sábado, 10 de agosto de 2013

Um lugar melhor e mais bonito


Autora: Maith

Tia Jupira tinha um apego muito grande pela casa que mandara construir, uma casa enorme com um belo jardim à volta, onde vivia sozinha.

Solteirona, com uma boa renda, conseguiu ter uma polpuda conta bancária que só fazia aumentar a cada mês.

Uma noite, porém, Jupira teve um sonho muito estranho. Sonhou que um Anjo aparecera e a convidara para ir com ele para um lugar muito bom e muito bonito, mas para isso teria que deixar tudo que era seu para trás.

Jupira não aceitou a proposta do Anjo. Nenhum lugar poderia ser melhor do que a sua casa.

O Anjo não insistiu..

Jupira continuou na sua casa, cuidando de suas coisas e nem pensou mais no sonho.

Alguns dias depois teve uma surpresa. Zilah, a sobrinha que não via há muitos anos, chegou carregada de malas e foi sem cerimônia entrando e espalhando suas coisas pela sala.

Nem sequer a cumprimentou, andou pela casa toda, examinando cada canto, abrindo gavetas e mexendo nos seus guardados. Quando se aproximava, ela olhava com uma expressão meio esquisita e não dizia nada.

Jupira nunca se dera muito bem com a mãe de Zilah, casada com seu irmão. Quando este morreu ela afastou-se mais e quando a cunhada casou-se novamente cortou toda e qualquer relação. Nem mesmo com a sobrinha ela quis manter qualquer contato e Zilah passou a vida toda ouvindo falar da tia Jupira como uma pessoa egoísta, intratável, avarenta, intrometida, etc.

Mas agora ela morrera e Zilah era sua única herdeira, isto é, pensou que fosse, mas para sua surpresa,apareceu uma filha do seu pai com uma antiga namorada, que ele assumira sem que ninguém da família ficasse sabendo.

Edméa chegou à mansão um pouco depois de Zilah.

As duas meias irmãs se deram muito bem. Agora coerdeiras de Tia Justina iam compartilhar tudo o que ela deixara.

A partilha do dinheiro já tinha sido feita e, quanto a casa elas concordaram que o melhor que tinham a fazer era vendê-la.

Quando Edméa subia a escada, de repente, virou-se e desceu correndo. Tinha visto o vulto da Tia Jupira de braços abertos, no alto como que querendo impedí-la de subir.

Zilah também tinha tido a estranha sensação de estar sendo observada, mas queria acreditar que era impressão. O fato de estar remexendo os pertences da tia que sempre tivera como muito apegada às suas coisas a perturbava.

Já Edméa que ouvira falar dela pela primeira vez quando fora surpreendida com a noticia da herança, estava eufórica e curiosa em avaliar quanto tinha ganhado tão inesperadamente.

— Quanto será que vale esta casa?

— Não tenho a menor ideia. Precisamos chamar uma pessoa para avaliar, talvez devêssemos procurar uma imobiliária...

Nunca tinham tido qualquer propriedade e não sabiam como agir. Tinham mesmo que procurar ajuda especializada.

— Estou tendo uns arrepios esquisitos.

— Será que está se gripando?

— Acho que não. É diferente.

De repente, ouviram um barulho na cozinha. Sem nenhum motivo aparente as panelas que estavam na bancada caíram espalhando suas tampas pelo chão..

— Meu Deus! Esta casa está assombrada!

— Calma! ... Deve ter sido uma rajada de vento...

Zilah nunca dera crédito para as histórias de assombração, mas agora estava acontecendo com ela, ou será que não?

Já Edméa admitia ter visto e sentido muitas coisas inexplicáveis.

A casa tinha muitos quartos e cada uma das garotas escolheu o seu, mas naquela primeira noite não tiveram coragem de dormir sozinhas no quarto. Acomodaram-se as duas juntas em uma cama larga e dormiram vencidas pelo sono.

Tia Justina resolveu dar uma trégua, retirou-se para seu quarto e adormeceu.

Nos dias seguintes os fenômenos estranhos continuaram a acontecer na mansão e as irmãs não sabiam o que fazer.

— Vamos mandar benzer...

— Eu acho que é melhor a gente abandonar a casa.

Edméa era menos medrosa do que Zilah:

— Qual nada! Vamos aguentar firme e vibrar para que apareça logo um comprador...

—Será que é honesto vender a casa sem contar o que está acontecendo?

—Não está acontecendo nada. É tudo impressão...

Uma gaveta que abriu de repente e lançou fora todo seu conteúdo assustou as duas.

Não havia como negar. A casa estava mesmo assombrada.

Algumas noites depois o Anjo tornou a aparecer para Jupira:

—Não resolveu ainda me acompanhar?

—Não. Porque você não leva essas duas intrometidas que invadiram minha casa, roubaram meu dinheiro e parece que estão querendo se apossar de tudo que é meu? Imagine que até a casa estão querendo vender!

—Esta casa não é mais sua. A intrometida aqui é você.

—Como assim? De repente eu perco tudo que é meu? Será... Que eu morri?

O Anjo sorriu complacente:

—Não. Ninguém morre. A vida continua em um lugar muito melhor e mais bonito do que este.

Estendeu a mão que Jupira ainda um pouco hesitante acabou por aceitar e lá se foram rumo a “UM LUGAR MELHOR E MAIS BONITO”...

Autora: Maith - Sorocaba/SP

Publicação autorizada pela autora

3 comentários:

Carlos Lopes disse...

Seja bem vinda ao blog, Maith.

Maria Mineira disse...

Querida Maith. É uma grande alegria te ler no Recanto e agora aqui, no blog dos "contadores de histórias". Seja bem vinda! Um abraço de sua amiga da Serra.

Ana Bailune disse...

Lindo conto! É preciso viver a vida de modo a dizer 'sim' à proposta do anjo, quando a hora chegar.