terça-feira, 3 de abril de 2012

Na curva do caminho - Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira

Era por ali o nosso caminho de quase todos os domingos. Depois de alguns poucos quilômetros de uma rodovia, por opção, adentrávamos àquela cidadezinha onde servia-se sorvetes deliciosos.

No carro a maior algazarra. Meu filho, ainda criança, e a sua “tchurma” sempre muito animada. E bota animação nisso!

Tomávamos todos os sorvetes à que tínhamos direito e seguíamos rumo às cachoeiras, os riachos, para  nossas tardes de pescarias.
O programa era quase sempre o mesmo, mas a  agitação dava o tom de algo inédito à cada fim de semana.

Quase na saída da pequena cidade, numa curva, uma oficina mecância chamava à atenção ostentando sobre um pequeno pedestal de madeira, um boneco de lata com um sorriso macabro segurando um facão em cada mão. De acordo com a velocidade do vento o mesmo movia os braços como se estivesse desafiando alguém com aquelas armas brancas.

Os meninos adoravam! E lugar comum era darmos uma paradinha para que a galera se divertisse.

Um pouco mais adiante, uma casa... Uma casa de madeira,totalmente descorada pelo tempo e sempre fechada.

Encolhida por trás do arvoredo numa ruazinha transversal, isolava-se na paisagem que lhe oferecia do outro lado nada além de uma cerca aramada e a vastidão dos campos com algumas araucárias, aqui e acolá.

Enquanto os meninos reverenciavam o seu boneco de latas, em devaneios eu adivinhava histórias de  vidas  entre aquelas paredes rôtas. Tôdas, sem excessão, repletas de mistérios, enigmas e solidão, é claro.

O tempo passou tão rápidamente e com êle conduziu as crianças de então, para o mundo da adolescência, da juventude, quando libertos  dos ninhos  buscaram para  seus vôos  os céus de suas preferências.

Domingo à tarde. Meu filho e eu,(êle agora com seus vinte anos) retomamos, sem premeditar, o mesmo trajeto de antes. Coisa que há muitos anos não mais o fazíamos.

Veio-nos à lembrança, a “curva do boneco” como eles  a denominavam. Surpresos, percebemos que este não mais existe. A ferrugem certamente o levou para as dimensões dos bonecos de lata. Restava ainda por  ali um corroído carro vermelho, parcialmente encoberto com uma lona preta, que um de  seus  amigos  insistia em afirmar tratar-se de  uma “Ferrari”. Pode?

...E a casa enigmática, do mesmo jeitinho que a conhecemos outrora. Desci do carro e a fotografei enquanto  ruminava algumas lembranças.Senti saudade das minhas crianças ,e até do boneco de latas. Senti na boca o sabor dos sorvetes de outrora, e confesso: se naquela  tarde  não  fizesse tanto frio, iria procurar pela antiga sorveteria e refastelar-me aos sabores de creme e chocolate.

Retornando ao carro, fui indagado por meu filho:

_E a foto desta casa “caídaça”, serve pra quê?

Hesitei  um  pouco  e  lhe  respondi:

_Sei lá!...Álbum de recordações, talvez.

E com meus botões fui confabulando: Vou registra-la antes que, à exemplo do boneco de latas, também ela vá para outras dimensões.

As  dimensões das casas "caídaças"!


Autor: Iratiense Joel Gomes Teixeira - Irati/PR

Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 03/04/2012

2 comentários:

Ana Bailune disse...

Olá! Registramos as imagens que são importantes para nós, as que tem conotação afetiva, não tanto pela beleza em si. Adorei ler!

Joel disse...

Prezada Ana Bailune.Esta crônica foi escrita há quase dois anos atrás.Dia dêsses,passando pelo mesmo local,pude observar que ela já foi demolida.Valeu aquele registro que fiz e que encontra-se estampado no texto na m/página no Recanto das Letras.Hoje ela descança nas "dimensões das casas caídaças" rsrs...