quinta-feira, 29 de maio de 2014

Texto: 28 (do concurso) - Crescendo com pássaros

Já faz tempo que converso com pássaros; ultimamente com aqueles que visitam o meu quintal. E foi nessas conversações, por exemplo, que percebi que os pardais são muito confusos, falam muito, mas é só prosa fiada jogada ao léu. Até parecem algumas pessoas que conheço mundo afora.
Explicar como conversar com pássaros é uma empreitada a qual não me dou ao trabalho de explicar, nem a ensinar, depende muito da sensibilidade de cada um. Para quem acredita que em outra vida já foi pássaro tudo fica mais fácil, pois deve ter esses registros passarescos guardados em algum arquivo das suas memórias de vidas passadas.
No meu caso, visitando minhas lembranças acabei percebendo que isso nem era novo para mim. Pois desde os tempos de guri, quando aos oito anos de idade fui parar num internato na zona rural de Curitiba, eu já me punha a prosear com a bicharada.  Gostava muito de andar pelo mato, de admirar com certa curiosidade os animais que encontrava. Naquele tempo os bichos e as frutas eram de uma fartura sem igual: guabiroba, araticum, araçá, butiá, fruta de São João, jerivá, pitanga do campo, caqui (Dava no mato, sim senhor!) cafezinho, amora, uva do Japão, pinhão, tarumã, goiaba e um tanto de outras frutas que hoje nem lembro nome ou já foram extintas. Havia um equilíbrio natural na mata, tinha frutas pros homens e pros animais. Naquele tempo o tal do “bicho homem” ainda não era o grande destruidor da natureza que veio a ser.
No começo das minhas andanças, aonde eu ia pela mata o desejo de conversar com os animais me instigava. Nada fácil, pois alguns deles eram muito esquivos e fugiam quando eu tentava principiar algum diálogo. Creio que eles deviam me achar um guri muito estranho. Como aconteceu uma vez quando uma cobra ficou ali na minha frente um tempão me olhando e botando a linguinha pra fora, mas, depois se escafedeu mata adentro sem responder se era verdade aquela história de que uma parenta dela teria tentado Eva a comer a maçã no paraíso.  De outra feita fiquei um par de horas sentado observando um serelepe que tentava descascar um pinhão, mas, o danadinho nem me deu bola quando tentei puxar conversa. Tinha até macaco zombeteiro que ria de mim, isso eu sei por que eu os escutava comentando no bando.
Para encurtar a prosa, durante certo tempo parecia-me que seria em vão tentar conversar com os bichos. Arrisquei umas palavras até com o ramo dos galináceos, mas, com todo respeito pelo valor deles, nunca vi bicho tão bobo como galinha, até o burro que já tem um nome cabeludo desse, agia com maior esperteza.  O papagaio nem se fala, ele só ficava repetindo o que eu falava; desse jeito não deu prosa também.
Foi aí que uma coruja que eu sempre encontrava pela manhã cochilando escondida no alto de um pinheirinho, me deu a ideia de procurar os pássaros:
 – Vai conversar com os passarinhos, guri...
No começo isso não foi muito simples, pois eles só andavam em turma, e voando né. Uma vez tentei me aproximar de um bando de bico de lacre que comiam sementes de capim próximo dum riacho. Escolhi-os primeiro por que eu queria pedir desculpas por causa de uma vez que eu tinha atirado algumas mamonas pra espantá-los e a minha traquinagem tinha dado um baita susto nos coitadinhos.  Nunca mais fiz isso, até confessei o acontecido pro Padre Luís que me mandou rezar uma dúzia de Ave-Maria de penitência.
A minha conversa com os bicos de lacre também não foi adiante. Mas tudo mudou no dia que encontrei um sabiazinho caído debaixo de um pé de ameixa; daquelas amarelinhas de dar água na boca. Vi que ele não conseguia voar porque estava com uma das asinhas machucada. Peguei-o com muito cuidado e, sei lá porque, perguntei-lhe como tinha se machucado. Foi aí que ele, para meu assombro, sussurrando com uma voz de criança começou a falar. Enquanto eu passava o dedo sobre a sua cabecinha para acalmá-lo, me contou que tinha caído do ninho. Falou que batera num galho da árvore quando tentava levantar voo junto com os outros sabiás da família, e por isso acabou ficando ali sozinho na esperança de que eles voltassem; fato que não aconteceu.
Quando a gente é criança acontece um montão de coisas na vida da gente, e nem tudo tem uma explicação lógica. E assim, entre mistério e magia, a gente se acostuma com certos fenômenos e acha tudo natural. Digo isso porque naquele momento, olhando para o passarinho machucado, lembrei que um dia minha avó tinha contado que algumas plantas eram boas pra curar muito machucado. Então, na querência de ajudar o coitadinho do sabiá, juntei umas folhas dum mato conhecido como alecrim do campo e espremi bem com os dedos, e depois passei a sumo verde no machucado do dele.  Pela cara dele atinei que devia ter ardido um pouco, mas, passado algum tempo, ele se aprumou e depois voou. Foi e retornou algumas vezes, como que agradecendo a minha ajuda, até que não mais voltou...
Depois desse acontecido, virava e mexia lá estava eu conversando com algum sabiá. E eu sempre perguntava sobre o Camilo, nome que dei ao sabiá ferido, mas, eles diziam que a família dos sabiás era muito grande e que era difícil saber por ande voava o Camilo. Tudo bem, “pelo menos ele deve estar por aí voando e espalhando que tinha encontrado um guri que o ajudou a voltar a voar”, era o que eu comentava para umas borboletas que de vez em quando me seguiam mata adentro. 
Como o Camilo era um sabiá muito novinho e como tal não tinha muita história para contar. Porém, guardo até hoje algo que ele falou. Foi quando certo vez perguntei-lhe como tinha aprendido a voar e ele respondeu:
– Nós não aprendemos a voar, só voamos...
Mais à frente na vida é que fui entender o que ele dissera. Os humanos têm a capacidade de desenvolver-se e criar, já os pássaros trazem em si o dom de voar, por isso quando estão prontos eles apenas voam; não criam o voo, apenas voam, é da natureza deles. Já os homens têm muita coisa boa para aprender e criar; uns aprendem e criam – outros não.
Quando conheci os pássaros do meu quintal percebi que eles eram diferentes dos que eu conhecera quando criança, e eu também era diferente, é claro.  Eles eram muito ariscos, mas, entre um fubazinho aqui, uma quirerinha acolá e algumas palavras de aconchego eles foram se acostumando comigo. Os pardais eram os mais arredios, acho que por sentimento de culpa, pois eles vivem predando os ninhos alheios; às vezes até derrubando filhotes dos ninhos dos outros, daí a apreensão que vivem; são como certas pessoas que fazem coisas escondidas e depois vivem com medo de serem descobertos.
Mas não quero que alguém pense que todo pardal é igual, pois, como é da sabedoria popular, toda regra possui alguma exceção. Desse modo, aconteceu que certa ocasião uma mãe pardal deixou um filhotinho pra que eu cuidasse.  Ele ainda não sabia voar e foi ficando ali pelo quintal, fui tratando dele, dando água e comida. Era muito tímido, Pitiguinho o nome dele. Creio que do seu jeito ele entendia que eu era o cuidador dele, pois, com o tempo foi ficando cada vez mais tranquilo em minha companhia, e ficava na porta da cozinha demonstrando que não tinha medo de mim. Para tranquilizá-lo, de vez em quando eu o lembrava de que a mãe dele tinha o deixado ali só até ele ficar forte e poder voar. Um dia ele me disse que sabia disso e que a mãe dele sempre vinha visita-lo. “Melhor pra ele”, pensei, porque entre os homens tem mãe ou pai que vai, some no mundo, e nunca mais aparece. 
Aos poucos Pitiguinho foi crescendo e ensaiando seus voos. Então, quando percebi que ele já estava dando uns voos mais altos, eu disse pra ele:
- Vê se não some hein, aparece de vez em quando, Pitiguinho...
E assim aconteceu.  Depois que foi embora com o bando, vez por outra Pitiguinho aparece contente, o conheço pelo trinado e porque costuma ficar um tempo pendurado num pé de romã do quintal, local onde habituava ficar quando eu cuidava dele.
As rolinhas roxas são aves mais sossegadas, muito tranquilas. “Cuidam da vida delas”, como diria dona Malvina, uma senhora negra, muito simples e sábia, com quem aprendi um tanto da vida na minha juventude.  Porém, de vez em quando elas perdem a calma com os pardais, e então partem pra cima deles e colocam ordem no quintal.
Quando comecei a conversar com elas, ficavam só ouvindo. São muito tímidas, porém mais sábias, falam tão baixinho que às vezes quase nem escuto e tenho que pedir para repetirem o que estão dizendo. Uma delas, que dei o nome tupi de Anahí, que significa bela flor do céu, até fez ninho num pequeno arbusto que cultivo no quintal, onde já nasceram outras quatro rolinhas, duas de cada vez. Ela é a que mais conversa comigo; ás vezes, até se dependura na grade da janela do meu escritório. Anahí tem uma paciência de Jó, pois passa ali um bom tempo me observando teclar no computador. Acredito também que ela deve gostar das músicas suaves que costumo ouvir quando escrevo.
Na família das rolinhas, o que as diferencia é que o macho possui penas marrom-avermelhadas, contrastando com as penas cinza-azuladas na cabeça. Por sua vez, as fêmeas são totalmente pardas.
Na serenidade que é peculiar às rolinhas, outro dia as ouvi confabulando sobre a falta de sementes para seu alimento; sobre a escassez de algumas frutas silvestres que sumiram dos campos junto com outros bichos.  Com Anahí tenho aprendido a silenciar de vez em quando; a ouvir mais e falar menos. E foi numa dessas ocasiões que ela, com ar solene, disse-me que não entendia por que o homem não respeita a vida que há na natureza:
 – Ele age como se fosse o centro de tudo.  Como se tudo que há no ambiente natural fosse propriedade dele, quando até os pássaros sabem que tudo e todos fazem parte de uma mesma teia, de um mesmo plano que precisa de harmonia para permanecer.
Os canários que também passeiam pelo meu quintal são pássaros alegres, pra cima; inda mais agora que diminuíram as caças, as gaiolas e o tráfico de aves. Riem e cantam. É isso mesmo, eles riem! Contou-me Suruì, uma espécie de líder do bando, que o canto deles, além de servir para se comunicarem é também uma louvação à vida, uma espécie de reverência à natureza e ao Criador. É muito agradável conversar com os canários, porque eles respondem cantando... São dóceis também. Quando acostumam com o lugar não fogem quando a gente se aproxima. Aliás, se fugissem não dava para eu conversar com eles, não é mesmo?
No mais, creio que não seria exagero algum narrar que desde que me iniciei na conversação com os animais, especialmente com os pássaros, aos poucos fui intuindo e aprendendo que a natureza é repleta de cores, sons, cheiros, sabores, encantos e vozes. E que para admirar, sentir, usufruir e compreender esse universo é necessário tornarmo-nos crianças livres. Condição necessária para que possam fluir em nós os dons extraordinários que possuímos e que nos aproxima como criaturas, dessa única e impar orbe existencial; dessa infinita teia que é a vida em todas as suas múltiplas dimensões.

6 comentários:

Anônimo disse...

Para o poder da imaginação o céu é o limite. E depois quem pode garantir que não? Bom mesmo é não duvidar de nada nesse mundo rsrs... Marina Alves.

Anônimo disse...

Concordo Marina, e viva a mágica da imaginação!!!

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação: se há erros graves desta natureza, não percebi durante a leitura, porém necessita de pequena revisão. Interessante que o narrador, isto é: o personagem que está contando a história, declara que está aprendendo, com os pássaros, a ouvir mais e falar menos, mas achei que o texto tem um forte tom de monólogo, em alguns momentos se arrasta até, como se os animais não fossem de fato o foco, e sim o narrador e seus pensamentos. Essa impressão durante a leitura me fez pensar em quem seria o centro desta história e se este texto estaria dentro da proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal), porém não cabe a mim julgar esta questão, apenas deixar aqui um comentário sobre os textos. Avaliação pessoal: é um bom texto, sem dúvidas. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Alberto Rocha disse...

Texto bom, com boa sequência de imagens literárias apesar de, a meu ver, não se encaixar perfeitamente na proposta do concurso. Há incorreções facilmente contornáveis. Parabéns a quem o prduziu

Anônimo disse...

Texto de fácil leitura e com uma margem interpretativa rica em seu subtexto. O afeto pelos animais, no caso os pássaros, se desprende, às vezes um tanto subjetivamente, mas avança nos relatos sobre cuidados com eles. As incorreções gramaticais ou incorreções estão dentro de um certo padrão de fácil correção. _ Isso pode ser visto em outros textos também. Creio que atende os requisitos pedidos pelo concurso.

Professor Oliveiros disse...

O poder da imaginação... Imaginação de criança...