sábado, 24 de maio de 2014

Texto: 14 (do concurso) - Os pintinhos da galinha carijó

Na maioria das fazendas as aves domésticas vivem soltas pelos terreiros e pastos à mercê de toda espécie de predadores.
Numa manhã, Mariinha soube pela avó:
—Minha fia, a raposa levô a galinha carijó essa noite...
—Tadinha! Quê qui vai sê dos fiotim dela, heim vovó?
—Nóis vai tê de criá os pintim injeitado, cê ajuda a vó?
—Vô ajudá sim sinhora! É só falá o qui ieu tenho qui fazê...
Mariinha tomou para si os cuidados com a ninhada da carijó e daí por diante passava os dias quebrando milho, fazendo canjiquinha e cavando cupins para alimentar os filhos adotivos. À medida que iam crescendo cada ave já cuidava de sua vida. Apenas um casalzinho não largava a menina. Durante o dia viviam soltos, à noite dormiam dentro de casa, numa caminha improvisada.
Cresceram... O galo era pintado de várias cores e foi batizado de Neném, a galinha era ruiva de pescoço pelado e se chamava Fiinha. Interessante, era quando aparecia uma visita. Mariinha fazia questão de demonstrar: Chegava à janela e gritava para o terreiro:
          — Ô Fiinha! Ô Neném!...Vem cá vê, nos tem visita!
Às vezes, os dois demoravam. A visita até achava que a menina estava caçoando. Mas de repente, o galo e a galinha chegavam afobados e iam parar bem ao pé da dona. Havia um fato curioso: o Neném sempre se atrasava.  Ele chiava o peito e não conseguia acompanhar a Fiinha
Quando a dona das aves brincava de casinha com as primas era a maior confusão:
—Ieu num quero brincá de buneca! Ieu quero brincá é com os fio da Mariinha.
          —Ieu num vô imprestá o Neném mais a Fiinha procêis não! Meus fiote num gosta de ficá no colo de gente istranha.
A avó tentava contornar a situação. Pegava outras frangas para que as meninas brincassem, mas estas não paravam quietas e nem dormiam nas caminhas enroladas em panos, feito o Neném e a Fiinha.
Preocupado o avô avisava:
—Ô Mariinha, minha neta, ocê tá criano munto amor nesses bicho, quero ti avisá uma coisa: Esses dois se acustumaro assim, inté acha qui é gente, ês vevi dendicasa, mas é bicho e num vai vivê pra sempre, num quero vê ocê triste... Tem as raposa, os lobo, os gavião...
Amedrontada, Mariinha não queria mais deixar os “filhos” com as outras galinhas. Quando os soltava, ia junto vigiando. Por muitas vezes aconteceu de estar fazendo as refeições quando ao ouvia um gavião. Entrava em pânico, saía correndo a chamar pelos dois animaizinhos adorados. Se não apareciam logo, chorava muito e só parava quando o avó ia junto a procurar os fujões. saiam sempre gritando:
—Fiinhaaa... Nenénnin... Cadê ocêis?
E era uma alegria na família quando encontravam. Afinal, era impossível não gostar de duas criaturas tão dóceis quando aquelas.
Uma tarde de inverno, não atenderam ao chamado... Ansiosa, Mariinha custou esperar o avô chegar da roça. Seguiram pelos caminhos de sempre, passaram perto do corguinho, procuraram no pasto dos bezerros, atrás do bambuzal. O sol já se escondia atrás da serra. Em prantos, Mariinha chamava-os pelo nome e nenhum sinal deles.
O avô que havia se distanciado voltou cabisbaixo.
—Bamu simbora minha fia, amanhã nóis acha os dois fujão. Ês deve de tá impulerado numa arvinha quarqué.
—Não vovô! A Fiinha mais o Neném num pode drumi no mato não, os dois tão acustumado a drumi dendicasa. ês vai ficá doente com o sereno...
Ao ouvir um barulho conhecido, Mariinha ignorou o chamado de seu avô. Correu em direção à mangueira e com o coração apertado, viu no chão algumas penas pintadas e outras ruivas. Olhou para o céu que escurecia e viu desaparecer lá longe um bando de gaviões...

3 comentários:

Anônimo disse...

Como não se emocionar diante de amor tão puro e dedicado? Neném e Fiinha cabem direitinho no coraçãozinho de qualquer criança que tem amor pra dar e vender. O autor, ou autora, numa brincadeira muito gostosa com as palavras nos deu mostra de que os animais e o homem vivem grandes e fieis amizades. Parabéns ao dono ou dona destas letras. Marina Alves.

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação mostram que o autor ou a autora domina os mecanismos da língua escrita (incluindo o vernáculo), porém identifiquei um ou outro ponto que pede revisão, apenas detalhes que não interferiram em nada na compreensão. Um relato simples, convincente e recheado de carinho, uma leitura agradável que envolve o leitor. Parece que está totalmente de acordo com a proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Avaliação pessoal: entre bom e muito bom. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Alberto Rocha disse...

Texto muito bom. O regionalismo da linguagem empresta veracidade à historia, perfeitamente dentro dos parâmetros do concurso. Parabéns a quem produziu o texto.