sábado, 25 de fevereiro de 2012

O paletó - Autor: Ciro Fonseca

Lourival era um típico funcionário público dos anos sessenta. Era arquivista do Ministério da Industria e do Comercio, que ficava situado no antigo prédio do Edifício da “Noite” na Praça Mauá; Pegava no trabalho invariavelmente às 11:30 h, e o expediente se estendia até as 17:30 h quando o grosso livro de ponto era trazido por um contínuo meio sonolento, que também era encarregado de fazer todos os dias o jogo do bicho do pessoal, num bicheiro que havia numa escadinha atrás do Edifício do Ministério. Lourival gabava-se ser um funcionário pontual, chegava sempre antes do horário de entrada, mas era só isso, porque o resto do dia, o que valia mesmo era a presença do velho e desbotado paletó posicionado na cadeira, e o nosso herói passava o dia inteiro ou no salão de sinuca ou tomando um chopinho no bar do Zica, que ficava bem no andar térreo do respectivo Ministério, ou também disputando os inúmeros cafezinhos num joguinho tipicamente carioca chamado purrinha. E assim os dias iam passando, os meses, os anos, e o paletó sempre dando cobertura às artimanhas administrativas de Lourival.

Numa sexta-feira, o nosso amigo saiu às 12:30h para almoçar como era de costume, numa pensão na Rua Sacadura Cabral, que servia uma feijoada de dar água na boca de nordestino do polígono da seca; e entre uma caipirinha ou outra, depois de devorar toda a feijoada e mais duas laranjas, Lourival começou a ficar vermelho que nem pimenta dedo de moça, logo logo passou a ficar amarelo, e pronto, bateu com as dez, isto é, definitivamente caiu mortinho da silva. O dono do Estabelecimento um espanhol malandro, querendo se livrar do “presunto” colocou-o rapidamente num táxi e o levou para o Souza Aguiar e o largou na porta da emergência. Acontece que o Lourival havia deixado como sempre fazia, todos os seus documentos do bolso interno do famoso paletó e acabou sendo levado para o necrotério como “um homem desconhecido”, e como não tinha esposa, pois era um solteirão convicto, e nem família no Rio de Janeiro, e por causa da presença invariável do paletó, ninguém reparou no seu desaparecimento, e o pobrezinho foi enterrado como indigente.

Dias se passaram, e quando alguém por acaso perguntava por ele, a resposta era sempre a habitual, ele está por aí, olha o paletó dele na cadeira. Semanas se passaram, até que um colega que também encarava a famosa feijoada das sextas-feiras, acabou descobrindo que o Lourival passara desta para melhor. Voltou cabisbaixo para repartição (era assim que chamavam na época), e logo ao entrar, foi dando a infausta notícia; Vocês não sabem da maior, Lourival fechou o paletó. Que fechou que nada, despejou um gordinho que se sentava na mesa ao lado, Lourival está por ai, olha só o paletó.

Autor: Ciro Fonseca - Rio de Janeiro/RJ

Blog do autor: http://cirofons.blogspot.com/

pelo autor através de e-mail de 08/02/2012

4 comentários:

Carlos Lopes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Costa/Jornalista -Manaus/AM disse...

Meu poetá Cirô, maravilha de texto, amigo! Sabe que tenho medo que aconteça comigo isso também! Embora não use mais paletó, devido minha aposentadoria na "marra" e saber que minha esposa sempre anda comigo a todos os poucos lugares que ainda frequento, não quero ser um indigente como o Lourival chagara a sê-lo. Mas esse fato aconteceu de verdade meu poeta Cirô ou foi uma livre criação do amigo?

Carlos Lopes disse...

É amigo, aqui em PE o serviço público até que está além do paletó. Mas o uso do paletó na cadeira reinou por séculos.

´Flor* disse...

Poxa,como é bom encontrar um amigo contador de histórias aqui..Caramba,este paletó deve agora pertencer a muitos funcionários do planalto..será que serve para mulher também??Parabéns Ciro.adoro ler-te.Sucesso.Bjus\Mil\Flor*lá do Jardim do Amor*