sexta-feira, 23 de maio de 2014

Texto: 08 (do concurso) - O cachorro e os ovos

Em respeito à sabedoria do povo da minha terra, coloquei no meu cão o nome de Pirá, que em Tupi significa peixe.

Bom, é preciso explicar isso.

É assim, os cães são animais suscetíveis a contrair a raiva, doença altamente contagiosa também conhecida por hidrofobia (literalmente, medo de água, em grego).

Ora, peixe é um bicho que só vive bem quando está dentro d’água e a sabedoria popular recomenda que se coloque nome de peixe nos cães para que eles nunca contraiam a hidrofobia.

Pirá era um vira lata dos mais legítimos.

Antes que os puristas cultuadores do politicamente correto reclamem do termo, corrijo para SRD. Então, onde se lê vira lata, leia-se SRD, sigla que indica “Sem Raça Definida”.

Pirá tinha a pelagem curta e rala, cuja tonalidade variava do marrom para o amarelo desbotado, que no nordeste se chama trigueiro porque se assemelha à cor do grão de trigo quando está maduro.

Era magro, ágil, bom caçador, pegava rato e lagartixa, comia as cabeças e ficava brincando com os corpos até que eu tomasse dele e enterrasse.

Pirá comia tudo que estivesse ao seu alcance. Pão velho, biscoito, casca de mortadela, milho assado, doce, picolé, resto de almoço, pipoca e tinha sempre um osso enterrado para se distrair nas horas do nada fazer.

Pirá gostava muito de deitar no chão da varanda sob o sol forte, principalmente quando se espojava em algo apodrecido e vinha para dentro de casa fedendo à carniça.

Quando isso acontecia, tomava banho de mangueira com sabão amarelo. Era uma dificuldade enorme conseguir pegá-lo para colocar a coleira e prendê-lo à corrente. Eu odiava Pirá nos dias em que ele fazia isso, porque eu era obrigado a dar o banho no sem vergonha.

Ele era grandão, o lombo ficava na altura do assento das cadeiras.

Orelhas sempre em pé em constante vigilância. Olhos vivos, dóceis, eternamente pedintes. Rabo longo e fino que vez por outra ele ficava correndo atrás, em círculo, até conseguir pegar para coçar.

Pirá era tão desobediente quanto eu e sempre que aparecia cadela no cio, ele desaparecia de casa para voltar dias depois, estafado, faminto e muitas vezes ferido por causa das brigas, mas diferente de mim, deixou muitos descendentes.

Dona Mocinha era uma vizinha que criava galinhas para vender ovos, galinhas fora de postura além dos galos que ela mesma capava.

Todos os dias pela manhã, quando as galinhas cantavam anunciando que tinham acabado de por, Pirá desaparecia por um tempo, depois voltava e ficava dormindo embaixo da cadeira de balanço que era seu local preferido para os cochilos povoados de sonhos com grunhidos e movimento de patas.

Muitas vezes eu fiquei imaginando que em seus sonhos, Pirá devia estar correndo atrás de alguma caça em alta velocidade por campinas de mato rasteiro onde nada podia impedir sua carreira desenfreada.

Às vezes ele acordava com um salto e ia rápido lá para fora, observava o entorno e, decepcionado por não encontrar o que povoava seu sonho, voltava para continuar dormindo.

Um dia dona Mocinha foi lá em casa reclamar de Pirá.

Ela contou que havia notado a diminuição no número diário de ovos e sem encontrar a explicação, ficou observando o galinheiro. Estava no quintal quando Pirá apareceu.

Ele ficou parado olhando para ela e depois deitou junto ao muro. Ela apanhou os ovos e entrou em casa, mas ficou observando pela janela entreaberta.

Pirá levantou-se, forçou a cerca do galinheiro e entrou saindo logo em seguida.

No dia seguinte, dona Mocinha não foi para o quintal. Pirá entrou direto no galinheiro, saiu de lá com um ovo na boca e entrou num terreno baldio que havia na frente da casa dela.

Dona Mocinha foi atrás e encontrou Pirá, bebendo o ovo, refestelado entre várias cascas dos ovos que ele havia comido nos dias anteriores.

A partir desse dia, Pirá ficava preso na corrente até que dona Mocinha avisasse que já havia apanhado os ovos.

4 comentários:

Denise Coimbra disse...

Texto leve, conciso e que nos leva a "viajar na história. Do ponto de vista gramatical, me pareceu também correto. Adorei! Nota 10!!!

Anônimo disse...

Uma delícia de leitura! Pois é, o Pirá me cativou profundamente. Obra do autor, ou autora, claro! Parabéns. Marina Alves.

Anônimo disse...

(Padrão usado em todos os textos comentados para dar a todos um tratamento igual). Fazendo pois uso dos critérios apontados no regulamento, deixo aqui minha impressão: ortografia, gramática e pontuação me pareceram em ordem. Se há erros desta natureza, eu não detectei na breve leitura que fiz. Um relato simples, bem-humorado e convincente. O desfecho não oferece uma grande surpresa, porém não chega a prejudicar a história e embora eu não tenha me sentido totalmente envolvido pela narrativa, outros leitores poderão gostar muito, já que o texto parece estar de acordo com a proposta do concurso (observando o requisito de demonstração de afeto pelo animal). Avaliação pessoal: bom. Parabéns à autora ou ao autor e boa sorte! (Torquato Moreno)

Anônimo disse...

Gosto do que me toca. Este texto, simples, mas convincente me agradou bastante. Coceição Gomes.