domingo, 1 de abril de 2012

¨Tarzan e as Amazonas¨ - Autor: Carlos Costa

- Tarzan?!! – gritávamos em coro, todos ao mesmo tempo! Estávamos dentro do Guarany, hoje destruído para dar lugar a um banco, mas um dos mais belos e imponentes cinemas que já existiram na cidade de Manaus, onde se realizavam trocas de revistas coloridas dos heróis preferidos, adquiridas em bancas na Avenida Getúlio Vargas, ainda cheia de árvores.
Eu e amigos assistimos tantas vezes ao filme “Tarzan e as Amazonas” que decoramos todas as cenas, falas, principalmente aquela momento em que o herói estava fugindo das índias Amazonas por uma ponte de corda; parara, olhava para trás. Nesse momento exato, em coro, do mezanino do cinema, chamávamos ao mesmo tempo: “Tarzan?!!”.
Era uma risada geral de todos os outros que lá se encontravam. Durante as lutas, mesmo sabendo que Tarzan sempre venceria, torcíamos por ele aos gritos, quase chegando ao delírio, como hoje vi minha esposa torcendo pelos “Vingadores”.
Dentro do cinema O Guarany, havia o “Jardim do Namoro”, como chamavam as áreas laterais, mezanino, lanchonete e era tudo em ferro. Os adolescentes costumavam ficar na área do mezanino só para arremessar copos com urina ou resto de refrigerantes no pessoal que ficava na parte inferior do cinema. O Guarany possuía dois banheiros e as primeiras cadeiras surgiam bem próximas à tela de pano para a projeção. Tinham também os famosos “lanterninhas” que tanto ajudavam quando se queria encontrar um lugar vago como também atrapalhavam os namoros dos assanhadinhos.
O filme “Tarzan e as Amazonas, produção americana de 1945, em preto e branco, com direção de Kurt Neumann, narrava a história de um grupo de arqueologistas que pedia ajuda ao Tarzan para encontrar uma antiga cidade escondida no vale das mulheres. Em princípio, Tarzan recusava, mas Boy, que seria o filho de Tarzan, acabava tomando seu lugar e fazendo o serviço, depois de ser ludibriado pelo grupo.
Então, a Rainha das Amazonas pede a ajuda de Tarzan para que seus segredos não sejam revelados para o mundo. Durante esse desenrolar, há a cena de Tarzan fugindo das índias por uma ponte de corda e, bem ao meio, olhava para trás. Era nesse instante que todos gritavam: “Tarzan!”. Todos riam porque pensavam que herói estava atendendo aos nossos gritos.
Lembrei desse episódio a frequentar um cinema em Manaus para assistir ao filme “Os Vingadores”, reunindo heróis improváveis dos desenhos em quadrinhos: “Viúva Negra”, “Capitão América”, “Hulk”, “Thor” e o “Gavião Arqueiro”. Filme muito futurista, com efeitos especiais impensáveis no passado, com naves especiais e porta aviões do qual os aviões se lançavam ao espaço etc.
Aliás, já observaram que estão fazendo muitos filmes com nossos antigos heróis dos quadrinhos? Os diretores parece que não têm mais qualquer criatividade e, por isso, ressuscitam os heróis dos quadrinhos, que tanto faziam a alegria, diversão e entretenimento de jovens adolescentes!
Enquanto minha esposa vibrava com as cenas em 3D como no passado, ficava recordando à época do Cinema Guarany, quando os filmes eram projetados em preto e branco, sem efeitos especiais, a partir de 11 horas da manhã, com desenhos feitos à mão por “Peninha” e exibiam-no durante um mês inteiro. Eram anunciados em classificados de jornais e os adolescentes vibravam quando sabiam que o filme seria em película colorido. Hoje, muitos já são em 3D, quando se precisam usar óculos!
Em frente ao Cinema Guarany, existia o “Café do Pina”, que comprava garrafas que garotada recolhia, lavava e colocava dentro de saco de estopa de pano e as vendia para adquirir os ingressos. “As garrafas escuras têm melhor preço”, dizia o comprador, por isso preferiam as de cores escuras e desprezavam as de cores claras.
Com o dinheiro da venda, um colega era sempre encarregado de ficar na fila e adquirir os ingressos para todos que frequentavam o cinema. Muitas vezes, a molecada entrava por um portão de madeira aos fundos e passava por debaixo da tela de projeção quando começava a exibição do filme. Mas era a única diversão possível nos anos 70 em Manaus!

Autor: Carlos Costa - Manaus/AM
Publicação autorizada pelo autor através do e-mail de 02/05/2012

5 comentários:

Carlos Lopes disse...

Meu caro Carlos Costa, seu texto ¨Tarzan e as amazonas¨, faz referência a um velho filme conhecido meu. Aliás, tal filme pagou muitas contas lá de casa e nos alimentou fartamente. Sempre que o apurado do cinema do meu pai não apresentava bons apurados, vinha ao Recife buscar filmes de Tarzan, entre eles: Tarzan e as amazonas. Quanto ao prédio do antigo cinema é muito bonito. Aliás, antigamente prédio de cinema tinha cara de prédio de cinema mesmo! Também gostei das suas lembranças de uma época tão gostosa onde o cinema e o clube local eram os únicos lugares onde se namorava a vontade ... são muitas lembranças! Belo texto Costa, memoráveis lembranças Carlos.

Casal 20 disse...

Olha, eu que não tive o prazer de viver tudo isso, Carlos Costa, tive um gostinho no seu texto de agora. Realmente, fico pensando que são mundos muito diferentes e não apenas filmes diferentes. O cinema mudou. O mundo mudou, não? E ler este teu texto e ver a diferença entre o "Tarzan e as amazonas" e "Os vingadores" faz a gente pensar no que ainda virá pela frente em tão pouco tempo.

Parabéns, Carlos, continue a nos presentear com teus ótimos textos.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Ana Bailune disse...

Nossa, eu assiti a tantos filmes de Tarzan... boas memórias...

Hilton disse...

Carlão, o amigo retrata, os bons costumes, a cidade sorriso que era Manaus, o divertimento salutar de um grande patrimônio cultural e estrutural, como o Cine Guarany, é uma viagem regressiva, que nos alegra a reviver um mundo magico que era o cinema, naquele momento, as matines duplas, um Tarzan e um Western, época que a cidade ainda não tinha chegado ao se apogeu do Progresso, que foi retirando esses momentos felizes e trazendo essa grande violência que assola o Pais por completo. Hoje com todas essas mazelas sociais, usamos o grito do Tarzan, para que aliviamos essa violência. Como o comentário do Carlos Lopes, a sétima arte trazendo muitas lembranças positivas e momentos felizes de nossas vidas. Valeu Carlos Costa brilhante cronica.

Carlos Lopes disse...

Estava a ler a sua crônica: NAMORO DE ADOLESCENTE, no blog MUCREVE, e gostaria de comentar seu texto. Então amigo Costa. Namorar era tudo isso aí relatado.Porém, ainda tinha que agradar ao irmão da pretendida, senão a coisa complicava. O irmão mais velho tinha a responsabilidade de decidir ou não com quem a irmã deveria aceitar namorar. E se a pretendida era irmã de um amigo nosso, complicava também. O cunhado chegava a ficar sem falar com o amigo, por tempos, pois ficava sem jeito por saber que o amigo estava ¨amassando¨a irmã. Amigos do blog, visitem o blog MUCREVE e comprovem que belo texto o amigo Carlos Costa criou. Aí vai o endereço: http://mucreve.blogspot.com/