sábado, 3 de agosto de 2013

Meu Cachorrinho Joca

Autora: Marina Alves

Chegou numa tarde qualquer. Não sei hora nem dia. E ficou. Era lindo e sujo.  A raça? Sei lá, uma mistura. Pequeno, cheio de carrapichos e espinhos. “Cabelos” embaraçados caindo sobre os olhos. Carinha de olhar mendigo. E eu me apaixonei. As crianças da vizinhança, vibrando. A varanda da frente virou sua casa. A cama? Um tapete de porta que ele mesmo elegeu. E o nome? Escolha da Gabriela: Joca. Ué, isso não é nome de coelho? É, mas foi escolhido para o cachorrinho e ficou sendo. Joca de quê? Precisa de um sobrenome? Então fica o da Gabriela: Oliveira. Isso! Joca de Oliveira...
Foi assim que ele virou meu cão. Tudo meio por acaso. E que festa ele era! Banho, Joquinha? Que nada! Saía voando! Odiava água. Coisa de cachorro de rua. Mas tomava na marra! A meninada ajudando. Ele esperneava. Queria fugir. “Pra quê isso?”, devia pensar. Agora mesmo vou rolar na poeira! E ia mesmo! Sacudia-se firme, molhando todo mundo. E sumia no mundo. Ninguém tentasse impedir! Inútil! Ia pro outro lado da cidade juntar-se aos cães vadios. E era valente por lá.  Logo ele que não media dois palmos de altura. Quem diria?
Mas, Joca sempre voltava. Nunca dormia fora. Vinha cheio de saudade. Pulava, gania, virava piruetas no ar. Gostava de me encantar com suas firulas. Era também o guardião do meu carro estacionado na rua. Bastava que alguém olhasse e lá vinha ele rosnando. E que rosnado! Era minha sombra, vivia me seguindo. Caminhava comigo, de manhãzinha. Longos seis quilômetros, mas ele nem ligava. Corria na frente. Escondia-se na vegetação, à margem da rua. Ficava quieto. Quando me via, pulava na frente. Feito criança travessa assustando adulto.
Joca nunca se deixou domar. Tinha seu lado vagabundo. Mas era doce e fiel. No inverno de 2003, adoeceu. Amanheceu triste no tapete. Recusou a comida. Não quis rua, nem caminhar. Percebi a espuma no canto da boca, os olhos embotados. Um veterinário da cidade vizinha veio buscá-lo. Joca olhou-me triste e partiu. Sem muitas esperanças, eu sabia... Mas, no fim da tarde a ligação “O danadinho é duro na queda! Em três dias vai ficar bom!”. Ah, que alegria! Joca era forte. Reagiu de forma inesperada!
Três dias. Meu cãozinho devia voltar pra casa logo pela manhã. Mas ele não veio. Nunca mais voltou. Durante a noite, aproveitando um descuido do pessoal da clínica, conseguiu escapar. O corpo foi encontrado ao amanhecer, sobre uma ponte. Tinha percorrido metade da distância entre as duas cidades quando foi atropelado. Àquela hora, louco de saudade, Joca de Oliveira voltava pra casa...


Autora: Marina Alves - Lagoa da Prata/MG

Página da autora:

http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=64920

Publicação autorizada pela autora

12 comentários:

Carlos A. Lopes disse...

O cão vagabundo, muito bom! Adorei o Joca e o seu jeito debandado de ser, coisa de animal. Estou a criar o meu quinto Porquinho da India, todos tratados da mesma maneira e cada um tão diferente, até no hábito alimentar. Os animais tem muito da gente ou a gente deles, uma pena que nem todo ser humano percebe isso. Parabéns Marina, mandou bem, se a história aconteceu, não sei, mas bem que podia ter acontecido pois tem alguns Jocas por aí, sejam cachorros, gatos ou Porquinho da India.

RebeldeS disse...

Linda estória, tio, aconteceu mesmo? Dê os parabéns a escritora.

Carlos A. Lopes disse...

Certamente darei o ¨parabéns¨ a ela, Duda, é a Marina Alves, como você deve ter visto o nome dela. Então vamos lá: Parabéns pelo texto fantástico Marina Alves, quem lhe deseja sou eu e a minha sobrinha Duda, ou Pessoas, como costumo chamá-la. Ela é filha da minha irmã e mora com os avós, lá em Custódia, aqui em Pernambuco.

Anônimo disse...

(tô aqui chorando). O Joca de Oliveira foi real e ainda é. Até hoje sinto saudade dele. A história, toda vez que a leio, me faz reviver aquele tempo bom do Joquinha. Emociona-me a fidelidade daquele cachorrinho. Obrigada, Duda e Carlos. Amo os animais, em especial aos cães. São amigos fiéis e sabem cativar o coração da gente, como muitas vezes, o ser humano não consegue. Abraço da Marina Alves.

Carlos A. Lopes disse...

Marina, hoje falei ao pessoal da minha sala de trabalho sobre o seu texto, que havia gostado muito. Imprimi e distribui com duas delas, que também gostaram e contaram muitas histórias de animais. Uma delas após ler, enfiou o papel na bolsa dizendo para levar para mãe também ler.

Anônimo disse...

Parabéns Marina! Emocionou-me a história do seu Joca. Beijos
Michele C.Marchese

Anônimo disse...

Que linda história Marina. Gostei muito. Parabéns! Anajara.

Maria Mineira disse...

Comadre Marina. Estou chorando, ainda mais sabendo que foi tudo verdade...Não dou conta de terminar o comentário...Abraço grande.

Anônimo disse...

Muito bom ver estes modestos escritos ganhando asas, voando longe, emocionando outros olhos. Obrigada, a quem deixou seus comentários, a você, Carlos, pela atenção de sempre, e aos leitores em geral. Marina Alves.

Carlos A. Lopes disse...

Não nos agradeça por você nos emocionar, nós é que agradecemos. Ninguém aqui no blog vai discordar se eu afirmar que seu texto tocou na alma de cada um de nós. Falar de animais é isso, é não ter vergonha de expor nosso sentimento, da forma mais pura. Digo sempre, animal não é brinquedo de criança, deve ser um amigo da criança; também não deve ser o desabafo do adulto, apenas um amigo que necessita amor e proteção.

Nêodo Ambrosio de Castro disse...

Marina, a sua história chega a ser emocionante. Nela colocou a emoção. Quando criança tive um cão. Morreu envenenado. Nunca mais desejei ter outro, pois jamais encontrei um que substituisse o meu 'Feroz" era um vira-latas mas era o meu cãozinho do tempo de criança. Parabéns pelo belo texto. Abraços.

Adriane Morais disse...

Muito bom! Simples e cativante...