domingo, 25 de maio de 2014

Texto: 24 (do concurso) - Ícaro: meu morceguinho encantado

Duas e meia da madrugada. Fui despertada por um som agudo e penetrante invadindo meu sono. Apreensiva, caminhei morosamente até a sala.  O toque do telefone e de madrugada, assim como a chegada de telegramas, nunca fora para mim, um bom sinal. A morte do meu padrinho, da minha melhor amiga e do meu querido tio, o único irmão do meu pai, chegaram por esses meios. Como um espelho, o tempo, inexorável, implacável, testemunha a minha dor.
Depositada em minhas mãos, em poucas palavras ou sussurradas ao meu ouvido, como um tabu, uma proibição milenar, a morte anunciava contundente, irremediável, o findar da vida, a incompletude, a solidão e fragilidade dos laços que criamos, ao longo da nossa história.  Nunca me recuperei e acreditava que já não suportaria mais sofrimentos...
À medida que eu caminhava, o pânico me tomava: minha mãe... Meu pai! Por instinto ou intuição pensei: está morto. O telefonema foi apenas a dura confirmação do que meu coração antevira e antecipara. Num lampejo, uma lembrança...
Eu, de pé, ao lado da minha cama. Meu pai à frente, me dizendo: a amizade é uma força tão ou mais poderosa que o amor para a vida humana! Quarenta anos depois é que pude compreender a profundidade daquela frase dita por ele. Acrescentaria apenas: ambos podem surgir de forma inusitada, inesperada. E se manifestarem intensamente por pessoas, animais e objetos, também de forma indistinta. Porque escrevo isso? Deixemos a conclusão de lado. Afinal cada um terá a sua. E continuemos esta pequena história!
Atordoada, desliguei o telefone. E a esmo, fui parar na cozinha. Sufocada, abri a porta e corri para o quintal. A cada passo apressado, o vômito incontido, jorrava.  Dentro de mim, a contenção de uma barragem, se arrebentara!  A devastação que eu sentia, era a mesma de um sobrevivente único de um cataclismo!  Ou daquela que é a mais temida e por todos: a tenebrosa guerra nuclear.
Desnorteada, amparei-me no tronco do pé de jabuticaba. Meu refúgio desde a infância. A cada briga ou repreensão dada por minha mãe ou meu pai... Tão querido e que agora, sabia eu, viveria apenas nas minhas lembranças. Também despertadas pelas marcas dos seus dedos, nos variados instrumentos que ele tocava com maestria e delicadeza nas festas e comemorações em casa ou na vizinhança.
Aos poucos, e mais perto, eu escutava os sons: do cavaquinho, do violão, do bandolim, do acordeão e do piano... Era como se eles também, não suportando o silêncio, que certamente, daria o tom, dali em diante, à nossa casa, se refugiassem, ali, ao meu lado!
Repentinamente e alucinada, eu corria, dando voltas no pé de jabuticaba.  Até que eu percebi um movimento estranho ao meu redor.
Confusa e apavorada, gritei! Pertinho de mim, quase aconchegado no meu ombro, um filhote de morcego, também num vôo desvairado! Ensandecida comecei a indagar: o que ele está fazendo? Porque não me ataca, porque não foge, por quê? Porque meu pai morreu assim tão de repente, porque essa dor tão insuportável? Porque a impressão de que meu coração só está batendo pela metade? Por quê? Por quê?
Meio ao insuportável silêncio e à esmorecida espera, reparei que a manhã, ainda que débil, se aproximava e, me oferecia o sol, que acabara de pular o muro e tocara, de leve, o meu peito. Vagarosamente, ele foi se esticando até o meu colo, me doando aquele calorzinho: bálsamo para a minha alma tão desalentada. Um gesto de simpatia e de afeto, de Apolo, o deus da luz e da cura. Sabia ele, que nunca mais eu seria a mesma.
Com a morte de alguém, um pouco da gente também morre junto e o brilho da vida tremula do mesmo modo que a chama de uma vela quando o vento sopra-lhe o pavio.
Mesmo sentada, minha cabeça rodava, rodava, rodava. Para minha surpresa e consternação, vi um morcego grande morto no chão. Chorei copiosamente, um pranto profuso. Caía de mim, uma chuva torrencial. Daquelas que molhavam o pé de jabuticaba e o preparava para os doces frutos, que colhíamos e entregávamos à minha mãe para que ela fizesse a geléia e o vinho que saboreávamos no café da manhã e almoço diário da família.
Um movimento súbito espertou-me. Estanquei o choro e olhei para baixo
No meu colo, molhadinho e assustado o filhotinho de morcego tentava um tímido vôo.  Constatei que era dele, o pai morto, no chão. Delicadamente, eu o coloquei no galho mais alto e ao meu alcance. Guardei-o ali, no escurinho, na sombra. Só para mim e o nomeei!
Desde então, nas madrugadas, Ícaro e eu, giramos, em torno da jabuticabeira numa insólita homenagem à amizade! Com sorte, a morte nos enlaçou e nos fez consorte!   Muito mais do que a força da rima e do trocadilho.  Eis a mais pura e simples convicção!  

2 comentários:

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação: em ordem. Durante a leitura tive a impressão de que o autor ou a autora fez uso consciente da pontuação para levar a algum efeito lírico (no caso da recitação do texto, talvez). Assim sendo, se há erros desta natureza, não detectei. A ideia é boa e a história é contada de modo interessante, envolve o leitor. Parece estar dentro da proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Avaliação pessoal: entre bom e muito bom. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Alberto Rocha disse...

O texto é bom e demonstra que o autor domina bem a linguagem escrita assim como a definição das imagens literárias, mas no meu entender, está fora do parâmetro do concurso. Parabéns a quem o produziu