quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cometa Olinda - Autor: Jorge Luiz da Silva Alves

Cometamos Olinda. Cometa Olinda, antes que seja tarde demais! Do Alto da Sé, o francês batizou um astro em cauda resplandescente e, na dúvida entre dois encantos, elevou ao Universo o gentílico de Coelho, extasiado quatro séculos antes com a paisagem espetacular daquela terra de bugres, selvagem em beleza e pródiga em produzir no Massapê sagrado a cana que tanta fortuna fazia em Europa distante.

Cometamos Olinda. Mas não de uma só vez: risquemos o chão de suas ladeiras charmosas e casario quadringentenário com a reverência adequada aos templos maiores da cultura mundial. Neste sacrário abençoado, sustenta-se a Fé do brasão de armas, as armas de briosos donatários e a amálgama de três raças que resistiram a tiranos de muitas nacionalidades e senhores de milhares de engenhos. Da Câmara arredia ao travo luso, saiu o grito pioneiro por independência brasílica quando as Gerais ainda adormeciam nos anais da História; desta terra de singulares acontecimentos a essência de nação retiniu o aço em Guararapes para curar as chagas de mil batalhas nas colinas da Sé. Sob as bênçãos de São Bento os juristas primeiros do Império envergaram suas togas ao sabor do mesmo ventos que balouçavam (ainda hoje) as palmeiras e as velas dos galeões e naus de outrora. De Olinda iniciou-se o povoamento de quase todo o Nordeste, mensageiros alvissareiros ou nefandos, mas sempre arautos de mudanças, em nome dum futuro quase sempre pululante, ígneo feito aerólito, tão marcante quanto.

Incomum feito um cometa. Resplandescente. E encantadora, como um corpo celeste, de magnífico brilho, na orla e nas colinas, nas ladeiras e nas ruas e praças, no sorriso de sua gente afeita ao tempo e suas agruras e recompensas.

Cometamos Olinda.

Pois nem mesmo os cometas são eternos – mas a beleza duma terra como essa é como o brilho duma estrela: ainda que morram como negros buracos do Cosmo, seu brilho eterniza-se na alma de quem ama o belo. Linda...

...Olinda. 






(Em 1860, Emmanuel Liais descobriu, no Observatório do Alto da Sé, o primeiro cometa relatado em observações feitas na América Latina, e batizou-o com o nome da cidade, "Cometa Olinda", o único já descoberto em terras brasileiras na Astronomia mundial)


Autor: Jorge Luiz da Silva Alves - Rio de Janeiro/RJ

Publicação autorizada pelo autor através de e-mail de 21/10/2011
http://www.jorgeluiz.prosaeverso.net/
 

2 comentários:

Celêdian Assis disse...

Meu querido amigo Jorge, um prazer vê-lo aqui também neste espaço tão especial.

Seu texto sobre Olinda é primorosamente trabalhado e guarda na sua prosa a poesia, do falar extasiado pela beleza da cidade, além de mesclar a história que ela ostenta, em pinceladas sutis.
Um grande abraço, meu amigo.
Celêdian

Vanice Ferreira disse...

Oi Jorge, belíssima prosa poética!História,poesia e imagens lindas,parabéns!Abraços, e uma linda semana!