quarta-feira, 21 de maio de 2014

Texto: 06 (do concurso) - A coruja piou

A coruja piou no exato momento em que o João bateu na porta da casa da Amaralina para pedi-la em namoro. Ninguém notou aquele pio arredio e tampouco deram atenção ao fato. Pois a coruja continuou piando até que aquele barulho irritadiço os fez dar uma olhada no pátio para ver o que estava acontecendo e quando o João botou os pés fora, ela parou de piar.
Piou novamente quando o candidato a genro entrou na casa e parou assim que ele saiu de novo. Pois o João resolveu entrar e sair para ver se a coisa era com ele. A coruja parava e piava de acordo com as entradas e saídas do rapaz.
O pai da Amaralina, aproveitando a deixa, mandou o rapaz embora, já que com toda aquela piadeira, ficava quase impossível conversar e aproveitou para dizer um “boa noite” carregado de impropérios não ditos. Não gostara do rapaz e a coruja piando quando o dito entrava, estava mais que claro que ela compactuava com as mesmas ideias dele. Nem conhecia o João, que dirá deixa-lo namorar a única filha.
E no dia seguinte, quando a coruja avistou o João dobrando a esquina, vindo em direção à casa da Amaralina, desatou numa piação que dava dó. O pai da moça, escutando aquilo, já saiu com a espingarda na mão, de tocaia. Esperou com a arma engatilhada o João chegar e pediu aos gritos quem vinha lá, ao que João respondeu “sou eu”, e o pai, revirando os olhos ante aquela intimidade nunca dada perguntou de novo quem era e o João apareceu diante do seu olho fechado, porque o aberto estava na mira da espingarda.
Pediu de novo o nome do rapaz - como se tivesse esquecido das apresentações da noite anterior - e tinha que ser o nome completo e que fosse embora porque Amaralina estava ajudando a mãe na lida, e aquelas eram horas de trabalho e não de visitas.
O pai da Amaralina vendo o rapaz voltar de onde veio com a cabeça baixa dos derrotados, olhou com tanto amor àquela coruja; tão sagaz quanto ele, tão esperta e visionária, que a tomou para si como guardiã do lar e claro, da filha. Levou a ave para dentro de casa e a troca de amores era tão grande que sua esposa enciumou-se.
Pois aquele homem tratou de auxiliar a coruja na alimentação, limpeza e moradia, tudo no mais rico primor dos que amam. Durante as refeições, enquanto a esposa dispunha os pratos na mesa, o pai colocava o prato da coruja com um belo camundongo, bem ao seu lado para que ela participasse das refeições, porém, as mulheres ficavam enojadas e mal conseguiam colocar os talheres na mesa que dirá sentarem-se ali.
Resolveram o imbróglio deixando o pai e a coruja comerem numa mesa separada e elas comeriam na sala. Quanto ao João, aquele candidato à genro, resolveu mandar bilhetes à Amaralina, pedindo-lhe que namorassem escondido, sendo aceito sem muitas delongas pela moça apaixonada.
Aconteceu que passado uns seis meses, a moça ficou de barriga e o João desapareceu sem deixar rastro. Foi uma desgraceira naquela casa, até a coruja adoeceu e recebeu mais cuidados que a própria Amaralina, que sofria com as dores atrozes do amor abandonado.
Nisso, toda a vizinhança já estava sabendo do acontecido e muito se condoeram da situação, e a coruja ficou com o estigma premonitório das desgraças ambulantes. Todos os dias, mães e pais aflitos batiam na porta da casa da Amaralina, com pedacinhos de papéis rasgados, todos eles com algum nome escrito para que a coruja piasse diante do maléfico.
O pai e a coruja passavam o dia procurando aquele meliante roubador dos sonhos alheios e continuaram buscando, sem dó nem piedade e não parariam nunca de procurar, nem que fossem ao fim do mundo. Uma noite, o pai, não aguentando mais as longas caminhadas, mandou a coruja em seu lugar, sozinha, e que não voltasse sem notícias, ou quem sabe até, trazendo um pedaço daquele João.
A coruja, incansável em sua busca, por fim encontrou o dito do João, em outra cidade com mulher e filhos. O que ela pensou ou resolveu ninguém pode dizer, mas o fato é que ela voltou para casa, muitos meses depois que o neto nascera com uma flor no bico. Uma flor de maracujá.
Voltou extenuada e foi recebida com muita alegria por parte do pai e de Amaralina. Trataram o bichinho com um esmero lindo e avisaram a vizinhança que provavelmente aquela flor era do túmulo do João, aquele jagunço. Fizeram até uma festa na comunidade em honra à honra da Amaralina que tinha o filho pendurado no peito e a coruja no ombro.
Toda essa manifestação de apreço não passava despercebida pela mãe da Amaralina, cujo ciúme vinha crescendo numa constante. Resolveu dar cabo daquela ave dos diabos. A coruja percebeu as más intenções da mulher e toda vez que a via piava, num pio tímido como a temer pela própria vida, com razão.
O marido notou, mas interpretou aqueles pios baixinhos como um sinal da falta da natureza e dos seus e resolveu colocar a coruja para fora de casa. Era a deixa para a esposa executar seu horrível plano.
Com a raiva que sentia chegou a perder o asco por camundongos e ofertou à coruja um envenenado e colocou no pratinho e ria aquele riso aflito dos que tem sede de vingança e foi quando a ave bicou o petisco que chegou o delegado com alguns nomes de possíveis meliantes para que a coruja piasse em sua premonição para as maldades humanas. O delegado nunca vira a esposa dando comida ao bicho e estranhou o fato da coruja estar fora da casa e devido ao seu tino investigativo, escondeu-se num mato próximo. Viu tudo e não pôde fazer nada. Era tarde demais.
Ouviu o riso doente daquela mulher, viu quando ela enterrou por ali mesmo o resto do rato que ficara e deixando a coruja estendida no chão se debatendo ante os estertores da morte iminente.
Restou ao delegado sair de seu esconderijo e mostrar-se. O confronto foi pior que o dia que a Amaralina contou estar grávida. A mãe baixou a cabeça e escutou tudo o que diziam e foi para o quarto, de onde nunca mais saiu.
O pai, a filha e os vizinhos prepararam um enterro digno para aquele animal de estimação que fora mais que amado, fora um presente dos céus para livrar aquela herdade esquecida do mundo contra as crueldades humanas.
E naquele lugar ninguém nunca se esqueceu da coruja premonitória, sendo lembrada por muitos anos além do que se pode imaginar.

4 comentários:

Anônimo disse...

rsrs... simpatizei com o bichinho. Não é uma fofa essa corujinha premonitória? Envolvente conto, com ingredientes que nos prendem, nos estimulam a continuar. Muito bem escrito. Marina Alves.

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação mostram que o autor ou a autora tem domínio dos mecanismos da língua e consegue transmitir idéias de modo eficaz e bastante criativo – se há erros de linguagem, não detectei durante a leitura. Trata-se de uma narrativa que envolve bastante, cria um certo suspense e apresenta um desfecho coerente e bom. A aura bem humorada de causo, muito bem contado por sinal, é uma boa forma de retratar as esquisitices, curiosidades e a maldade humana. A trama é simples e convence. A narrativa parece aproximar-se bastante da proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto). Avaliação pessoal: muito bom! Parabéns à autora ou ao autor. (Torquato Moreno)

Alberto Rocha disse...

Muito bom texto. Leitura agradável e envolvente. As imagens sugeridas são condizentes com o texto e o desfecho adequado. Parabéns ao autor/autora.

Anônimo disse...

Texto bem elaborado, mas, achei um pouco longo e cansativo.