de um ônibus, não havia como não gostar dos encantos de um bairro que, em meados dos anos setenta conseguia combinar, ainda, a nostalgia e fidalguia de décadas mais tranqüilas e a modernidade. Em certas ruas, algumas famílias, nas tardes domingueiras, conversavam nas calçadas. Ao invés da verticalização de agora, predominavam as casas, muitos casarões e alguns prédios modestos. Neste mesmo tempo, a sua principal artéria, a Avenida Conde da Boa Vista e a Rua da Imperatriz já eram agitados centros comerciais e bancários.
Caminhar pelas ruas do bairro, inclusive tarde da noite, permitia absorver o ambiente cultural que agitava o Recife. Na Rua do Hospício pontificava o DCE (Diretório Central dos Estudantes) que saiam às ruas para protestar contra a ditadura e o governo. Logo me tornei um deles e lembro um dia, no ano de 78, quando houve uma movimentação grande e a polícia reagiu com violência, disparando tiros para o alto e jogando bombas de gás lacrimogênio. Eu e outros entramos, à força, no antigo Cine Veneza, para escapar à fúria dos policiais. Já na Faculdade, recebemos uma noite, os Senadores Paulo Brossard, Pedro Simon e Marcos Freire, com o prédio cercado pela tropa de choque e muitos cachorros. Uma confusão dos diabos, mesmo assim eles conseguiram entrar na faculdade e falaram aos estudantes. Eram tempos difíceis e a universidade estava repleta de policiais infiltrados, mesmo assim, fizemos a primeira greve da Faculdade de Direito do Recife. Na votação da emenda constitucional do deputado Dante de Oliveira, que propunha as eleições diretas, apesar da direção da faculdade haver ordenado o seu fechamento, conseguimos com que ela ficasse aberta e olhos na televisão e ouvidos nos rádios, saímos frustrados com a rejeição da proposta.

A primeira vez que tomei uma cerveja, foi no Mustang, que era um bar freqüentado por jovens estudantes, políticos menos conhecidos e por algumas mulheres de vida difícil que trabalhavam na Boate Aritana, situada no mesmo edifício que abrigava o Mustang. No Teatro do Parque assisti a inúmeros espetáculos musicais, e, num deles, tive o prazer inesquecível de conversar com Cartola. Isto mesmo, Cartola, minha Senhora, este ícone da música popular brasileira. Morando por muito tempo na Praça Maciel Pinheiro, bem pertinho do Teatro, chegava muito antes e saia muito tempo depois dos shows, daí o encontro com o velho Cartola.
Caminhar por suas ruas de nomes poéticos como da Saudade, da Alegria, do Jasmim, da Aurora, da União e da Soledade era como compor poemas, se é que estou sendo claro. Outras ruas, sempre me deixavam desconfiados, pelo traçado e até pelo nome, como Bulhões Marques. Nenhuma, entretanto, me deixava mais precavido que a Rua da Conceição, com suas casas mortuárias (funerárias), não que tivesse medo de defuntos e almas, mas é que, sinceramente, não é bom se meter com gente de outro mundo. A Rua Velha, que era velha mesmo, era um dos meus lugares prediletos, até mesmo porque lá morei alguns anos, assim como na Praça Maciel Pinheiro. Sim, morei também na Rua Visconde de Goiana, na Rua do Jasmim, na Rua Gervásio Pires e na confluência das Ruas Barão de São Borja e da Soledade. Porque tantos lugares? Minha cara amiga, eu era estudante, vindo do interior e, por várias razões que agora não convém explicar, era nômade. Na Rua Velha e noutras ruas da Boa Vista, morava tanta moça bonita que dava gosto olhar para suas casas. A Avenida Conde da Boa Vista, hoje símbolo da decadência urbana do centro recifense, era um vigoroso corredor comercial e bancário. Vi o antigo prédio do Colégio Alfa ser derrubado para dar lugar à loja da Mesbla, até então o prédio comercial mais moderno do Recife.
No Cine Veneza, com suas paredes internas revestidas de um tecido aveludado de cor vinho, podia-se paquerar com elegância, na sua sala de espera. Era chique, como se dizia à época. No Veneza vi filmes como Aeroporto, Apocalypse Now e tantos outros. Na tarde de domingo que assisti Hair, deixei o cinema inebriado com os valores explicitados na película e com o coração ressoando a trilha sonora do filme. O som do Veneza era o máximo. Na Avenida Suassuna funcionavam dois cinemas, o Astor e o Ritz, que passavam filmes mais cults e neles assisti “A mulher do tenente francês” e “O iluminado”, entre outros. Na Barão de São Borja, ainda conheci o prédio do Cine Polytheama, inclusive com sua inscrição na fachada e a bilheteria frontal. Na Rua do Paissandu, ou Praça Chora Menino, estava o Cine Boa Vista, local em que vi, pela primeira vez, “Tubarão”. Pense num medo, parecia que as cadeiras tremiam. O Cinema Moderno, com sua enorme sala de espera e sua porta principal envidraçada com detalhes de metal dourado, deixava transparecer uma atmosfera de brilho e antiguidade. Não se podia entrar ali de bermudas e muito menos de sandália do tipo havaiana. 
Outro local que não esqueço é o Cais José Mariano, aonde ficavam as velhas fábricas da Cilpe e do Açúcar Estrela (Amorim Primo), cuja estrela vermelha ficava piscando a noite inteira, cujo trânsito, já era complicado naqueles tempos, por conta dos caminhões de cargas de açúcar e madeira. No local havia várias madeireiras. O Leite Cilpe, do governo do Estado, era distribuído em saquinhos nas padarias, bares e mercearias. Houve um tempo, que todos os dias, bem cedo, eu descia do prédio na Maciel Pinheiro para ir pegar o leite na “Leiteria” que ficava na Rua do Hospício, ainda me lembro da sensação táctil causada pelo leite gelado.
No início dos anos oitenta entrei na Faculdade de Direito e passei a conhecer parte da intelectualidade recifense como Ângelo Monteiro, poeta e filosofo com quem travei diálogos no meio da Rua Sete de Setembro, na calçada de um bar que ficava embaixo do Edifício Ipiranga (outro lugar que morei, por uns seis meses). Diálogos, evidentemente, esquecidos por Ângelo, decorrentes da facilidade com que o álcool permitia ao brilhante professor conversar com um estudante afoito. Um dos temas, me lembro, foi o filme “Je vous Salue, Marie”, de Godard, que causou muita polêmica à época. Como pode a senhora imaginar, a conversa foi sobre religião, dogmas, tabus e sexo, lógico. Décadas depois é que soube que Ângelo Monteiro é natural da cidade alagoana de Penedo, com quem tenho uma ligação afetivo-cultural muito grande. Na Rua Sete de Setembro, estava situada a Livro Sete, de Tarcisio Pereira (de boné, calvanhaque, calça jeans e sempre sorrindo) uma portentosa livraria para àqueles tempos e local de encontro de intelectuais e estudantes, com palestras, recitais, e, que, aos sábados, servia uma boa “batidinha” de cachaça. No segundo ano de faculdade, fiz um estágio no escritório de advocacia, por indicação do ex-senador Mansueto de Lavor, e então tocado por seu ex-sócio, Dr. João Batista de Albuquerque. O escritório ficava no Edifício Pirapama, em plena Avenida Conde da Boa Vista. O Pirapama já era um prédio cheio de problemas e abrigava lojas comerciais no térreo, salões de beleza, escritório de representantes comerciais, alguns consultórios, escritórios de advocacia, casas de massagem e até residências.
Entre 1984 e 1985 trabalhei na agência do Banorte (Banco Nacional do Norte), da Praça Maciel Pinheiro. Um amigo na praça e, então, o mais moderno banco brasileiro mas que, infelizmente, no final da década, terminou sendo incorporado por outra instituição financeira, terminando assim a história de um banco genuinamente pernambucano.
Vi a Rua da Imperatriz se transformar em rua de pedestres, uma mudança urbana radical. Antes, boa parte dos ônibus que saia do centro da cidade para a Várzea, Caxangá e Brasilit, transitavam ruidosamente pela aquela estreita via, causando grandes transtornos.
Estudei no Colégio Oliveira Lima, situado na Rua Barão de São Borja e no Colégio Radier, que ficava próximo à Praça Osvaldo Cruz, onde está o Teatro Valdemar de Oliveira, lugar que vi algumas peças conhecidas. Em frente ao Radier, ficava um posto de gasolina, com um bar denominado “Apple”, que era freqüentado pelos que tinham carro e dinheiro, o que não era o meu caso. Na praça Osvaldo Cruz, havia o Restaurante da Ilha de Kós, da Sociedade de Medicina e seu delicioso bife à moda diplomata. Saindo da Praça da Fusam, como é também conhecido este logradouro, chega-se à Rua do Padre Inglês, na qual havia um hospital psiquiátrico e um centro teológico. Um primo meu que era também estudante, ficou uns dias internado no hospital da Padre Inglês e eu fui visitá-lo algumas vezes. Saindo da Rua do Padre Inglês e ultrapassando-se a Avenida Conde da Boa Vista, chega-se à Rua Dom Bosco que me lembra o Consulado Americano e o conjunto de edifícios conhecidos como “os condenados”.
Passei boa parte de meus dias, antes de ingressar na faculdade, estudando na Biblioteca Pública Estadual, situada ao lado do Parque Treze de Maio, na Rua João Lira. E, entre um livro e outro, tive um ligeiro namoro com uma bibliotecária. Já na faculdade, os estudos eram feitos na sua velha biblioteca ou nas varandas, nos dias de calor ou em que o estudo era coletivo. É deste tempo a freqüência assídua e irresponsável de um bar, cujo dono, chamado, chamado “Maia”, permitia a mim e a outros colegas, companheiros, camaradas, dormirem dentro do estabelecimento, quando a noite já era alta e os últimos ônibus já não transitavam mais. Havia, também, o Bar Robertão Setenta, que de bom tinha apenas a freguesia de um ou outro estudante, cerveja gelada e, principalmente de um poeta que morreu cedo, Ericson. O Robertão 70 ficava na Rua Princesa Isabel, já perto da Rua da Aurora. Sim, minha senhora, ia esquecendo de dizer que, morei também, se bem que por apenas um ou dois meses, num apartamento na Rua Mário Melo, pertinho também da Rua da Aurora. Tempos depois, minha mãe morou no Edifício Alfredo Bandeira, na Rua da Aurora e de da altura do 18º andar se avistava muito do Recife e Olinda. Dividi o apartamento da Rua da Aurora com um velho jornalista cujo nome não me lembro mais, porém me marcou pelo seu jeito enfadonho e por ele haver tomado emprestado um livro e não ter me devolvido. O livro em questão era “Brasil: de Getúlio a Castelo”, do brazilianista Thomas Skidmore, ou melhor, é, ainda. Afinal não me esqueço que não foi devolvido e, muito menos ainda, que foi comprado “no carnet” em várias prestações, na Livro 7.
Fazia muitos anos que não circulava pelas ruas da Boa Vista, mas outro dia, num domingo, matei a saudade e, sinceramente, minha senhora, não tive como conter a tristeza, nessa viagem às memórias do meu coração, recordando pessoas, casas, prédios e odores.

Autor: Augusto Sampaio Angelim - São Bento do Una/PE


Publicação autorizada pelo autor
Autora: Ana bailune

Escrever um conto não é tão difícil para mim quando o tema é livre; mas escrever um sobre um tema determinado é muito difícil. E ainda mais quando ele irá participar de um concurso literário, figurando entre os contos de pessoas muito competentes. Quando o Carlos me convidou, fui até o blog, olhei as fotografias... e de repente, de dentro daquela igreja, à janela da casinha e junto àquela estrada poeirenta, os meus personagens foram aparecendo e acenando para mim. Corri para o 'word' a fim de prendê-los lá antes que fugissem. Portanto, acho que as imagens me ajudaram bastante. Ao mesmo tempo, enquanto preparava uma de minhas aulas de inglês, vi na revista que usava uma fotografia ensolarada da Califórnia, e as ideias foram aos poucos soldando-se umas às outras. 
Ao longo do concurso, já tendo enviado o meu conto,os outros textos foram chegando, e conforme os lia, pensei: "Não tenho a menor chance!" Mesmo assim, gosto tanto de ler, que vencer o concurso era o que menos passava pela minha cabeça. Por isso, quando recebi o resultado fiquei feliz e surpresa. Agradeço a todo mundo que participou deste concurso, pelas horas agradáveis que suas histórias me proporcionaram.
Uma vez me disseram que para aprender a escrever bem, precisamos ler bons autores. Participar deste blog e de outros espaços na internet tem me ensinado muito. Espero que possamos estar todos juntos novamente, em um outro evento! Parabéns a todos!

Autora: Ana Bailune - Petrópolis/RJ

Leiam o texto Califórnia (Primeiro lugar no concurso)

http://gandavos.blogspot.com.br/search/label/Anabailune%20-%20Petr%C3%B3polis%2FRJ

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Um sedutor em apuros

João Batista Stabile

Morava na fazenda um negro velho chamado seu Joaquim, vivia com sua mulher a dona Maria, estes moravam numa casinha de tijolos que ficava um pouco afastada da colônia, num cantinho atrás de um morro. Era um lugar aconchegante, a casinha era rodeada de fruteiras, bananeiras pés de manga, goiaba, jabuticaba, laranja e um grande pé de jaca.

No fundo do quintal tinha diversos pés de mandioca e uma horta toda cercada de bambu rachado.  Ao redor da casa e numa pequena área na frente havia flores de varias espécies, plantadas em latas, baldes velhos tinha também alecrim, arruda e até um pé de losna plantado num pinico velho, que dona Maria cuidava com muito carinho. Ainda no quintal logo perto da porta da cozinha tinha um poço e do lado a tabua de bater  roupa, no fundo depois da horta ficava um chiqueirinho com dois porcos de ceva e solto pelo terreiro tinha galinhas, patos e até gansos que faziam um barulhão danado quando chegava gente.
Seu Joaquim dizia que á muito tempo atrás tinha vindo do norte de Minas, para São Paulo trabalhar na lavoura de café, veio com a mulher e dois filhos pequenos, estes depois de casados quiseram voltar para Minas, ele não quis ir, pois era estimado do patrão e estava acostumado com a vidinha sossegada que levava ali no seu cantinho.
Os filhos foram embora, durante algum tempo trocaram umas cartas, mas era uma dificuldade danada, pois ele e a velha eram analfabetos, tinham que pedir para a filha do administrador para ler e responder as cartas. Com o tempo às cartas foram rareando e depois perdeu o contato de vez, não tinha nenhuma noticias a muitos anos.
Seu Joaquim apesar da idade avançada que ninguém, nem ele sabia quantos anos tinha, era forte e muito trabalhador, eu o conhecia desde pequeno porque fazia muitos anos que eles moravam na fazenda, já este tempo ele não trabalhava mais no café, era poceiro( furava poço de água) e fazia alguns remendos nas casas da colônia  quando precisava, porque era também um pouco pedreiro e carpinteiro.
Na fazenda era querido por todos e conhecido como seu Joaquim benzedor, ele benzia crianças de quebranto, de vento virado, benzia também irizipela e até bicheira em animais, não precisava nem levar o animal lá, era só indicar a direção que estava e podia deixar com ele em três dias não tinha mais nada.
Certa vez quando eu tinha uns dez ou onze anos, ele estava furando um poço no quintal da casa vizinha da nossa, ele passou alguns dias nesta tarefa, pois seu trabalho era muito bem feito, mas um pouco lento devido a sua idade, a criançada curiosa ficava sempre ali por perto para ver o serviço e ouvir seus causos.
Um dia na hora do seu almoço, estávamos dois amigos e eu conversando com ele, não tinha nenhuma menina por perto então ele contou-nos esta estória ou história não sei se é verdade ou não, vou contar da forma que escutei.
Disse ele que um dia coisa de mais de vinte anos atrás, chegou à fazenda um rapaz pedindo serviço, era um moço de aproximadamente vinte e cinco anos, alto forte branco de cabelos bem claros, notava-se que era descendente de europeu, dizia ele que vinha do Paraná, chegou sozinho foi falar com o administrador, disse que fazia de tudo, mas o que mais gostava era de fazer cerca de arame farpado.
O administrador precisava mesmo de uma pessoa assim, e também gostou do jeito do rapaz, que se apresentou muito educado, resolveu contrata-lo e mandou-o pegar sua trouxa e fosse morar numa casa que estava fazia na ponta da colônia.

De fato o rapaz era mesmo educado e muito trabalhador, o nome dele seu Joaquim nem lembrava, só sabia o apelido que era Polaco por ser branco, fez amizade rápido com o pessoal, mas depois de algum tempo perceberam que ele tinha um defeito, era metido a conquistador, gostava de seduzir as moças e mexia até com mulher casada. Bastava ser simpática que ele já achava que estava dando bola, por isso em pouco tempo ele se meteu em varias confusões por causa disso.

Diziam que uma vez ele desonrou uma moça o pai dela de vergonha foi embora da fazenda, outra ele seduziu uma mulher casada e o marido descobriu deu um coro nela e a mandou embora, mas depois com saudade resolveu perdoa-la e trouxe-a de volta para casa, e era motivo de zombaria dos companheiros longe dele é claro.

Uma tarde depois do serviço Polaco estava conversando com um rapaz que trabalhava junto com ele de ajudante fazendo cerca, quando passou com uma moringa de água na cabeça, vinda de uma bica que ficava logo a baixo da colônia, onde todos buscavam água para beber, uma linda morena, alta, cabelos pelo meio das costas, olhos negros, lábios carnudos e uns dentes certinhos e muito brancos.

Por ser muito simpática, passou e os cumprimentou sorrindo, bastou. Disse o sedutor.
- Nossa que mulher linda, com essa eu até casava.
- Rapaz não mexe que essa mulher é direita e o marido dela não é homem de brincadeira, você vai se dar mal.
- Que nada não existe mulher direita é só saber chegar.
- Bom depois não vá dizer que eu não te avisei.

A mulher que se referiam, era de uns trinta e cinco anos, tinha três filhos e era casada com o capataz do gado da fazenda. Este veio morar na fazenda ainda menino família de formadores de café, começou á namora-la quando eram adolescentes, depois de casado sua família foi embora e ele ficou. Era empregado de confiança responsável pelo gado da fazenda, homem de aproximadamente quarenta anos, muito honesto e trabalhador, amigo de todo mundo, mas era de pouca conversa e não tolerava coisas erradas.

Ajudando-o na lida do gado trabalhava seu cunhado, irmão de sua esposa e um compadre.

O marido da morena não era um homem ciumento, nem ela dava motivo para que ele desconfiasse dela, mas por ela ser uma mulher muito bonita que chamava atenção, ele a mantinha sob uma discreta vigilância, pensava o seguro morreu de velho.

Um dia a morena desceu num rio que passava entre duas colônias para lavar roupa, que era um costume da época, lavar roupa no rio. Estava concentrada no trabalho, quando chegou o sedutor e dirigiu-lhe um gracejo, ela não respondeu nada, fechou a cara pegou suas coisas e foi embora, ele pensou está se fazendo de difícil, não tem problema eu espero.

Passado alguns dias, novamente ela estava na mesma tarefa, ele por acaso estava trabalhando numa cerca ali perto, deu uma desculpa ao companheiro e escondido por entre uns arbustos, chegou onde ela estava. Só que desta vez ele foi mais ousado, tentou até agarrá-la, ela desvencilhou-se dele e saiu correndo para casa.

À noite após o jantar contou tudo ao marido, que a ouviu sentado na mesa pacientemente fumando um cigarro de palha.
- Não se preocupe eu já conheço a fama desse sujeito, vou dar-lhe uma lição que ele nunca mais vai esquecer, amanhã você volta no rio como de costume e deixe o resto comigo.

No outro dia na hora do almoço, o capataz chamou o cunhado e o compadre contou-lhes o plano, a mulher conforme o combinado foi para o rio lavar roupas e eles saíram como se fossem correr o gado num pasto distante, mas deram uma volta e se esconderam num capãozinho de mato onde  o rio fazia uma curva e formava uma pequena lagoa, ali amarram os cavalos.

Com muito cuidado foram subindo a pé entre a capoeira e esconderam-se entre umas moitas de capim, próximo de onde ela estava, não demorou muito chegou o tal Polaco com seu jeito sem vergonha  e passou a assedia-la.

Ela com educação más firme disse a ele que a deixasse em paz,  pois era mulher direita, ele ignorando seus apelos abraçou-a e quando ia beija-la, saíram do esconderijo os três homens, o marido vinha na frente com uma garrucha em punho e disse para ao rapaz.
- Você venha comigo.    
Os três o levaram onde estava os animais na beira da lagoa, chegando lá mandou que ele tirasse a calça e a  cueca,  ficando só de camisa, obrigaram-no a deitar-se de lado, o capataz sempre com a garrucha apontando para ele, mandou que os companheiros o amarrasse os pés e as mãos juntos, como se faz com um porco, deixando os testículos a mostra atrás das pernas.
Disse o capataz:
- Compadre prepare uma salmoura bem forte que eu vou capar esse safado. Sentando-se na raiz de uma árvore que ficava bem em frente ao rosto do rapaz, que estava chorando e encharcado de suor, tirou da cintura uma grande faca, pegou do bolso um pedaço de fumo de corda e começou a fazer um cigarro de palha.
O compadre pegou uma lata enferrujada, encheu-a de água no rio, pegou um bom punhado de sal jogou dentro e mexeu bem, quando estava pronta colocou bem perto do rapaz. 

Terminado o cigarro ele o colocou atrás da orelha e com toda a calma passou a afiar a faca, o sedutor pedia perdão, chorava e implorava para que o soltasse, mas ele fazia que nem estava ouvindo, o cunhado e o compadre sentados de lado só observava.
O capataz olhou a faca experimentou o fio, achou que já estava bom, levantou foi até o rapaz, abaixou-se por trás, pegou e puxou o saco dele para esticar e passou rapidamente a costa da faca bem acima dos testículos, o machão conquistador  cagou-se todo.
O homem guardou a faca na bainha, pegou a garrucha engatilhou os dois canos, encostou-a no nariz do rapaz, que as duas bocas dos canos ficaram coladas as suas narinas e disse: - Cabra safado, eu não mato você  agora porque não quero estragar minha vida por causa de um cagão, vou sentar ali pitar o meu cigarro quando acabar vou pegar meu cavalo e sair a sua procura, se eu ainda o encontrar vou mata-lo.
Dizendo isso levantou pegou um chicote de couro trançado e tala de couro cru, que usava no trabalho deu-lhe três lambadas na  bunda, que cada uma levantou um vergão vermelho e mandou que o compadre  o soltasse. Este saiu correndo desesperado sem rumo e até hoje ninguém mais soube notícia do sedutor.

Autor: João Batista Stabile - Marília/SP

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Terno branco de linho

Autor: Defranco
Ambrósio era a alma da confeitaria União nos anos áureos do café em Londrina, a fama dos seus doces ultrapassava as fronteiras do Paraná. Apesar disto seu ganho era modesto, a profissão não tinha o glamour dos dias de hoje. A todos atendia com simpatia, dos fregueses assíduos sabia suas preferências e também conhecia os que gostavam de novidades.
Todas as vezes que se aventurava numa receita nova tinha em mente a quem apresentar a prova. Dentre estas pessoas havia uma sua preferida, morena cor de jambo, dentes alvos e alinhamentos perfeitos, pernas roliças, sorriso fácil. Quando manipulava o chocolate, pensava nela, pois além da cor lembrá-la era este o seu gosto preferido.
Sexta feira era o dia em que Ana Rosa aparecia para saborear um doce na União, e ele a aguardava com ansiedade, reservando o doce de sua preferência. Quando tinha uma receita nova preparava alguns para ela provar. Ela trabalhava no café pouco acima do cinema Ouro Verde em Londrina, local de corretagem de café e das propriedades rurais da região, lugar freqüentado por fazendeiros, exportadores e beneficiadores do café, enfim, gente de muito, mas muito dinheiro.
Um dia a paixão de Ambrósio por Ana Rosa fugiu do seu controle e num rompante a pediu em casamento, ela abriu aquele sorriso, mas não perdeu a pose, parecia que já tinha passado por isso outras vezes, e falou:
-Que isto Ambrósio!? Homem para se casar comigo tem que ter um terno branco de linho! Quando puder apareça.
Ambrósio se entristeceu devido à rejeição de pronto, mas não desanimou, se o problema era este vamos dar um jeito, pensou. Dentre os seus fregueses tinha o melhor alfaiate de Londrina, conversou com ele, que se prontificou a confeccionar o terno num preço módico e parcelado em quantas vezes precisasse. Foi às Lojas Pernambucanas atrás do corte de linho e acessórios, assustou-se com o preço, não titubeou, abriu um crediário para pagamento em doze vezes. Comprou também um chapéu Panamá, coisa dos fazendeiros bem sucedidos da época, tudo de 1ª linha, o investimento valia a pena.
Um mês depois recebeu o terno, aguardou a próxima sexta, dia de Ana Rosa aparecer, fez caprichosamente o doce dela preferido, e quando ela chegou falou:
- Hoje, Morena, seu doce é por minha conta, o terno de linho branco está pronto! Ana Rosa ao invés de abrir o sorriso continuou com a boca aberta, pasmada, Ambrósio não deixou espaço para recuo e emendou: -  Está passando um filme espetacular no Ouro Verde, gostaria de ir comigo? Amanhã ás 8:00 horas? Ana Rosa ficou sem saber o que responder, mas assentiu desajeitada, deixando Ambrósio nas nuvens, afinal o investimento vultoso valeu à pena, pensou com seus botões.
Ambrósio morava na parte de baixo da linha do trem em Londrina, para chegar a sua casa cortava um caminho pela ferrovia, no dia tinha chovido um pouco, a rua não era asfaltada, ao deixar a confeitaria nesta tarde especial, começou os preparativos para o encontro tão esperado. Bom, vou com os sapatos velhos até o asfalto e lá coloco os novos, deixando os antigos na casa do amigo Hélio, e também me visto lá para não sujar o terno. Não vou de ônibus, vou fiar o táxi do Júlio, pago quando puder, nem que seja com doces por minha conta. Brilhantina nos cabelos, pente flamengo de osso, lenço despontado no bolso, sapatos brilhando que dava até para usar como espelho. Planejou, e assim fez.
Desceu do táxi na frente do cinema para fazer boa figura, buscou pela sonhada amada, e nada, procurou na praça em frente...nada, na fila, vários casais, começou a olhar do final da fila para a bilheteria, quando viu Ana Rosa de braço dado com outro, toda festeira, e este nem de terno estava...
Seu mundo veio abaixo, não se aproximou, saiu de fininho, desorientado, seus planos para a vida toda ruiu como um barraco que cai em dia de chuva em ladeira deslavada. Foi direto ao primeiro bar e pediu da mais forte bebida disponível, coisa que ele nem sabia qual era, pois não tinha o hábito, pós todo o dinheiro que tinha sobre o balcão, das entradas do cinema, do táxi para levar Ana Rosa para o outro lado da Cidade, e falou para homem que o servia:
- Transforme isso aí em bebida das mais fortes, pois preciso lavar a alma.
- Mas, isto é muito dinheiro! -Disse o homem do bar.
- Não faz mal, vai enchendo o copo. E, de um gole só entornava todo o conteúdo.
Saiu cambaleando, sem rumo, chegou ao desvio, pela linha do trem seguiu tropeçando nos trilhos e dormentes, se esparramou numa poça d’água, e por lá ficou, foi achado assim no outro dia, o terno de linho enlameado, para quem não conhece a terra vermelha do norte do Paraná, é coisa que gruda e só sai com muitas lavagens depois, o chapéu Panamá, cortado possivelmente pela passagem de um trem, por pouco não perde a vida.
- Ana Rosa desapareceu, mas não da minha cabeça, até hoje, passado mais de 40 anos ainda penso como seria a minha vida com ela. Comparação injusta com a minha velha, pois comparar uma ilusão com uma vida vivida é coisa desigual, não é Dona?
- O terno foi lavado e engomado de novo e consegui vendê-lo por um terço do preço do que paguei, tive que pagar o crediário até o final, mas a alma nem com todo o álcool que tomei naquela noite e em outras foi alvada.
Chegou o ônibus que o levou para sua casa na Vila Nova onde seguiu com sua vida velha.
- Boa tarde, Dona, obrigado por ouvir a sina de minha vida.
(história contada a minha irmã em um ponto de ônibus em Londrina-Pr)

Autor: Defranco - Bragança Paulista/SP

Página do autor:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=30365

Publicação autorizada pelo autor

Vento Norte - Autora: Bruna Barievillo

Uma tarde dessas em que fico lagarteando com a mana em Itajaí, alguém nos perguntou o que é o tal de vento norte. Tentamos, sem sucesso, explicar o fenômeno tão peculiar ao coração do Rio Grande. Ambas salientávamos a intensidade do inverno gaúcho, o frio seco, do vento Minuano cortante [sentido sul] se infiltrando por qualquer vão das blusas tricotadas. Só assim daríamos a dimensão da felicidade proporcionada pelo verão instantâneo trazido pelo vento norte.
Certamente, o vento norte é a minha maior saudade do pago. Chimarrão tem por aqui, churrasco, é só trazer a carne gaúcha [e espeto] que se dá um jeito, os amigos vieram pra cá, em sua maioria, até Polar de 600mL mas o vento norte…  Santa Maria tem uma geografia especial, situa-se na depressão central do RS [famoso buraco], circundada por um cinturão de morros, por isso o fenômeno só se dá por lá.
Para tentar elucidar com maiores informações e menos metáforas a dona Evelyn, vou ilustrar um dia de vento norte [fenômeno peculiar apenas à minha terra]. Imagina ir para a cama à noite num frio de -5°C, tremendo, sentindo tudo gelado, sob uma pilha de acolchoados, sim, porque edredom é falácia. Para frio de verdade, viva os acolchoados de lã de ovelha que as vovós costuram. Aliás, ir ao banheiro de madrugada, esquece, mais bem-vinda uma cistite pois só de imaginar o frio do acento do vaso, tu desiste. Contudo, o frio cruel é seco, de vento cortante, sem umidade.
E então, como que num passe de mágica, tu acorda, abre a janela pela manhã, tem um sol lindo brilhando, o céu limpinho, os termômetros marcam de 35 a 39°C, é um dia de verão [veranico como se diz]. E sopra um vento quente, que atinge de 40 a 60 km/h, varrendo as ruas, despenteando as loiras madeixas das santamarienses, batendo portas e derrubando placas, eis o vento norte. Invariavelmente, o dia de vento norte tem céu de brigadeiro e temperatura alta.
Os pesados cachecóis e as luvas são trocados por minissaias e roupas leves, o “encolhimento” inerente aos dias de friagem, é substituído por sorrisos abertos. A felicidade se estampa nos rostos [carpe diem], as ruas ficam lotadas de gente empunhando sorvetes de casquinha pois sabe-se a regra: o dia é único, a trégua não durará mais que 24h. Nessa noite, lotam-se os bares, ouve-se risadas sonoras vindas dos apartamentos e os carros andam de janelas abertas. É tão mágico porque tem prazo de validade e há de se aproveitar cada minuto. Amo!
O dia posterior ao “veranico” é de tamanha umidade que escorre pelas paredes, os vidros embaçam, os cabelos desandam, o frio “de renguear cusco” [abaixo de zero] se apresenta novamente. E, exatos três dias pós vento norte, cai uma enxurrrada [toró], caprichos climáticos da cidade universitária. Não parece possível que na mesma semana usou-se trajes tão opostos.
Confesso que detesto inverno entretanto tenho saudade do frio do pago só pelo vento norte. Continuo afirmando como naquela tarde que se eu tivesse um presente para te dar, Evelyn, certamente seria um dia de vento norte. Aliás, é um dia que eu guardaria numa caixinha para presentear os meus netos.
Autora: Bruna Barievillo
Publicação autorizada por escrito pela autora da obra

Blog da autora: Crônicas do Quotidiano
Endereço:  http://brunabarievillo.wordpress.com/

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Ô prosa boa sô

Marcos Pestana

Uma turma da capital resolveu sair da rotina e caminhar pelas trilhas e picadas no pé da Mantiqueira no Vale do Paraíba. Seguiam eles uma antiga trilha usada por tropeiros, entre Taubaté e Pindamonhangaba. Para isso contrataram um guia da região... Ditinho o nome dele, pindense inveterado, amante da natureza e daquela mata, sabia tudo que se passava.
A rapaziada enquanto andava proseava, risos e vozes altas quebravam o silêncio da mata fechada. Seguiam os passos de Ditinho quando de repente, o grupo se deparou com uma cruzinha, param curiosos, um deles olhou para Ditinho como que pergunta... O que é isso?   
Sem rodeios ele foi logo explicando...
“É de bom agrado aqui na região colocar uma cruzinha ou até erguer uma capelinha onde alguém perdeu a vida, seja por acidente ou de forma violenta”.
A região é rica em causos e com o passar dos anos, criam-se lendas e contam-se estórias de assombração e alma penada.
Mal a turma iniciou a caminhada, depararam com uma grande pedra, e, gravado nela, o contorno de um pé humano. Logo os curiosos se aproximam, formando um círculo e questionam Ditinho para que explicasse o que significava aquilo. Nessa hora Ditinho tornou-se sério e explicou...
“Foi um filho que tentou matar a mãe, ali ele ficou de tocaia., e no momento do crime...  sentiu que a pedra havia prendido seu pé... tão grande foi o susto que morreu ali mesmo...”.
Uns arregalaram os olhos, outros se benzeram. Em meio aos olhares e murmúrios, um rapaz mais curioso perguntou...
“O senhor tem conhecimento de algum outro causo”.
Sem hesitar Ditinho olha nos olhos do rapaz e diz lentamente...
“Tenho... é o do corpo seco, coisa ruim, é com mãe também”.
Aflito o rapaz pergunta...
“Pode contar?”.
“Posso sim, você sabe que bater em mãe é pecado, não sabe? e é difícil ser perdoado”.
Ditinho fez uma pausa, e ninguém solta um som sequer, todos olham ansiosos, preocupados... E ele continua...
“Quem ergue as mãos pra mãe, quando morre, a terra rejeita. É um corpo tão sem valor, que nem a terra quer. Ninguém sabe quando o corpo está seco. Só na hora que se mexe na cova é que se descobre. Então o coveiro tem que avisar a um padre, ele benze... tem que ser à meia noite certinho. Então dois homens pegam o corpo seco e dão a um terceiro que deve estar de costas para pegá-lo de forma que um não paro outro. Carrega até o mato e o joga... sem olhar para trás, pois ser olhar, o corpo seco monta no de quem olhou. No mato, sozinho, ele se esconde, fica encostado num pau e toma conta do matagal. Naquele lugar é ele quem manda...”.
Um outro pergunta intrigado...
“Aqui tem algum?”.
Ditinho se benzeu... Um ou outro, também, e respondeu...
“Não, aqui não... dizem que mais ali adiante, perto do Paraíbão, tem um... mas não sei te precisar o lugar... nunca fui bisbilhoteiro”.

Autor: Marcos Pestana - São Paulo/SP

Página do autor:
http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=95857

Publicação autorizada pelo autor



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Um caso de preconceito

Autor: João Batista Stabile

Até os anos setenta o perfil dos moradores desta fazenda tradicional cafeeira era  a grande maioria famílias de brancos católicos, viam-se poucos  pardos e raramente aparecia por lá uma família de negros, quando isto acontecia o povo tratava-os com um certa reserva até ir conhecendo depois que faziam amizade tudo mudava. 
Protestante só tinha uma família que apesar de já serem conhecidos do pessoal, ainda tinha alguns que guardava uma distancia deles, não que os desrespeitasse, mas longe faziam comentários sobre sua religiosidade.
Mas o preconceito que hoje é tão comentado e muito justamente é combatido, isso naquela época ninguém conhecia, nunca se ouviu falar sobre isso, agiam de acordo com  o costume  e  sabemos pela história que a nossa sociedade sempre foi machista e preconceituosa.
Bom dito isto, vamos ao caso.  Aconteceu no ano de 1975 após a grande geada, chegou para morar na fazenda um homem de aproximadamente uns quarenta anos, sozinho negro e para piorar a situação tinha vindo de São Paulo seu nome era Benedito, foi morar numa casa na ponta da colônia.   
Imaginem o alvoroço que causou entre os moradores, os homens mais discretos por vergonha de assumirem que estavam também receosos com ele quase não comentavam, mas as mulheres e as crianças estavam apavoradas diziam uns será que não é um maloqueiro, outros ou um feiticeiro? Veio de São Paulo ta fugindo da polícia.
O pobre nem imaginava o que se passava vivia  tranqüilo trabalhava, a tarde fazia sua comida, o que chamavam na época de (queimar lata), um dia ele muito inocentemente viu que não tinha sal em casa foi na vizinha pedir um pouco emprestado, ai que as suspeitas aumentaram pois o povo supersticioso  diziam que não era bom emprestar sal.
Passado uma semana de comentários e preocupações chegara o domingo e Benedito foi  para a cidade com uns colegas de serviços,  foi visitar uma família  de amigos que moraram muitos anos na fazenda e era conhecida de todos.
A tarde a notícia chegou as colônias que Benedito era amigo de tal família, foi um alivio geral então ele não era má pessoa, era amigo dos fulanos, tudo mudou a partir deste dia o pessoal já o via com outros olhos, sem aquela desconfiança.
Como disse antes ele chegou logo após a geada, numa época difícil que o pasto estava todo seco, o administrador encontrando dificuldade em alimentar o gado, teve uma idéia que logo se viu que não deu certo.  A única planta que estava verde era a taboa nos brejos, ele mandou que Benedito fosse  com uma carroça na beira do rio cortar taboa e trazer para o curral para ver se o gado comia, não comeram apesar da insistência.
O corte de taboa não deu certo com alimento para o gado, mas rendeu-lhe um apelido que ele carregou pelo resto de sua vida,  agora sem medo as pessoas já com uma certa liberdade o apelidaram de Dito taboa.
Dito taboa com o passar do tempo revelou-se  uma ótima pessoa, amigo de todos respeitador, trabalhador era também um pândego, gostava de caçoar dos colegas de trabalho.
Tinha um defeito que só a ele prejudicava, quando bebia exagerava más não brigava nem desrespeitava família de ninguém, ficava sim mais brincalhão ainda e perturbava os amigos.   
A vida dele sozinho era difícil, então com o tempo começou a namorar uma moça, encontrou um pouco de resistência por parte da família porque ela não era lá muito certinha da cabeça, mas mesmo assim um dia fugiram e foi morar juntos ai família acabou aceitando.
Dito taboa tinha experiência de vida, morou muito tempo em São Paulo foi  metalúrgico, então tinha muito assunto para conversar com o pessoal  de pouco estudo e quase nada viajado nas horas de descanso ele estava sempre no meio da roda contando estórias.
Ele também gostava de jogar truco e de futebol, naquele tempo havia torneios de fazendas, ás vezes no campo da cidade ou então em uma fazenda onde reuniam os times para jogar.
A fazenda em outros tempos tivera time de futebol até bom, mas agora não tinha gente suficiente para formar um time que pudesse disputar campeonato, Dito taboa já fazia alguns anos que morava ali e lutava para conseguir formar um time, mesmo pegando algum jogador da cidade ainda assim era difícil, ele conseguiu até um jogo de uniformes más  time mesmo nada.
Um domingo tinha um torneio numa fazenda  e Dito taboa tentou por todos os meios conseguir um time para participar, chamava um, chamava outro, mas ninguém  queria ir, foi então que ele pegou o jogo de uniforme colocou dentro de um saco e foi para a fazenda onde se realizaria o torneio.
Chegando ao local tinha muita gente conhecida que iam jogar ou apenas assistir e nesses eventos sempre montavam um barzinho, e foi ali que ele encostou com o seu saco de uniformes e começou tomar umas cachaças e conversa com um, com outro  convidar  uns jogadores  de um time que havia perdido e não ia jogar mais, outros  de  outro time na mesma situação e mais alguns do povo que estava assistindo os jogos, conseguiu fazer um catado e formar um time.
Tudo isso foi feito acompanhado de umas boas doses de cachaça, quando o time estava formado ele já estava bêbado, então ele distribuiu os uniformes e já não agüentando mais deitou numa sombra e dormiu, terminado o torneio contrariando todas as expectativas o time do Dito taboa foi campeão, foram acordá-lo  para  receber o troféu.
Neste dia ele chegou de volta na fazenda já noite, com o saco de uniformes nas costas, bêbado porque depois que ganhou o torneio ele foi beber mais para comemorar, passou de casa em casa  mostrando o troféu que havia ganhado todo feliz.
Dito taboa morou um tempo, não sei ao certo quantos anos, talvez tenha chegado uma década, trabalhou em diversos serviços, durante todo esse tempo foi amigo brincava com todo mundo, nunca se ouviu falar que ele tenha faltado com o respeito com uma mulher, moça ou criança.
Na década de oitenta quase todos desta época já havia ido embora, a maioria para a cidade, Dito taboa também foi embora depois de um tempo soube-se que ele morreu.
Ficou a lição de como a sociedade é injusta e como podemos fazer com que uma pessoa encontre barreiras para adaptar-se ao meio em que vive, seja pela cor de sua pele , pela posição social, religião  ou apenas por ser  um estranho, hoje sabemos que isso é preconceito mas naquela época ninguém tinha esta consciência. 

Autor: João Batista Stabile - Marília/SP