terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ecos & Cheiros - Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira

Fim de ano chegando... Espírito natalino pedindo passagem. Lembranças, expectativas, novos sonhos, enfim...
Resolvi dar uma vasculhada em meus natais e os percebi  todos, sem excessão, repletos de sonoridade e aromas.
Os cataloguei em tres diferentes etapas de minha vida:
PRIMEIRA: "Natais de minha  infância"
Havia prometido à mim  mesmo não mais falar na "rua do Fomento" e, de repente, é nela que me vejo agora.
A molecada da vizinhança à caminho da mata. Catar os musgos, as bromélias, as pedras envelhecidas... Trazê-las para o presépio de dona Avelina. A árvore de natal (uma espinhosa araucária, legítima) vinha na carroça, cheia de cuidados para que nenhum galho se quebrasse.
Presépio montado: A fonte, o engenho, as ovelhas, os reis magos... Pequenas ruelas traçadas com areia, ladeadas de musgos. No lago de espelho, banhavam-se os cisnes.
Pela árvore, algumas bolas coloridas, chumaços de algodão e anjinhos delicados que as mãos abnegadas da dona da casa recortavam em papel crepom.
Alegria na pequena rua. Natal no subúrbio!... Mulheres de mãos na massa. Cucas recheadas, fornalhas escaldantes, goiabada, uvas passas, canela... Cheiros de Natal!...
Casas caiadas. A baba de tuna, espinhos de cacto, com seu asco forte, dando fixação à cal. Cheiros de Natal!...
O resultado final? Casinhas brancas, soleiras delineadas em vermelho forte. Pombais em festa, perdidos nos espaços verdes da minha memória.
Ameixas sumarentas caindo sobre touceiras de alecrins. Na mistura de ambos, um bouquet inesquecível, embriagador... ”Cristhian Dior”, invejaria, se o tivesse aspirado. Cheiros de Natal!...
Cerveja caseira. Espumante! Essa, então, tinha cheiros e ecos...
Cheiro do lúpulo, do acúcar caramelizado... Ecos de rolhas de cortiça incapazes de resistir à força da fermentação. Estampidos  de Natal!...
Rádios ligados à todo  volume. Antigo anúncio das Pernambucanas,pela "Difusora": "Dezembro, vem o Natal!..." Ecos natalinos!...
Noites encantadas dos natais de minha infância. Vozes de rezadeiras e capelães na casa de dona Avelina: "Dooorme em Paz oh Jeesúus!..." Ecos de Natal! Gaitinhas de boca (os presentes nunca iam muito além disso), sons enquadrados em janelas caiadas. Ecos de Natal!... Ouviam-lhes  algumas estrelas, viajantes das madrugadas. "Doorme em paz oh!... Jeesúus..." E dormiam também os meninos da minha rua. Despertavam na  alvorada dos sabiás, cantores de dezembro, embrenhados nas guabirobeiras, saudando a aurora de um novo dia.
SEGUNDA: "Outros Natais"
Vejo-me agora, numa sala ampla de uma casa polonesa. A família é grande, a alegria não é menor.
Num canto da sala a antiga TV “Colorado “(em preto e branco), aquela com "perninhas", anuncia o pouco tempo que resta antes do início da missa do galo. Ao lado, numa eletrola, toca um disco de vinil... Numa das faces: músicas natalinas do coral de Varsóvia. O "Dziadzio" cantarola junto... Faz pose!... Brilham os cabelinhos brancos. Orgulha-se em conhecer e dominar a língua da sua Pátria mãe. A voz aguda  e  desentoada,ressoa pela saleta... "Glóooria..." Um neto abusado cruza correndo pela sala. Rindo, complementa em tom meio debochado: "In excelsis Deo"...Ecos de Natal!...
Na outra sala, arruma-se a mesa para a ceia. Falam todos ao mesmo tempo. Estão felizes. Zumbidos de natal!...
A "Bapka", cansada, entrega os pontos... Um lhe abraça, outro a elogia. Os pequenos querem-lhe o colo... Aconchegos de Natal!...
Chegam parentes da  capital. A familia está completa... Sete mulheres.” A casa das sete mulheres!...” rsrs... Uma delas divide comigo, há muitos anos, o peso da “mala” costumeiramente sem alças que, por vezes, a vida nos impõe. Laços de Natal!...
Comidas polonesas, temperos diferentes. O panetone e a torta de uvas, especialidades de Hilda (hoje com natais em outra dimensão) os mais deliciosos que já provei. Cheiros e sabores de Natal!...
TERCEIRA: "Recordações"
Agora reencontro-me nas lembranças... Nada que me intristeça. Ao contrário, fazem-me avaliar o quanto sorvi os bons momentos que a vida me ofereceu. Seguindo  a  lei  natural  das  coisas, foram-se algumas pessoas... "Bapka" e "Dziadzio", combinaram-se e num dia de um dezembro dos anos 90, partiram. "Bapka", pela manhã. "Dziadzio", à tardinha. Morte natural em ambos... Juntos, tomaram caminhos eternos. Um coral de anjos certamente os recebeu, com o mais belo e afinadíssimo dos "Glóooria!..." Afinal, no céu, imperava também um clima natalino.
Depois foram-se tantos outros e os encontros de familia, a partir de então, tornaram-se excassos.
Minhas noites de natal continuam lindas e por vezes tenho a sensação de que  estrelas (as mesmas  das  janelas  de  minha  infância) agem  em  cumplicidade com meu silêncio. Sabedoras que dentro dêle, num cantinho qualquer, repousam docemente ecos embassados de natais distantes, cheiros de um tempo que a alma ainda sente e o coração jamais consegue esquecer.

Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira - Irati/PR
Página do autor:
Publicação autorizada através de e-mail de 16/12/2011

5 comentários:

Patricia disse...

Simplesmente linda sua crônica de natal, Iratiense. Muita rica em detalhes e em sabedoria. Fazia tempo que não lia um texto tão completo e bem elaborado. Parabéns e Feliz Natal.

Carlos Lopes disse...

Amigo Iratiense ... que crônica!? Adorei! Bonita de ver e ler. Feliz natal amigo.

Artemisa disse...

Adoooorei! Belo e puro texto natalino com pitada de real. Quem sabe, sabe amigo. Parabéns a Iratiense pelo seu fabuloso Ecos & Cheiros.

Anônimo disse...

lendo hoje ecos &cheiros lembrei de minha bapka oun babuska como alguns al chamavam,pois ha uma mistura de russos e poloneses da galicia ,as vezes entro em lojas de moveis de madeiras antigas usadas como moveis de demolicao hoje so para sentir o cheiro da casa dela novamente,o musgo que catavamos quando criancas so para brincar e cheirar,acho que musgo tambem vicia viu,o sotaque igual ao do joao paulo segundo,uma repreensao por passar a vassoura sobre a mesa para tirar os farelos de pao do cafe da tarde,eu so tinha 6 anos,o pedido dela de ir buscar uma garrafa de vinho para beber com a gente la em casa,o cheiro da cuca polaca que ela fazia so com farinha agua fermento banha e um ovo e muita farofa,bolacha caseira,o cheiro do pao assado no forno fora da casa nas brasas,seu andar elegante aprendido antes de um casamento aos 14 anos,ela sempre dizia vcs sao descendentes de nobres,levantem a cabeca,encolham a barriga e nunca se curvem ao andar, ela chegou a usar trajes que hoje so vemos em novelas de epoca e sinhazinhas de colegio,usava seis anaguas por baixo da saia ate onde me lembro,quanto a cerveja caseira esse ano que passou tambem nao tivemos no natal o sr tambem polones avo de um amigo do meu filho temporao faleceu.cheiro de vida,cheiro do ponta-livio remedio usado para dor inesquecivel avo francisca pliskevisk depois de casada tambem sovinski te amarei eternamente,um dia nem que seja por um minuto nos reecontraremos diante do Deus de nossas vidas,obridad joel por mais essas lembrancas,nao esquecidas mas guardadas com carinho no meu coracao saudades vo te amo.vera

Joel disse...

Êste comentário tocou-me profundamente.Na minha região,onde é muito forte a presença de descendentes de eslavos(poloneses e ucranianos)a convivência nos faz assimilar e incorporar ao nosso dia à dia muitos hábitos e costumes destas etnias.São pessoas batalhadoras,alegres e preservadoras de suas histórias.Ao longo dos meus quas e 60 anos,tive a oportunidade de ser testemunha ocular de alguns traços,hoje superados,é claro,dêste povo maravilhoso.Lembro-me,lá pelos anos 50,quando dos casamentos,que vinham das colonia s eslavas numa grand e comitiva d e carroças,tôdas enfeitadas com papel crepom.Havia sempre alguns "polacos" tocando sanfonas e rabecas (uma espécie de violino).Proximo à casa onde eu morava havia uam ponte e a comitiva parava para dar d e beber aos animais.O pessoal descia das carroças e a alegria corria à solta com muita música,dança e animação.Esta s imagens permanecem vivas em minhas lembranças.As recordações que tu tens da casa da bapka,com todos aqueles detalhes,me são muito familiares.Cerveja caseira,corovai,Leitão à pururuca com Kreen,cheiros d e ervas aromáticas no domingo de ramos e cesta repleta d e iguarias a serem benzidas no sábado de aleluia.Obrigado pelo carinho de sua leitura e perdoe-me ter me alongado tanto.É que o tema mexe comigo.(conosco) rsrs...