domingo, 25 de maio de 2014

Texto: 15 (do concurso) - Caçada de Teiu

— Vamo caçá tiú? Chamou o Nego.
— Vamo. Topei na hora.
— Então chame os cachorros.
— Certo, e onde vai sê?
— Na roça nova. Vamos apruveitá que os mininos (os irmãos mais velhos) tão trabalhando lá. Se não a mamãe não dexa.
O teiu é uma espécie de lagarto muito comum em todo o território brasileiro. Durante o inverno vive em tocas, mas quando surge a primavera ele volta à ativa, portanto, o período bom para caçá-los é a partir de novembro. Sua carne é muito apetitosa, mas não tem muitos apreciadores. Mamãe por exemplo, se recusava a prepará-la, não sei por que, talvez alguma questão cultural, mas, isso não era um problema, nós mesmos caçávamos, limpávamos e chamava o bicho no coentro.
Papai tinha no sítio um pedaço de roça nova, ainda estava na primeira destoca, um ótimo lugar para essa prática. Chamei os cachorros, o Peri e o Deserto (velho conhecido dos leitores) e lá fomos nós.
Assim que chegamos, os cachorros acostumados que eram imediatamente farejaram o chão e não demorou muito acuaram o bicho, que para escapar com vida entrou no oco de um tronco que tinha nas proximidades, o que dificultava a ação dos cachorros.
O Peri como era um cachorro grande, não dava para entrar no oco, mas o Deserto, esse sim, ele era até comprido, mas baixinho e fininho, pena que era medroso de mais, tinha um medo de lagarto que só vendo, ia pra caçada no embalo dos outros.
Apesar de toda essa desqualificação, o Deserto era acima de tudo atrevido e foi graças a esse atrevimento que se propôs a entrar atrás da caça.
Nesse meio tempo, meus irmãos, que estavam descoivarando a roça ouviram os cachorros acuarem e foram ver o que acontecia. Quando chegaram, mostrei a eles onde o lagarto tinha entrado, e então eles começaram a cortar a outra ponta do tronco com o machado para atingir o oco na outra extremidade e com isso afugentar o animal.
Do Deserto, só ouvíamos seus latidos abafados dentro do tronco.
— Auuu.... Auuu....
Quando meus irmãos atingiram o oco na outra extremidade, começamos a cutucar com uma vara e o bicho resolveu sair.
Deduzimos que numa dessas latidas o teiu entrou na boca do cachorro, e ele, por instinto, mordeu e recuou trazendo consigo o lagarto, visto que quando saiu e percebeu o que tinha na boca, não deu outra, medroso do jeito que era, com o susto caiu de costa e se pôs a gritar.
— Caiaaim.... Caiaaim.... Caiaaim...
Ele sempre fazia isso quando se via em apuros, o que não havia necessidade de tanto escândalo, pois o Peri, cachorro treinado, imediatamente entrou em ação.
Refeito do susto e depois do bicho morto, ai sim, ficou valente, mordia o lagarto de todo jeito, rosnava e o arrastava de um lado para outro numa prova fiel daquele velho ditado popular: “depois da onça morta, todo mundo é valente”.

2 comentários:

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática: em ordem (considerando o vernáculo que, naturalmente, não se considera ‘erro’); pontuação: notei uma frase na qual parece que faltou uma vírgula, e como sabemos que uma vírgula pode condenar uma vida, ou salvá-la (Vamos comer vô? Não, o vô não vamos comer não, vamos comer o teiú que o povo caçou! Não é, vô?), uma revisãozinha não faria mal, não é verdade? Fora isso, se há erros dessa natureza, não identifiquei durante a leitura. Também não conheço o Deserto, pois não sou leitor assíduo deste blog, vai ver por isso não me senti tão envolvido durante a leitura, mas o texto tem atrativos que poderão fisgar outros leitores. Não sei se está totalmente de acordo com a proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal), mas não cabe a mim julgar essa questão, apenas deixar aqui uma opinião sobre os textos do concurso. Avaliação pessoal: entre regular e bom. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Alberto Rocha disse...

Texto muito bom. Considerando o regionalismo das falas. A demonstração de afeto pelo animal, que é um dos requisitos do concurso, está explicado quando refere as outras historias em que Deserto, o cãozinho, é protagonista. O desfecho, hilariante, está dentro dos cânones de "causo". Há deslise gramatical, facilmente contornável. Parabéns a quem produziu o texto.