quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Companheiro de Caminhada

Autora: Marina Alves

De repente, ele pula de uma moita de capim, às margens do caminho. Susto! Mas daí, vejo que está pra brincadeira e fica tudo bem. Feioooso! Sujiiinho! Rio dele, ou de mim para mim: aqueles “trajes” são só seu uniforme de rua. Porque é na rua que mora, vê-se logo.
Simpatia recíproca! Destas que não se explicam. Não posso perder o ritmo da caminhada. Mas ele me acompanha. Faz mil gracinhas à minha volta como se inventasse brincadeiras para me divertir. E nem quer saber o que penso sobre isso...
O que penso? Só coisa boa. Adoro cães, e esse novo amigo aí, apesar da falta de banho e dos mil carrapichos, é uma graça. Orelhas e cauda abanam alegremente. E os olhos me dizem da alegria de ter me encontrado. Vá lá se saber por quê...
Vamos juntos pelo caminho que, por sinal, é loooonnnnnngo! Ele corre um pouquinho à frente. Para, olha pra trás. Certifica-se de que ainda estou por ali. Vê coisas que lhe chamam a atenção. Para aqui, para ali fazendo breves checagens, igualzinho a qualquer cachorro... Desfeita a curiosidade volta correndo, se emparelha e segue comigo.
Chi! Perigo à vista! Um cachorrão preto sai de uma construção. Instintivamente meu simpático “Sujismundo” se põe ao meu lado. Em atitude de defesa, rosna e mostra dentes nada amigáveis como quem late “Vai encarar?”. Mas o pretão não vai encarar de jeito nenhum! Não é bobo nem nada e some logo da área...
Meu novo amigo parece me conhecer desde os tempos da caverna. De onde essa intimidade, essa identidade? Sei lá. Também que diferença faz? Os animais são assim mesmo. Para eles as coisas são como são: simples. O ser humano, sim, é que tem a triste mania de complicar tudo...
 “Sujismundo” me acompanha até a casa. E agora? Será que entra? Abro o portão e vejo-o meio indeciso. Seu olhar faz uma sondagem entre a nova amiga e a rua. Sei que é um cão acostumado à liberdade. Sei também o que lhe pesaria o mundinho restrito de um canil ou de um pequeno quintal.
Faço menção de fechar o portão. Ai, que momento difícil! Mas ele escolhe. Sai correndo pelo caminho em que veio, vai atrás do próprio faro. Talvez volte exatamente para as imediações de onde o encontrei, talvez não... Seu mundo não tem limites.  Não sei se tornarei a vê-lo. Mas em suas filosofias caninas, quem sabe ele vá pensando “Ah, ela bem que podia morar na rua...”.

Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora

5 comentários:

Carlos A. Lopes disse...

Ótima percepção, amiga. Uma maneira diferente de ver um animal, no entanto realçando o comportamento amigável do animal.

Anônimo disse...

Ai, que delícia de texto!
Alice Gomes

Anônimo disse...

Obrigada, Carlos, por abrigar minhas modestas letras por aqui. Obrigada aos leitores. Marina Alves.

geraldinho do engenho rodrigues da costa disse...

Parabéns Marina, delicioso seu texto...Temos que aplaudir!

Nêodo Ambrosio disse...

Parabéns Marina. Uma bela história. Chega a emocionar.
Abraços fraternos.